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Política
05-09-2017, 8h14

JBS põe delações em xeque e serve de alerta à Lava Jato

Esclarecer papel de Marcelo Miller é vital para Janot, que acertou ontem
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KENNEDY ALENCAR
Brasília

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, tomou uma decisão correta ontem ao mandar investigar um diálogo de delatores da JBS devido aos indícios de crimes e de eventuais omissões ou mentiras. Ameaçou rescindir o acordo de colaboração e cogitou rever ou cancelar benefícios a colaboradores. Teve um gesto de grandeza e de inteligência política.

Grandeza porque não ficou prisioneiro de um eventual erro. Admitiu que pode ter sido enganado por delatores. Falou que o diálogo contém “conteúdo gravíssimo”. Inteligência política porque não poderia jogar um problema desse tamanho para debaixo do tapete e correr o risco de a próxima procuradora-geral da República, Raquel Dodge, descobrir e fazer exatamente o que Janot fez ontem.

Ao jogar duro com a JBS, Janot deu uma resposta indireta às críticas de que pegou leve com os irmãos Batista ao conceder imunidade judicial a eles. O procurador-geral foi muito criticado por não permitir que Joesley passasse um dia na cadeia. Agora, ameaça cancelar esse benefício. Janot acertou com a decisão de ontem.

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Vacina jurídica

Quando o procurador-geral diz que as provas não serão invalidadas, está lançando uma vacina contra uma previsível estratégia da defesa do presidente Temer e de outros investigados. Se forem descobertas mentiras e omissões de Joesley Batista e de Ricardo Saud, que são apontados como os autores do diálogo que Janot mandou investigar, Temer e outros investigados poderão argumentar que os dois também teriam mentido ou omitido em relação a eles.

Será importante conhecer o conteúdo desse diálogo, descobrir se há crimes, porque Janot disse que existem indícios de delitos, e qual foi realmente o papel do ex-procurador Marcelo Miller. Se Miller tiver orientado Joesley a gravar Temer, por exemplo, a conversa captada no Palácio do Jaburu poderia, em tese, ser invalidada. No mínimo, haverá debate jurídico a respeito disso.

O papel de Marcelo Miller é chave. A defesa de Temer levantou suspeita sobre a ação dele na delação da JBS desde a explosão do caso. Marcelo Miller era o procurador que tinha maior contato com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Usou essa proximidade para jogar duro com delatores de outras empresas e pode ter colaborado para os termos que beneficiaram Joesley não somente no Brasil, mas também nos Estados Unidos.

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Mentiras e manipulações

Por mais que Janot diga que a decisão dele mostra a força da lei da delação, podendo punir quem descumpre a colaboração, o episódio traz um forte desgate sobre esse instrumento de investigação.

Mostra que delações não são infalíveis e que as palavras dos delatores necessitam da corroboração de outras provas. É preciso cautela para analisar antes de conhecer os detalhes do diálogo e quais os eventuais crimes praticados. Mas o episódio evidencia que delatores podem mentir e manipular a fim de se safar.

Antes da delação da JBS, o governo Temer estava prestes a votar a reforma da Previdência com possibilidade de sucesso. Desde meados de maio, houve novo aprofundamento da crise política. Uma denúncia contra o presidente da República foi apreciada pela Câmara. Aconteceu um estrago na política e na economia do Brasil, com efeito na vida real das pessoas.

As ações de Joesley e demais delatores do grupo JBS tiveram impacto tremendo na opinião pública. Um questionamento agora, obviamente, coloca em xeque o uso das delações de modo geral e da JBS em particular. Não dá para tapar o sol com a peneira.

Em muitos momentos, quando são apontados eventuais abusos da Lava Jato e de seus investigadores, há uma reação típica: quem faz isso está defendendo a corrupção e corruptores ou não entende o novo Brasil.

Não se trata disso. Apontar abusos da Lava Jato ajuda a operação a não se perder. Quando um procurador da República como Deltan Dallagnol admite que pode entrar na política partidária-eleitoral, é perigoso para a Lava Jato. Hoje, ele está do outro lado do balcão. Investiga corrupção de políticos e empresários. Amanhã, poderá ser acusado de estar fazendo isso para promover uma futura carreira política.

O ex-ministro Joaquim Barbosa teve a inteligência de deixar o STF, afastar-se da carreira antiga, trabalhar como advogado e agora cogita entrar na política. Fez uma espécie de quarentena. Não usou a relatoria do mensalão como trampolim para entrar na política. Barbosa deu um bom exemplo a ser seguido.

Já Dallagnol está fazendo reuniões com artistas e dando entrevistas dizendo que não descarta virar político. É um absurdo para quem está na atual posição dele na Lava Jato, em plena atividade.

O juiz Sérgio Moro muitas vezes se comporta como um popstar e considera que reportagens ou artigos de opinião críticos são afronta à Justiça. Tem enorme incapacidade de tolerar críticas e questionamentos ao seu trabalho. Já quis ensinar à “Folha de S.Paulo” o que o jornal deveria publicar.

Esses casos são preocupantes, porque o combate à corrupção é importante demais para que abusos, vaidades e infantilidades o atrapalhem. Como mostra essa decisão de Janot, há espertos demais dispostos a manipular para não serem presos e, pelo que também disse o procurador-geral ontem, existem outros espertos dispostos a oferecer facilidades a criminosos para enriquecer. Portanto, é didático para a Lava Jato o que aconteceu.

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Interesse público

O ministro Edson Fachin, que vai decidir se tornará público o conteúdo do diálogo investigado por Janot, tem um tremendo abacaxi nas mãos. Autoridades e pessoas públicas possuem direito a uma privacidade menor do que os cidadãos comuns. Isso deve ser levado em conta.

Há também dúvidas sobre alguns ministros do STF, o que constrange todos os integrantes da corte.

Mas o interesse público é o que deve nortear o que Fachin divulgará, por mais difícil que possa ser operacionalmente. Fatos da vida privada das pessoas que não tenham nada a ver com a investigação merecem ficar em sigilo. Apenas dados que tenham interesse público deveriam vir à tona.

Ouça o comentário no “Jornal da CBN”:

Comentários
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  1. BRAGA BH disse:

    Interessante que agora que as delações começam a recair sobre figurões do PSDB e do PMDB as delações começam a ser contestadas. Tem um viés de que o delator nada mais é do que um safado querendo se safar.
    Em outro Post do jornalista, ele dá sua opinião a respeito de tanta coincidência na distribuição das ações no STF e também da lentidão X rapidez com que as coisas são investigadas quando do PT ou quando da atual cleptocracia no poder.

  2. juliano disse:

    O que tornou o Brazil uma bagunça como disse o Ministro Joaquim Barbosa, foi o objetivo de derrubar um governo de esquerda, se o objetivo era mostrar a corrupção da esquerda e propagandear a honestidade e bons propósitos da direita é nisto que deu. O povo sendo massacrado, roubado e a podridão dos envolvidos escancarada.Bilhões roubados o tempo todo e o povo passando as piores agruras, a cada dia uma nova perda.Tinhas razão Sr. Ministro, isto virou uma bagunça.

  3. walter disse:

    Fizeram a delação do Joesley, na calada da noite, caro Kennedy; não podia dar outra, o meliante confesso, tem sido seletivo; acho estranho o fachin concedendo 60 dias para finalizar informações, e na contramão, o Janot, nas ultimas horas de fama, levantando uma questão extremamente grave; faltar lisura na delação da JBS, deve ser reconsiderada, na totalidade; se estes canalhas, que pelo visto, tomaram o brasil de assalto, ainda tem a cara de pau, de tentar exigir alguma coisa; devem ser presos, e os pagamentos a ser feito, devem ser garantidos com seus bens bloqueados…exemplo, a CIA de papel, que esta sendo vendida, por 15 BI; devem ser destinados pelo menos 1/3 a pagar o acordo que esta sendo proposto; 10 anos é muita coisa; seguir as orientações do BNDES, sem barulho; mudar a direção..

  4. Elaine disse:

    Caro Kennedy,

    Pela primeira vez devo parabenizá-lo pelo artigo. Excelente.
    É isso mesmo, você foi cirúrgico, até porque Janot quer ter o seu papel de contribuição ao país registrado na história e conversou com Fachin e Carmem Lúcia antes de dar a entrevista.
    As provas não serão anuladas, são filmes de malas de dinheiro correndo de um lado e de outro, impossível anular isso.
    E Temer será denunciado pelo 2ª vez.
    Quem perdeu com essa história foram os donos da JBS. Simples assim.

  5. ANDRE disse:

    Na realidade, nada muda o fato do presidente Temer está envolvidos em crimes, e a vergonha de termos este senhor na presidência da república. Detalhes de uma delação onde um criminoso fala de outro criminoso, sendo que o pior deles ocupa o mais alto cargo do nosso país. O cinismo do presidente e seus capachos da câmara tentarão como sempre atacar a delação com este fato, mas como sempre, se furtarão a apresentarem um defesa contundente. Aparecerão outras figuras, como o lambe botas do Arthur Maia que se apressarão em atacar a delação, mas contra fatos não há argumentos e o Brasil precisa ser passado a limpo.

  6. mano disse:

    prezados: Não há uma instituição confiável, nem mesmo o Ministério Público, que tem como uma das atribuições atuar como fiscal da lei. Que país é esse? ou sempre foi assim e, nós pobres mortais, não sabíamos!

  7. Rodrigo disse:

    Eh Joesley sempre envergonhando nosso país.

  8. Paulo Cesar Dantas Silva disse:

    Olá Kennedy um bom dia, haja malas para entupir de dinheiro da corrupção e das propinas, onde é que tudo isso vai parrar!!!! um abraço: Sugestões pública necessárias para passar o Brasil a limpo: a situação econômica e a situação política do Brasil estão em frangalhos, é necessário que atitudes sejam tomadas com urgência para solucionar os graves problemas que estão ocorrendo, no lado da economia, é preciso e necessário que se mude o sistema de juros composto pelo sistema de juros simples para evitar a especulação e a agiotagem financeira, tem que acabar com essa estupidez de querer receber juros fáceis sem precisar trabalhar, por conta dessa estupidez a dívida pública do povo brasileiro e do Brasil já está perto do imenso valor de quase 4 trilhões de Reais, isso sem contar com os juros anual de quase 600 bilhões de Reais que o povo tem que pagar de juros aos especuladores, agiotas e rentistas que mamam nas tetas fartas de bilhões de Reais dos cofres público do Brasil

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2017-11-24 07:11:26