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17-02-2017, 13h34

Cícero Dias – Um Percurso Poético

Retrospectiva do artista passará por Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro

Daniela Martins
BRASÍLIA

Nascido em 1907 em um engenho de açúcar pernambucano, neto de barão, Cícero Dias cresceu vendo de perto um Brasil arcaico e patriarcal, recém-saído da escravidão. No entanto, a interpretação do mundo que surge em seus quadros nada tem de tradicional. Ao contrário, as figuras oníricas e claramente sensuais que voam sobre os cenários dessa infância rural refletem uma liberdade que jamais poderia ter passado despercebida.

Gilberto Freyre, para quem o artista ilustrou a primeira versão de “Casa Grande e Senzala”, disse: “Cícero Dias desarruma as coisas, as pessoas e os animais da terra para juntar depois objetos que nunca ninguém viu juntos – às vezes, os deste mundo com os do outro.” ¹

A primeira exposição que fez no Rio de Janeiro, em 1928, aconteceu durante um congresso internacional de psicanálise, na Policlínica. As obras chamaram a atenção de críticos e de artistas modernistas justamente pelas imagens que evocam o inconsciente e a memória em toda a sua resistência a regras e padrões.

Perseguido pelo Estado Novo, Cícero partiu para Paris em 1937 e lá viveu até a sua morte, em 2003. Na Europa, seu talento foi imediatamente reconhecido por artistas de peso como Pablo Picasso e ele experimentou diversos padrões em sua pintura, chegando até a abandonar por completo as figuras para explorar o universo da abstração e da geometrização.

Merecem destaque as pinturas da “fase vegetal”, que ilustram bem o momento de transição entre a figura e a abstração, mantendo a ousadia que sempre esteve presente em seus trabalhos. Duas pinturas da fase das “entropias”, já da década de 1960, também estão na montagem. Nelas, Cícero deixa de lado as formas geométricas e brinca com os efeitos da tinta escorrida. Mais uma vez, não há como deixar de perceber a busca pela liberdade da forma, do estilo, das cores que se misturam sem controle.

Identificado com o movimento modernista e revelando influência de Marc Chagall na primeira fase de sua obra, Cícero nunca fez parte, formalmente, de nenhuma escola ou movimento artístico. “Na sua longa e prolífica carreira, Cícero Dias manteve, como poucos, a fidelidade a si próprio. Sempre foi inteiramente livre, ousando fazer o que lhe dava vontade, sem medo das críticas”, afirma a curadora da mostra, Denise Mattar.

Nome fundamental no panorama da arte brasileira do século XX, Cícero Dias foi amigo de grandes artistas de seu tempo, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes, José Lins do Rego, Mário Pedrosa, Villa-Lobos, Mário de Andrade, Paul Éluard, Pablo Picasso, Alexander Calder, entre outros. A exposição apresenta fotografias, documentos e cartas trocadas entre eles, uma atração à parte.

A mostra fica em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, até o dia 3 de abril. Seguirá depois para São Paulo (de 21 de abril a 10 de julho) e para o Rio de Janeiro (de 1º de agosto a 25 de setembro). Para informações sobre visitas e horários, consulte o site do CCBB.

Cícero Dias CCBB Brasília

¹ Citação extraída de “Entre Dois Séculos, arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateubriand”, de Roberto Pontual

Foto da home: Divulgação / Base 7
Foto do post: Gilberto Evangelista

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