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Política
10-10-2017, 8h35

Morte de Cancellier simboliza abuso de investigadores e julgadores

Seis entidades divulgam nota vergonhosa sobre suicídio do reitor
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KENNEDY ALENCAR
BRASÍLIA

Seis entidades que representam servidores públicos que atuam na Operação Ouvidos Moucos divulgaram nota ontem a respeito do suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Essas entidades criticaram o que seria o uso de uma “tragédia pessoal” para “manipular a opinião pública”. A Operação Ouvidos Moucos investiga supostas irregularidades na concessão de bolsas de ensino à distância. A nota é uma reação às críticas de políticos, jornalistas, acadêmicos e amigos do reitor.

Cancellier foi obviamente vítima de um abuso de investigação da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça. Foi preso num dia e solto no seguinte. Negou as acusações. Mas foi afastado da universidade. Suicidou-se na segunda-feira da semana passada, deixando um bilhete no qual disse que a sua morte foi decretada pelo banimento da universidade.

A reação de Cancellier foi a de alguém que se sentiu injustamente acusado e envergonhado pelo episódio ao qual foi submetido. A nota das entidades afirma: “Uma tragédia pessoal não deveria ser utilizada para manipular a opinião pública, razão pela qual as autoridades públicas em questão, em respeito ao investigado e à sua família, recusam-se a participar de um debate nessas condições”. Ora, a nota participa do debate dando lição de moral e ética.

Melhor que as seis entidades tivessem ficado caladas. Elas deveriam usar esse caso para fazer uma autocrítica a respeito de eventuais abusos e linchamentos públicos. Realizam operações e dão entrevistas no dia seguinte fazendo um julgamento sumário dos acusados. Será que não valeria uma reflexão para saber se algum erro foi cometido?

Mas as entidades acusam quem está criticando a forma como a Operação Ouvidos Moucos foi feita de tirar proveito “de uma tragédia para fins políticos”. O reitor saltou do quinto andar no vão de um shopping em Florianópolis. Políticos, acadêmicos, jornalistas e amigos de Cancellier têm todo o direito de questionar publicamente os métodos e as decisões da Operação Ouvidos Moucos.

As entidades que assinam a nota formam a nata da alta burocracia do país e de Santa Catarina. São elas: a Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil), a ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), a ADPF (Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal), a Ajufesc (Associação dos Juízes Federais de Santa Catarina), a Unacon (Sindicato Nacional dos Auditores e Técnicos Federais de Finanças e Controle) e o Fonacate (Fórum Nacional das Carreiras Típicas de Estado).

Se essas entidades realmente lamentam a morte do reitor, como escreveram, deveriam buscar descobrir quais foram os seus erros e não agir de forma arrogante, dizendo que há tentativa de manipulação da opinião pública.

Quando cometem abusos, dizem que os críticos defendem a corrupção. Quando defendem privilégios, como salários acima do teto constitucional, fazem campanha na TV dizendo-se perseguidas injustamente.

Esses funcionários públicos têm poder demais para usá-lo sem questionamentos da sociedade. Não gostam de controle externo, algo necessário numa democracia. A imprensa, que tem o dever de ser crítica do poder, de fiscalizar os políticos, precisa ter a mesma atitude em relação a policiais, promotores e juízes. O jornalismo não pode ser correia de transmissão da polícia nem do Ministério Público. Tampouco do Judiciário.

A morte de Cancellier é um emblema do abuso e da arrogância desses supostos cavaleiros do combate à corrupção. Diante da morte de uma pessoa, recorrem ao velho truque de que críticas são tentativa de manipulação. Ora, a nota dessas entidades é uma vergonhosa tentativa de manipular a opinião pública.

Houve o suicídio de um acusado. Deveria ser um fato suficiente para que investigadores e julgadores reavaliassem a correção das suas condutas. Um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém, inclusive a nós, jornalistas. A morte de Cancellier simboliza a reação de um injustiçado. É isso o que mais importa nesse triste episódio.

*

Goldman acusa Doria sem prova

Tende a continuar o embate no PSDB entre o prefeito de São Paulo, João Doria, e o ex-governador Alberto Goldman. Nos bastidores, há um enfrentamento claro entre tucanos que defendem Doria e o governador Geraldo Alckmin. Os dois disputam a candidatura do PSDB à Presidência em 2018.

Agora, entrou em campo o senador José Serra, que defendeu Goldman. Há uma aliança tática contra Doria entre aliados de Serra e Alckmin, dois tucanos que têm relação formal, fria. A defesa que Serra faz de Goldman deve ser vista nesse contexto. Não se trata de uma briga apenas entre Goldman e Doria.

Aliados do prefeito afirmam que a reação irada dele foi resultado da acusação de Goldman de que haveria direcionamento de licitações na prefeitura. É fato que o ex-governador fez uma crítica política ao prefeito, dizendo, em linhas gerais, que ele deixava a cidade em segundo plano para fazer campanha a fim de virar candidato a presidente.

Mas Goldman avançou o sinal ao insinuar corrupção. Se há direcionamento de licitações, ele deveria apresentar as provas. Nesse ponto, os aliados de Doria têm razão. Cabe a Goldman provar o que disse de forma leviana. Tem de mostrar provas.

Ouça o comentário no “Jornal da CBN”:

Comentários
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  1. Rogério Torres disse:

    O texto não poderia ser melhor. Parabéns

    • walter disse:

      Sem duvidas caro Rogério, o Kennedy caprichou na argumentação possível; estamos vivendo um “mundo cão”; qualquer Homem público, vive exposto, e corre o risco, de ser acusado injustamente…ninguém de fato, esperava a reação radical do Reitor; afinal seu afastamento se fez necessário,, para apuração dos fatos, como em qualquer investigação; não deixa de ser lamentável….se todos os Homens públicos, tivessem a vergonha na cara, como este cidadão; estaríamos no Paraíso. Em Brasília por exemplo, lá ninguém se mata, por suspeita de um delito; pior,são culpados contumazes, na maior parte das vezes.

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2017-10-18 11:12:18