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Entrevistas
18-09-2017, 21h28

Doria defende “ajustes” em lei da delação premiada

Alckmin tem preferência, mas isso não basta para disputar Planalto, diz
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KENNEDY ALENCAR
BRASÍLIA

O prefeito de São Paulo, João Doria Jr., defende “alguns ajustes” na lei de delação premiada para evitar repetição de erros como no caso JBS. “Primeiro, é importante que a delação premiada exista e seja mantida. Então, esse é um ponto. Dois, ela pode ter alguns ajustes.”

Doria acredita que deva ser fixada uma idade mínima para aposentadoria no Brasil, mas discorda de 65 anos para homens e de 62 anos para mulheres, como prevê relatório aprovado em comissão especial da Câmara.

“Já que se fala de igualdade, preservar este conceito na idade mínima. Acho que 60 anos seria uma idade adequada, tanto para o homem quanto para a mulher”. O prefeito se disse favorável ao aumento do tempo mínimo de contribuição para pedir aposentadoria dos atuais 15 anos para 25 anos.

O tucano afirma que, sem aprovar a reforma da Previdência, não será possível aplicar a regra constitucional que limita o crescimento dos gastos públicos. Doria diz ser “claramente contra” a regra atual de reajuste real do salário mínimo, que vale até 2019. “Ela estabelece um engessamento.”

“Quem não gostaria de ser presidente do Brasil?”, ele pergunta retoricamente. Mas afirma que a eventual candidatura ao Palácio do Planalto no ano que vem dependerá da “conjuntura”. O tucano admite que o governador Geraldo Alckmin, seu padrinho político, tem “preferência” no PSDB, mas ressalta que “não basta isso” para ser escolhido. Ele avalia que é preciso levar em conta pesquisas e medir, por exemplo, “potencial de crescimento”.

Admite disputar prévias no PSDB contra Alckmin, que defende esse mecanismo. “Não sou contra as prévias, nem poderia ser contra. Eu sou filho das prévias”. Indagado se descarta mudar de partido para viabilizar uma candidatura presidencial, responde: “Tudo ao seu tempo”.

Doria nega que esteja usando a cidade de São Paulo como trampolim para disputar a Presidência. Defende suas frequentes viagens e afirma que o paulistano entende os motivos. Ele não acredita em desgaste político diante da imagem de que a cidade ficaria em segundo plano. Rebate as críticas de que estaria faltando gestão na capital paulista e atribui problemas a uma herança do governo Haddad.

O prefeito diz que fará nova concessão para linhas de ônibus até o final do ano, mas que o prazo de validade será de 10 anos e não mais de 20 anos. “São 10 anos, e está pra lá de bom!”

A entrevista foi dada no fim da tarde de domingo, em São Paulo. Faz parte da série “Cenários 2018″, que será exibida pelo “SBT Notícias” à 1h15 na virada das noites de segunda para terça até 19 de dezembro.

Abaixo, veja a íntegra da entrevista em vídeo e texto:

Kennedy Alencar – Olá, prefeito. Obrigado por estrear com a gente “Cenários 2018″, esta série do SBT.

João Doria Jr. – É um prazer, Kennedy! Muito obrigado, também, por estar participando do primeiro programa [é uma série do telejornal “SBT Notícias”]. Muito sucesso para você! Como tudo que você fez na sua vida profissional, sucesso!

KA – Obrigado, prefeito. Vou começar falando com o senhor sobre a reforma da Previdência. Existe um consenso razoável no país, entre os principais especialistas, de que é necessário fazer uma reforma da Previdência. Faço uma pergunta bem objetiva: o senhor é favorável a se criar uma idade mínima de aposentadoria de 65 anos para os homens e de 62 anos para as mulheres?

JD – Eu sou favorável, primeiro, à reforma da Previdência. Ela é fundamental. E eu espero que ainda neste semestre o Congresso Nacional realize, pelo menos basicamente, a definição da idade mínima, ou seja, preservando os direitos daqueles que já estão no processo de aposentadoria, sem eliminar direitos o que seria traumático, ao meu ver. E o bom sentimento também do Congresso de não desejar fazer isso, acho correto. Mas adotar a idade mínima… Talvez até em forma de igualdade, eu não diferenciaria homens e mulheres. Eu entendo que valeria a pena até, já que se fala de igualdade, preservar este conceito na idade mínima. Acho que 60 anos seria uma idade adequada, tanto para o homem quanto para a mulher. Acho que seria adequada nesta etapa atual.

KA – Os 62 e 65 anos o senhor acha muito, então?  

JD - Eu acho adequado, mas eu sinto, do ponto de vista do Congresso Nacional, que talvez haja uma dificuldade nesse sentido. Se não houver, ok, 62 para mulher e 65 para homem seria o correto e o adequado. Mas, se houver dificuldade, é melhor você ter o meio-termo de 60 do que não ter nenhuma.

KA – Prefeito, há outra coisa nesse relatório da reforma da Previdência que já foi aprovado em Comissão Especial da Câmara e que depende de ir à votação, duas votações constitucionais na Câmara — são necessários 308 votos — e duas no Senado. Portanto, é uma tarefa difícil. Há outro ponto importante, sobre o qual eu queria ouvir a opinião do senhor: há uma previsão de se elevar o tempo mínimo de contribuição. Hoje, uma pessoa contribui por 15 anos e pode pedir a aposentadoria. A reforma propõe o tempo mínimo de 25 anos de contribuição. O senhor é a favor ou contra?

JD - Sou a favor, claramente a favor. Não vejo razão para uma pessoa, ao trabalhar 15 anos, já ter direito a uma aposentadoria plena. Ora, nós estamos num mundo onde o trabalho é a essência, é o que determina até a própria cidadania. Vinte e cinco anos não é um tempo exagerado de trabalho. Kennedy, eu trabalho desde os 13 anos de idade, tenho 59 anos, portanto já estou rodando há mais de 45 anos. Tenho boa condição física, tenho boa condição mental. E, como eu, milhares de outras pessoas têm também. Não há razão para estabelecer apenas 15 anos. Portanto, para ser muito claro, sou a favor dos 25 anos.

KA – A crítica é que haveria um segmento dos trabalhadores, trabalhadores na informalidade, de baixa escolaridade, de baixa renda, que teriam dificuldade para comprovar os 25 anos.

JD - Ora, mas por alguns você fazer o todo não é correto. Acho que você pode até fazer uma análise específica em relação aqueles que podem — e é correta a sua observação — estar sendo prejudicados. Que se estabeleça uma condição específica para isso, mas considerar o todo inviável em função de poucos não é uma medida justa.

KA – Há um terceiro tema sobre o qual quero ouvir a opinião do senhor. O governo Temer aprovou, lá no Congresso Nacional, uma regra constitucional que limita o crescimento das despesas públicas, a chamada regra do teto. Ela vai valer por 20 anos. Pode ser revisada no décimo ano. O que ela prevê? Que o orçamento da União, no ano seguinte, só pode crescer de acordo com a inflação do ano anterior. A gente está vendo que a reforma da Previdência, da qual nós acabamos de falar, tem dificuldade de ser aprovada. Há um crescimento das despesas públicas. O governo elevou as metas fiscais, ou seja, houve uma expansão de gastos. Portanto, há uma dificuldade para se cumprir essa regra do teto já no ano que vem e num próximo governo. A pergunta para o senhor é bem objetiva: num próximo mandato de presidente da República, no próximo governo, essa regra deve ser flexibilizada?

JD - Ela deve ser obedecida, mas talvez com uma ou duas excepcionalidades consideradas na regra. A questão da Previdência. Enquanto não for claramente resolvida a questão da Previdência, essa regra não pode ser imutável, porque só a Previdência já engole a regra. Então, havendo sim a reforma previdenciária plena, aí a regra pode ser absoluta, sem exceção. Não havendo, toda regra pode estabelecer um ou dois pontos onde é flexibilizável. Nos demais pontos, não, sem flexibilização.

KA – No governo Lula, em 2007, foi criada uma regra de reajuste real do salário mínimo. É uma fórmula que prevê que o reajuste do mínimo dê a inflação do ano anterior mais a variação do PIB de dois anos antes, desde que essa variação, é claro, seja positiva. Se é uma variação negativa, aplica-se apenas a inflação do ano anterior. Essa regra, prefeito, vale até 2019, portanto o próximo governo vai ter que discutir isso. Nós estamos aqui no “Cenários 2018”. No ano que vem, isso vai ser um tema da agenda do país. Esta é a pergunta: o senhor é contra ou a favor da manutenção dessa regra?

JD - Contra, claramente contra. E até 2018 é um bom ano para se debater. E, se não houver tempo ou circunstancialmente não puder ser debatido, que se coloque em debate o ano de 2019. Porque ela estabelece um engessamento, tanto para cima quanto para baixo. As circunstâncias da economia podem permitir que o reajuste seja melhor, seja superior a isso. Ora, você vai prejudicar a classe trabalhadora, se você tem uma condição econômica do país numa economia revigorada, com crescimento concreto e efetivo? Vai estabelecer um limite e impedir que você ofereça ao trabalhador uma condição de um salário mínimo maior? E a outra situação é o inverso: se você tem um processo recessivo — não é o que se apresenta, temos aí um cenário de crescimento econômico, felizmente, pela frente —, mas, se tivermos uma situação, no futuro, de recessão econômica, você estabelecer um engessamento, onde o governo terá que oferecer necessariamente um aumento real no salário mínimo, também não casa adequadamente.

KA – Se houver uma recessão, no caso, não tem aumento real, porque é só inflação. Só há aumento real quando é positivo.

JD - Mas, mesmo assim, fica esdrúxulo. É melhor que você tenha o sentimento de dar liberdade a que, ano a ano, esse posicionamento possa ser adotado. Um bom dirigente, um bom presidente da República, um bom Congresso, os partidos que estiverem em uma composição de governo minimamente têm que responder à população que trabalha. Minimamente, é preciso ter sensibilidade social. Então, eu acho que, pelo bom senso, é melhor estabelecer a regra mais pelo bom senso do que pelo engessamento.

KA – Prefeito, há previsões do mercado e até do próprio governo de que a dívida pública bruta em relação ao produto interno bruto (PIB) possa chegar a 80% do PIB em 2019.

JD – Isso é um absurdo.

KA – É um crescimento grande. Há uma dificuldade para se votar uma reforma tributária na qual poderia ser discutida, por exemplo, uma mudança na cobrança de impostos a mais dos mais ricos, porque a gente tem um sistema muito regressivo. O pobre e o rico pagam proporcionalmente a mesma coisa. Podia também simplificar mais o sistema. Isso seria um estímulo à atividade empresarial. A gente vê que há dificuldade para isso. Levando em conta esse cenário — uma dívida pública em crescimento, dificuldade para se aprovar uma reforma tributária —, faço uma pergunta fácil para o senhor: qual é a receita para o Brasil voltar a crescer?

JD – Primeiro, ter uma economia ordenada e planejamento de médio e longo prazo. Depois, política fiscal rigorosa. Terceiro, eu não faria alterações tributárias, exceto pontualmente, caso a caso, ou para diminuir a carga, ou para atualizar a carga, ou seja, permitir uma justiça fiscal correta.

KA – Os mais ricos deviam pagar mais impostos no Brasil?

JD – Em algumas circunstâncias. Em outras, não. Estabelecer a culpa pela situação aos mais ricos também não é correto. Mas é preciso olhar isso sempre com lupa e com atenção. Há algumas injustiças pontuais, sim, e até em algumas profissões. Há pouco almocei com um grande jurista brasileiro — não vou aqui declinar o nome —, mas ele me dizia: “Olha, os advogados pagam pouco imposto”, ele dizia. E é um jurista que está no ranking dos dez mais importantes juristas brasileiros. E justificou, e eu concordei, realmente pagam pouco. Não estou aqui dizendo que isso deva ser alterado, mas…

KA – Atinge até os jornalistas. Há um mar de pessoas jurídicas (PJ) que tem uma carga tributária menor do que tem o trabalhador.

JD – Claro, e isso não é justo, não é correto. Então, não é um estigma dizer: “Bem, aos mais ricos, mais impostos”. É justiça fiscal. Estabelecer, de forma ordenada, ponderada, dialogada, a justiça.

KA – Mas, nos países mais desenvolvidos, os mais ricos pagam mais impostos.

JD – Podem pagar, mas é preciso ter cuidado também para não estabelecer isso como uma regra estigmatizadora. Esse é o ponto. Porque o PT, no passado, levantou essa tese muito mais como um estigma de “vamos penalizar os ricos”, e não estabelecer a justiça fiscal. E o ponto que eu queria ressaltar, na complementação a essa indagação sua, Kennedy, é combater a sonegação. Porque é muito grande, ainda, a sonegação fiscal no Brasil. E, se melhorar… Nós estamos fazendo em São Paulo, aliás. A cidade de São Paulo hoje tem um programa rigoroso de combate à sonegação, de combate à pirataria, de combate à falsificação e à importação ilegal, ao contrabando. Então, só isso já está aumentando a receita da cidade. O governo Federal, a meu ver, deve investir em programas que inibam fortemente e penalizem aqueles que são sonegadores, aqueles que são fraudadores, aqueles que são falsificadores, e os que fazem a importação ilegal, o contrabando.

KA – Prefeito, quero tocar na questão do investimento público, ainda nesse assunto que envolve a dívida pública. O governo tem perdido a capacidade de investimento, reduziu os investimentos públicos. A gente vê que há um crescimento de despesas de custeio em várias direções. Há um crescimento com gasto salarial do funcionalismo. E camadas do funcionalismo, altas castas, que ganham muito, têm ainda aqueles penduricalhos, ganham acima do teto constitucional. E há despesas de custeio excelentes, como comprar merenda, que é uma despesa de custeio. Então, a gente tem que…

JD – Ela é necessária.

KA – Ela é necessária. A minha pergunta para o senhor é a seguinte: na questão do investimento público, valeria a pena aumentar a dívida pública para que o Estado e o governo federal façam investimentos e isso ajude a economia a ganhar mais força? Ou o senhor acha que isso tem que caber só à inciativa privada, que não temos que elevar a dívida pública para aumentar investimento público?

JD – A priori, não sou a favor, Kennedy, e sim a favor de privatizações, desestatizações. Portanto, concessões, PPPs e privatizações, ou seja, venda direta. Entendo que é uma forma mais eficiente de você colocar uma política pública de atração de investimentos. O Estado é muito gordo, o Estado brasileiro. É gordo nos municípios, é gordo nos Estados, é gordo no plano federal, salve exceções, raríssimas exceções. Portanto, sou plenamente favorável a um amplo programa de desestatização — bem planejado, evidentemente, como tudo deve ser feito: com planejamento, com ordem, com debate, mas com decisão política.

KA – Prefeito, o instrumento da delação premiada — a gente tem visto na operação Lava Jato — tem sido um expediente, um mecanismo importante do combate à corrupção. No entanto, nesse caso JBS, que o país inteiro acompanhou, o procurador-geral da República pediu a rescisão dos acordos de colaboração premiada do empresário Joesley Batista e do executivo Ricardo Saud. Os críticos da delação premiada como esta que existe hoje dizem que é um erro firmar, por exemplo, o acordo e deixar a produção de provas para depois, ou seja, que teria de haver um ajuste. Na sua opinião, a lei da delação premiada que vigora hoje no Brasil deve mudar ou deve ficar como está?

JD – Olha, é uma boa pergunta, mas não é uma resposta tão rápida. Primeiro, é importante que a delação premiada exista e seja mantida. Então, esse é um ponto. Dois, ela pode ter alguns ajustes. Esse episódio específico da JBS foi um caso. Os juristas que conhecem melhor isso atestam que teria sido melhor produzir provas antes, do que fazer o acordo e permitir uma situação minimamente esdrúxula, em que o delator vai passar férias em Nova York ou vai viver no exterior, andando de jatinho ou passeando de iate, etc., e largando a situação passada, ou seja, quase como um salvo-conduto eterno.

KA ­- Houve um erro ali?

JD – Eu acredito que sim. Então, alguns ajustes deveriam ser incorporados para que não houvesse dúvida de que o mecanismo de delação premiada é bom — e ao meu ver é, quero reafirmar isso —, mas para que não passe à sociedade o sentimento de que um delator, pelo fato de delatar, possa viver ao seu bel-prazer, sem nenhum tipo de ônus, exceto ônus pecuniário, e viver a normalidade da sua vida. Ele também foi um criminoso. Ele pode e deve ter alguma sanção. Na forma em que houve, isso não ficou caracterizado. E os fatos acabaram demonstraram isso, inclusive.

KA – Prefeito, vamos falar um pouco agora de política e da prefeitura de São Paulo. A gente tem visto que o senhor tem uma agenda muito acelerada, muito forte. E seu lema é “Acelera!”. A gente viu a sua chegada aqui ao SBT. As pessoas querem tirar fotos com o senhor. Falam também: “O Doria está em um ritmo de campanha presidencial”. Pergunto para o senhor, com toda sinceridade: o senhor tem desejo de ser candidato à Presidência no ano que vem?

JD ­- Kennedy, olha, quem não gostaria de ser presidente do Brasil? Você, que está nos assistindo agora, se lhe fosse facultada a ideia, a possibilidade de concorrer à Presidência da República… Certamente muitos, mas muitos mesmo, diriam sim. Qualquer pessoa gostaria disso. Uma coisa é desejar, outra coisa é formalizar, estabelecer a sua própria rota, o seu caminho.

KA – Ou seja, o desejo do senhor de concorrer no ano que vem existe, mas isso vai depender da conjuntura?

JD – A conjuntura é que vai formatar, eu diria, o desejo. É o inverso. Porque eu tenho muito zelo, muito cuidado, sobretudo na relação com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Até conversamos sobre isso, há pouco tempo. O governador é uma pessoa correta, é um homem de bem, é um homem honesto, um bom homem público e um amigo. Eu tenho 37 anos de amizade com o governador Alckmin. Eu não quero, em função de manifestações, criar fissuras e principalmente arranhões ao governador, e principalmente nessa relação fluida e boa que tínhamos, temos e vamos continuar a ter. E também não quero fissuras dentro do próprio PSDB. Eu me filiei ao PSDB em 2001, Kennedy, por decisão própria. Ninguém me convidou, ninguém me induziu. Não foi uma filiação com objetivo eleitoral. Quinze anos depois, quase 16 anos depois é que tomei uma decisão de disputar uma eleição pelo PSDB. Então, eu não quero transformar isso num ponto divisionista dentro do PSDB e distanciador na relação com o Geraldo Alckmin. E, ao mesmo tempo, eu tenho a preocupação, sim, de preservar o arco de alianças que tem o PSDB com vários importantes partidos. Nós temos, na prefeitura de São Paulo, quinze partidos que nos dão apoio. O governador Alckmin, se não estou enganado, tem doze no governo do Estado. E, pelo Brasil afora também, o PSDB é um partido muito articulado com as suas bases.

KA – E aquilo que o Tasso falou, que o Alckmin seria o primeiro da fila no PSDB? O senhor concorda com o Tasso?

JD – Eu prefiro a posição do presidente Fernando Henrique, sem desmerecer o senador Tasso Jereissati. A posição do presidente Fernando Henrique foi esta: “Olha, o governador tem mais tempo e, consequentemente, preferência, mas não basta isso”. Então, essa é uma colocação, eu diria, mais completa do que a do senador Tasso, sem desmerecer o senador Tasso Jereissati. E o presidente Fernando Henrique defende dois pontos que eu também defendo: prévias e pesquisa. Os dois elementos vão ajudar o PSDB a ter uma decisão mais acertada, mais objetiva, numa campanha difícil, como será a campanha de 2018.

KA – Então, eu entendo que o senhor hoje tem uma disposição, se necessário for, de disputar a prévia e a pesquisa não ser o único critério. Se precisar disputar uma prévia, em tese, o senhor disputaria.

JD – Eu não sou contra as prévias, nem poderia ser contra. Eu sou filho das prévias.

KA – O senhor disputou no ano passado, não é?

JD – Sou filho delas. Aliás, o governador Alckmin foi quem defendeu. Devo a ele, inclusive, o fato de terem ocorrido em São Paulo, como ocorreram.  E nós vencemos as prévias. Mas, obviamente, uma coisa é você ter uma prévia municipal, outra coisa é uma prévia nacional. A forma mais equilibrada seria ter as duas, ou seja, prévias e ao mesmo tempo avaliação de pesquisa. Porque pesquisa você mede o hoje e o ontem, e pode avaliar o amanhã também.

KA – O potencial.

JD – O potencial de crescimento, no caso de desconhecimento do candidato, que isso se reflete no potencial de conhecimento, rejeição e intenção de voto.

KA – Os defensores da sua candidatura dizem que ela teria um potencial maior de ser vitoriosa do que a do governador Geraldo Alckmin. O senhor avalia que isso é verdadeiro?

JD – As pesquisas é que vão dizer. Eu não quero estabelecer isso como um princípio. As pesquisas, quando vierem a ser feitas especificamente sobre esse tema, elas é que vão refletir. Portanto, é justo que se defenda isso. Aliás, eu defendo inclusive que, se houver outros candidatos do PSDB, outros nomes possam ser colocados também nas pesquisas e, eventualmente, até nas prévias. É a forma mais democrática possível.

KA – Prefeito, o senhor está falando do PSDB, mas a gente sabe que o PMDB e o DEM convidaram o senhor para se filiar a esses partidos, para concorrer eventualmente à Presidência da República. Há bastidores de que outras legendas apresentaram também convite ao senhor. De quatro a sete partidos teriam manifestado interesse em levar o João Doria para eventualmente ser um candidato à Presidência da República, no ano que vem. Se chegar a um ponto no PSDB em que não seja possível viabilizar a sua candidatura como tucano, o senhor descarta a filiação a um outro partido?

JD – Kennedy, tudo ao seu tempo. Não se pode precipitar previsões e antecipá-las. Deve-se analisar de acordo com o momento e a circunstância. Primeiro, eu não anunciei nenhuma pré-candidatura, até agora. Depois, fico muito lisonjeado, evidentemente, com a forma cordial do tratamento de outros partidos, inclusive os dois que você mencionou. Mas não houve nenhuma formalização oficial, aberta, pública. Então, é preciso tratar isso com atenção. O que é importante? É preservar esse arco de alianças. Eu entendo que essa eleição presidencial é uma eleição onde um arco sólido de alianças fará do candidato do PSDB e dos partidos aliados um fortíssimo candidato à Presidência da República e, consequentemente, com mais chances de se eleger. Então, é preciso ter cuidado, zelo, a ponderação e uma capacidade aglutinadora desses partidos.

KA – Prefeito, eu me lembro quando o senhor recebeu uma ovada em Salvador. Eu fiz um comentário no dia seguinte criticando aquilo, porque eu achava que aquilo estimulava a intolerância no debate público.

JD – Eu acompanhei.

KA – Mas eu me lembro também que o senhor fez um vídeo, logo na sequência, contrariado, numa reação de quem havia recebido um ovo no paletó ou uma coisa assim, dizendo: “Olha, são petistas, esquerdistas…” O senhor já se referiu à ex-presidente Dilma como anta; entra muito em choque com o Lula, vira e mexe chama o Lula de mentiroso, é muito agressivo. A minha pergunta para senhor é a seguinte: ao reagir dessa maneira, o senhor também não está estimulando a intolerância no debate público? Não demonstra até um certo autoritarismo, prefeito, queixando-se de reportagem de jornalista, dizendo que todos os petistas e esquerdistas são preguiçosos? Isso não é errado, do ponto de vista de alguém que quer civilizar o debate público?

JD – É boa a sua pergunta. Em relação à ex-presidente Dilma, eu já me desculpei. Não devia ter feito o comentário. Foi indelicado. Eu já me desculpei publicamente e aproveito para repetir aqui as minhas desculpas. Não é assim que se refere a uma senhora, não importa se de outro partido. Enfim, foi inadequada a colocação. Eu já me desculpei por ela. No debate político, a intolerância não é boa, não é positiva. Às vezes, diante de circunstâncias… Naquele momento, em Salvador, o ACM Neto… Perdão, o prefeito, o prefeito de Salvador também foi agredido ali. E não foram só ovos, foram rojões também. Felizmente, não atingiram ninguém, mas foi um ato muito agressivo.

KA – Que deve ser condenado. Eu condenei o ato, no dia seguinte.

JD – Exatamente, você fez isso, e de forma clara. O que eu aprendi no setor privado estou aplicando agora, no setor público. Na área privada, você aprende que do limão se faz a limonada. Agora já aprendi: na área pública, da ovada se faz a gemada. Então, é mais por esse espírito construtivo, e não a reação agressiva, devolver na mesma moeda. Isso não vai fazer um país melhor. Eu entendo — e vou chegar aonde você quer — que a política, sobretudo até às eleições em outubro do ano que vem, devem ser feitas no campo do debate, do debate de ideias e propostas para o Brasil: retomada do crescimento; retomada do emprego; a inserção do Brasil no contexto internacional, porque o Brasil perdeu essa posição; a atração de novos investimentos; um olhar de modernidade, um olhar digital e menos analógico; trazer gente mais nova para participar de governo; propostas desestatizantes. Esse deve ser, a meu ver, o grande debate para as eleições de 2018. Em relação ao ex-presidente Lula, eu realmente fico muito contrariado quando vejo os depoimentos, a forma com que ele… E com a desfaçatez com que ele se apresenta na televisão, seja através da publicidade do próprio PT ou encontros, como esse que o Brasil inteiro viu, dele com o juiz Sérgio Moro. Uma mentira deslavada! É obvio que ele mente, e mente com muita convicção. Isso me cria uma repulsa e me faz ser incisivo, sem desrespeitá-lo. Eu nunca dirigi um palavrão. Aliás, eu não falo palavrões. A bem da verdade, nunca falei palavrão.

KA – O senhor tolera bem críticas, quando é criticado?

JD – Tolero. O que eu não gosto é da injustiça, Kennedy. A crítica, ela é justa, ela é útil. Ela é, aliás, extremamente útil. Ajuda você a ser melhor, a corrigir falhas e melhorar o seu desempenho. Eu até agradeço quando as críticas são construtivas, do ponto de vista de dizer: “Olha, errou aqui, errou acolá”. E assumo, não tenho nenhum problema. No setor privado é assim também, a crítica constrói. Agora, a injustiça fere.

KA – Prefeito, nosso tempo está praticamente esgotado, mas eu queria abordar com o senhor rapidamente três questões. E peço ao senhor que acelere um pouquinho as respostas. O Ministério Público pediu explicações sobre as viagens do senhor. O senhor já deu as suas explicações. Disse que viaja com o seu dinheiro, que é uma agenda para ver projetos que o senhor julga interessantes para trazer para a cidade de São Paulo.

JD – Investimentos também.

KA – Investimentos, enfim. O senhor apresentou as suas justificativas. A minha pergunta é mais no sentido da imagem que isso transmite para o eleitorado de São Paulo. Eu ouvi taxistas reclamando: “Mas o Doria agora está governando São Paulo por Skype, por WhatsApp…” A pergunta para o senhor é se essas viagens frequentes não transmitem uma imagem de que a cidade está em segundo plano e de que está sendo usada como um trampolim para uma campanha presidencial.

JD – Não, a cidade está em primeiro plano. Agora, eu sou um prefeito moderno. Primeiro, por ter uma equipe, um bom time. Eu não tenho um time político, eu tenho um time de gestores, de administradores. Então, esse time trabalha permanentemente, como hoje. Hoje é domingo, e nós estamos gravando o programa às 17h30min da tarde. Eu já fui à Zona Norte, à Zona Leste, à Zona Central da cidade hoje fazer programas públicos. Ontem também, sábado, o dia inteiro. E não fui só eu. Vários dos secretários da Prefeitura de São Paulo também trabalham sábados e domingos. E durante a semana trabalham, em média, de 16 a 18 horas por dia. Eu trabalho em um dia o que um petista, às vezes, demora três ou quatro dias para produzir. Então, é diferente, é uma visão diferente. Eu não vou deixar de viajar, e nem de interpretar a cidade de São Paulo, que é uma cidade global. Eu tenho que buscar novos investimentos para a cidade. Esse projeto de desestatização exige investidores internacionais, que vão disputar os projetos que estamos colocando em bolsa. Quanto maior o valor, mais ganha a cidade. E experiências positivas também, nacionais e internacionais, devem ser aplicadas em uma cidade global como São Paulo. É uma outra concepção. Eu compreendo que às vezes haja uma certa reação, e não desqualifico reações como essas. Mas, como eu sou muito dedicado ao trabalho…

KA – Não pode pegar mal para o eleitorado?

JD – Não, porque eles acompanham. Pelas redes sociais, eu estou 24 horas…

KA – … prestando contas.

JD – Presto contas. Se você abrir agora o meu Facebook, você que está nos acompanhando, vai ver que ali tem postagens de meia hora atrás ou 40 minutos atrás. Eu estou muito constante. Então, é transparência absoluta. As pessoas sabem onde eu estou, com quem estou e o que eu estou fazendo.

KA – Tempo esgotado, faço a última pergunta. O senhor se elegeu com um discurso de gestor. Há uma frase que é atribuída ao governador Geraldo Alckmin, no folclore político. Ele teria dito o seguinte: “O político está aqui fazendo gestão, até tarde, no Palácio dos Bandeirantes, e o gestor está fazendo política, viajando pelo Brasil”. É uma frase atribuída ao Alckmin.    

JD – Que, aliás, não é verdade.

KA – Ele disse para o senhor que não falou?

JD – Não, não é verdade, ele não disse essa frase.

KA – É uma intriga política?

JD – Isso é intriga. O governador é um homem de uma educação!

KA – E a intriga faz parte da política, o senhor sabe disso.

JD – É, faz parte da política. Mas não é uma frase do governador Alckmin.

KA – E o senhor está vacinado contra intriga?

JD – Eu e ele, nós dois.

KA – Mas, Prefeito, vou entrar aqui no questionamento, nessa questão da gestão. Demorou para se fazer uma nova licitação para consertar os semáforos. Essa licitação dos serviços de ônibus não anda. O Haddad não conseguiu fazer. Ela continua emperrada. Há críticas do Ministério Público e de entidades à sua ação na cracolândia. Esta é a pergunta ao senhor: como o senhor responde à crítica de que está faltando boa gestão em São Paulo?

JD – Não está, não está, ao contrário. Primeiro, falo dos semáforos. Quem não fez o dever de casa foi a gestão do Fernando Haddad, infelizmente. Poderia ter feito. Não fez o processo licitatório. Deixou para fazer o que deveria ter feito em outubro, novembro ou dezembro. Perdeu a eleição, não fez. E não foi só aí também, não. Medicamentos, não fez a compra de medicamentos para o abastecimento das farmácias, das UBS (Unidades Básicas de Saúde), das AMAs (Assistência Médica Ambulatorial) e dos hospitais públicos municipais, que deveria ter feito. Não fez. Nós tivemos que começar do zero esta operação. Leva tempo. Licitação pública você não faz num estalar de dedos, são 90 ou 120 dias. Além disso, dos semáforos, havia um problema no Tribunal de Contas do município. Nós temos que respeitar a decisão do Tribunal. O Tribunal levou 3 meses para tomar a sua decisão. Há que se respeitar o seu tempo. Só depois é que pudemos iniciar esse programa. E agora os semáforos estão em regime de mutirão. Praticamente estamos a 15% ou 20% da regularização de todos os semáforos. Cracolândia? Foi uma decisão de ordem institucional, aliás, nossa e do governo do Estado. Agimos onde ninguém nunca quis agir. Kennedy, você e os que estão nos assistindo aqui no SBT viram, anos e anos e anos, cenas de um shopping center de drogas ao ar livre, na Rua Helvétia com a Dino Bueno, no Centro de São Paulo. Acabou, não tem mais.

KA – Não está espalhado pela cidade?

JD – Não, o domínio do tráfico não. Aquela era uma área que, para limpar, a Prefeitura tinha que pedir autorização para o chefe do tráfico para fazer limpeza. Isso não existe mais. Ainda há, vamos dizer, em algumas áreas espalhadas pelo Centro da cidade o consumo e o traficante, mas nós estamos agindo. Agora, aquela força de domínio de uma área da cidade controlada por uma facção criminosa acabou e não volta mais. Então, é uma decisão agora de continuidade do programa policial, medicinal, de reurbanização e, sobretudo, educacional: educar pais para que tenham maior controle, maior diálogo com os seus filhos, para que eles não se tornem amanhã dependentes químicos ou potenciais dependentes químicos.

KA – E a questão do ônibus?

JD – Sim, a licitação já está em curso, e ela será entregue até o final deste ano.

KA – O senhor faz este ano, para valer no ano que vem?

JD – Sim. E há outra coisa, quero até antecipar e anunciar aqui aos seus telespectadores e aos que acompanham o seu blog: não será de 20 anos, como era a proposta no governo Haddad, mas de 10 anos, metade do período. Não faz sentido você comprometer duas décadas da gestão pública municipal com um contrato monstruoso de transporte coletivo. São 10 anos, e está pra lá de bom!

Comentários
6
  1. Antonio Carlos Couto Oliveira disse:

    Doria diz ser “claramente contra” a regra atual de reajuste real do salário mínimo

    Tem que ser muito idiota pra achar que o aumento real do salário mínimo não deve ser obrigatório.

    O maluco acha que quem ganha salário mínimo ainda tem que perder em época de crise?

    • walter disse:

      Exatamente Antonio Carlos, não há espaço para o Povo perder mais…lembro me da época em que o Lula anunciava, que ainda em seu governo, o Salário mínimo chegaria a Mil dólares…kkk..poderia ter sido viável, não fosse a sucessão de sacanagens e desvios…Quanto ao Dória; deveria se anunciar definitivamente, como candidato a sucessão…fica improvisando e viajando, com claros objetivos, a ponto de dar opinião, no que não lhe diz respeito neste instante…esta claramente traindo seu padrinho, com uma gestão mediana na Prefeitura…Se for justo, como quer ser visto, terá que colocar ajuda ao Bruno Covas, que não tem sido um gestor adequado na condução das sub prefeituras…se for se ausentar para a campanha; terá que deixar a casa arrumada, ou bem encaminhada; do contrario, “parecerá caviar, nunca vi, eu só ouço falar”.; entusiamo só, não convencem ninguém; precisamos de resultados visíveis na gestão dele…falta no mínimo, atitudes condizentes ao cargo.

  2. LUGAR DE LADRÃO É NA CADEIA! FIM DO FORO PRIVILEGIADO! VIVA A LAVA JATO! disse:

    A principal mudança tem que ser o fim do foro privilegiado, para que a ladrãozada da política e dos governos possa ir mais depressa para a cadeia. Ninguém aguenta mais trabalhar para pagar imposto para sustentar ladrão de cofre público travestido de político e governante!

  3. Eliseu Rosendo Nuñez disse:

    Parabéns pela ótima entrevista Kennedy. Foi importante você esclarecer ao Prefeito que pela atual fórmula de reajuste do salário mínimo, quando não há aumento do PIB não há aumento real, apenas a reposição da inflação. Infelizmente Doria afirmou que não pretende manter essa fórmula, desprezando a necessidade de aumentar-se progressivamente o salário mínimo para reduzir a desigualdade salarial no Brasil e dar melhores condições de vida aos assalariados mais pobres.

  4. MARQUES disse:

    Kennedy, delação premiadíssima pois, ganha o delator que continua com parte do que roubou e ganha o advogado ou alguém que intermediou a delação, não precisa nem jogar na megasena é só dar sorte de encontrar um maluco(criminoso) que queira delatar. O Dória agora é a favor porque chegou nos tucanos, enquanto estava só no PMDB e PT não falava nada.

  5. Ana Paula disse:

    Doria deixa claro que mesmo freando investimentos o teto não pode ser flexibilizado, mas para aumentar salários a regra não pode ser engessada, tem deixar para o bom senso e caridade dos políticos.

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2018-06-24 19:30:08