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Política
17-04-2017, 8h39

Vídeos da Odebrecht colocam em risco reforma da Previdência

Corrupção atingiu melhores políticos, que também fizeram coisas boas
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KENNEDY ALENCAR
BRASÍLIA

Um dos principais efeitos da divulgação dos vídeos dos delatores da Odebrecht foi confirmar a avaliação de que a tarefa do governo para aprovar a reforma da Previdência ficou bem mais difícil. Em reunião ontem, aliados do presidente Michel Temer disseram a ele que cresceu a resistência do Congresso a aprovar medidas impopulares após um massacre de imagem provocado na classe política pelos vídeos.

Portanto, a questão agora é se realmente o governo conseguirá aprovar a reforma da Previdência. Não se trata mais apenas de fazer concessões, que já se mostram bem amenas na comparação com a proposta original. O desafio é convencer deputados e senadores a votar uma reforma mínima. Ou seja, evitar a paralisia no Congresso, o que seria mortal para a administração Temer.

O governo avalia que precisará do apoio da imprensa e do empresariado para isso, porque a taxa de popularidade do presidente, que já é baixa, tem caído. O governo argumentará que, independentemente do estrago na classe política, a medida é necessária para equilibrar as contas públicas no médio e longo prazo e para criar uma expectativa econômica positiva no curto prazo.

Judiciário preservado?

No festival de vídeos de delatores da Odebrecht divulgados, chama atenção a falta, até agora, de nomes do Judiciário e do Ministério Público que tenham sido corrompidos pela Odebrecht. Em entrevista à Folha, a ex-ministra do Superior Tribunal de Justiça Eliana Calmon levantou a tese de que se trataria de uma estratégia, porque os investigadores teriam deixado para apurar eventuais crimes de magistrados e promotores num segundo momento.

É estranho. Se for estratégia, fica claro um desejo de atingir primeiro o Executivo e o Legislativo. Se não for estratégia, sinaliza desinteresse em apurar corrupção na Justiça e no Ministério. A extensão da corrupção na Odebrecht sugere que dificilmente tenha havido corrupção apenas de integrantes dos poderes Executivos e Legislativos.

É preciso acompanhar os desdobramentos das decisões do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, e também avaliar mais vídeos para ver se se confirma a exclusão ou não do Judiciário das investigações.

*

Corrupção dava lucro 

É errada a avaliação de que o Brasil é a República Federativa da Odebrecht. A empreiteira pode ter sido a mais importante corruptora devido ao seu tamanho, mas é difícil imaginar que outras empresas de grandes setores da economia também não tenham atuado num modelo que expõe uma corrupção sistêmica no país. Ainda há muitas empresas e pessoas que podem delatar e mostrar a extensão dessa teia de corrupção.

É inexata a frase de efeito de Emílio Odebrecht que diz que a corrupção acontece há 30 anos no país. Esse capitalismo de amigos é parte da história do Brasil e da formação das suas elites e empresas desde o período colonial. Acontece, portanto, há muito mais tempo.

Outro ponto interessante: o valor gasto pela Odebrecht comprando corruptos foi crescendo ao longo do tempo porque a empresa viu que a propina era um bom negócio. O faturamento da empresa chegou a crescer a taxas próximas de 20% ao ano sob a presidência de Marcelo Odebrecht.

Ora, corromper se revelou um negócio lucrativo. Não foi apenas algo que os políticos arrancaram por meio de achaque. Essa tese é boa para a Odebrecht. A empresa estava disposta a fazer esse jogo porque para cada real investido na corrupção ela tinha muito mais reais de lucro.

*

Legalizar o lobby

Para combater vendas de medidas legislativas, por exemplo, a legalização do lobby seria positiva para o país. Uma empresa deveria ter o direito de apresentar abertamente sua posição a favor de uma determinada política pública ou legislação. Não pode dar dinheiro para obter uma Medida Provisória, mas é legítimo querer influenciar votações de projetos.

Agora, parece que tudo foi uma grande sacanagem. Mas houve decisões e políticas públicas importantes e legítimas aprovadas em meio a essa operação de corrupção.

Também é um erro a divulgação de um vídeo de um delator, Alexandrino Alencar, que diz que contribuiu para a campanha de Marina Silva após uma reunião. Ele mesmo disse que não houve pedido de doação ou tratativa irregular. A divulgação desse vídeo é desnecessária e causa dano político a Marina. Deveria ser divulgado se ela fez algo errado, o que fica claro no vídeo que não aconteceu.

A atual classe política está em xeque, mas ela fez coisas boas nos últimos 30 anos. PT e PSDB sempre tiveram políticos acima da média. A tragédia, o fato grave e triste, é que essa corrupção atingiu os melhores quadros do país, a melhor elite política produzida depois da ditadura militar.

Essa elite lutou pela redemocratização do país, venceu a inflação com o Plano Real nos governos Itamar e FHC e criou um conjunto de políticas públicas que protegeram os mais pobres e geraram uma nova classe média na gestão Lula. Os ex-presidentes Lula e Dilma, que sofrem agora com as delações, modernizaram a Polícia Federal e respeitaram a autonomia do Ministério Público ao escolher um procurador-geral da República entre os três mais votados na lista da categoria.

Portanto, essa elite política está sofrendo também as consequências de medidas que tomou para combater a corrupção.

*

Correção

O livro que sugeri no comentário no “Jornal da CBN” para entender a história do país e o papel da corrupção na formação de suas elites e empresas se chama “Brasil: uma biografia”. E as autoras são a Lilia Schwarcz e Heloisa Starling.

É Lilia, sem “n”. É Heloisa e não Helena. Peço desculpa. A memória me traiu. Mas recomendo o livro das duas historiadoras. A obra é da Companhia das Letras e vale a pena ser lida num momento como o atual.

Ouça o comentário no “Jornal da CBN”:

Comentários
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  1. Maria Aparecida Ramos Tinhorão disse:

    A única solução para este impasse moral que o país atravessa é intervenção no executivo e dissolução do congresso.
    Não há condição moral, ética nem jurídica para a condução política com este atual quadro.

    • walter disse:

      Perfeita Maria Aparecida; seria o viável, o absolutamente transparente e constitucional, mas no país do faz de contas…ninguém lá encima, endossa estas medidas; estaremos iludidos, que as medidas serão serias…nosso judiciário como um todo, esta paralisados por medidas excessivas, que protegem os meliantes comprovados no congresso…o fórum privilegiado garante tudo isso, e quando chega no supremo emperra…o supremo escolhido, por presidentes anteriores, que garantiram sua segurança particular…basta ver os processos caducos por lá…nada de fato acontece a favor do País; dependeremos de uma virada de mesa popular, já que as denuncias cabeludas, continuarão a surgir de baseada…quem sabe, estes meliantes sejam condenados, e desta forma, o povo vá para a rua exigir…

  2. Wellington Alves disse:

    De nossos últimos presidentes, o único não citado foi Itamar. E este nunca mais teve oportunidade de se candidatar. Eu estou voltando a analisar e assistir entrevistas da eleição de 1989, pois as mesmas promessas que elegeram Collor são as feitas por Doria – menos Estado, fim de privilégios, mercado livre. Collor também deixou o governo de Alagoas antes do fim para se candidatar.

  3. Jose Emílio Guedes Lages disse:

    Tambem acho que a mídia tem muita culpa nesse cartório.

    Por exemplo, aqui em Minas durante os governos Aécio Anastasia era proibido repercutir pelos vários veículos de comunicacao do estado, qualquer fato negativo em relacao ao governo e foi cumprido,fielmente, durante todos os mandatos.

    Queremos saber de onde veio o dinheiro para esse calaboca e quem recebeu.

    Creio que em outros estados ocorreu a mesma coisa.

  4. Claudio disse:

    Infelizmente não posso chamar isto de democracia, pois quem escolheu o Temer para governar o pais não foi o povo, correto e honesto seria haver uma nova eleição.

  5. walter disse:

    Estamos perdidos caro Kennedy, ter que escolher, o político menos pior, é um grande absurdo…podemos com isso, inaugura o “País do mais ou menos”; oficializar a sacanagem do que pode, tem sentido isso…vamos lá,considerando todos os figurões, os proeminentes, aqueles que já estão arranjados; melhor, podres de rico, com dinheiro da corrupção, vamos identificar a maioria no congresso. Se a visão for constitucional, deve se sim, legalizar o lobby, mas as LEIS do colarinho branco, principalmente ao funcionário público, devem ser duras; as penas devem ser exemplares, com cadeia em primeira condenação, sem direitos a liberdade por habeas, com isso quem sabe…nosso supremo precisa fazer a lição de casa, mas quando será…

    • Maria Aparecida Ramos Tinhorão disse:

      Walter caro amigo, mais um vez coerente e assertivo.
      Crime do colarinho branco, perpetrado por funcionário público ou político deveria ser objeto de condenação a penas pesadas e inafiançável !
      Equivale a alta traição da outorga popular chamada voto !

  6. Tarcísio Reinehr disse:

    Assistam o documentário, está no Netflix e History, das entrevistas de Noam Chomski, chamado de Requiem for the Amercican Dreams ou Réquiem para o Sonho Americano, que compreenderemos o que está acontecendo no Brasil (o combate à corrupção é apenas um pretexto).

  7. robson disse:

    Isso que estou me perguntando a dias: será que alguém nesse país para nos obrigar a engolir essa reforma sem antes fazer a reforma política? Não dá para aceitar isso.

  8. Isa disse:

    Vivemos tempos difíceis, todas as manobras que vemos tem o único intuito de preservar o estamento burocrático, a maior reforma que o Brasil necessita é cultural, enquanto não tivermos formadores de opinião qualificados, uma boa quantidade de intelectuais será essa coisa nojenta.

  9. Ray Magno disse:

    Entendo que Emílio Odebrecht deve se ter referido ao modelo de corrupção que a Odebrecht ajudou a consolidar em 30 anos, fazendo escola.
    .
    A corrupção desse país nasceu com o Brasil de Cabral (o navegador) desde que ele começou a comprar os índios com bugigangas, depois vieram os jesuítas juntos com os exploradores de entradas e bandeiras, depois vieram os escravistas de negros, depois veio D. João com seus usurpadores, depois veio o império dos Pedros,depois a República. Ah! A República que passou a ser só de brasileiros!(Será mesmo?)
    .
    Nossa república é essa de 12 ou 15 famílias que sempre mandaram no Brasil. Então, nesse contexto, a Odebrecht e seus black caps estão perdoados – não são os precursores da sujeirada! Dá pra aguentar esses três poderes de antigos paradigmas?
    .
    Renovação. Um novo Brasil é tudo o que o povo quer. Já passou da hora de aposentar o Brasil velho de mais de 500 anos de idade!
    .
    Saudações

  10. Stanislaw: "SERGIOS MOROS, DELANHOIS, FACHINS, CARMENS LÚCIAS" E POVO INDIGNADO, É PRECISO PASSAR O PAÍS A LIMPO! disse:

    Como pode um bando de ladrões, protagonistas do maior escândalo de roubalheiras aos cofres públicos jamais visto, acharem que podem fazer “reformas”?
    Se tivessem vergonha na cara renunciariam todos, pedindo perdão à nação brasileira, envergonhados por serem bandidos de altíssima periculosidade que foram finalmente pegos!
    É uma vergonha, além do povo ter que ficar vendo esses ladrões dizendo que não roubaram, que vão provar isso etc etc etc, ainda ver que eles se acham em condições de fazer reformas! Bando de ladrões, vocês vão todos para a cadeia!Esse presidente está “gagá”, não consegue reconhecer que está cercado de bandidos, comprometido com eles, e que se torna cada dia mais ridículo quando insiste em fazer reformas através de bandidos investigados pela justiça!

  11. O Brasil anda de mal a pior :/ Infelizmente hoje vivemos em um caos total, onde os lobos cuidam dos cordeiros, e o que se pode fazer ? se quem controla o galinheiro é a raposa? enfim, lamentável a nossa situação…

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2017-12-17 23:11:33