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Entrevistas
05-06-2015, 8h00

‘Apoio europeu à Primavera Árabe intensificou crise migratória’

Europa não aceita imigrantes porque eles são negros, árabes e muçulmanos, diz historiador
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ISABELA HORTA
Brasília

Francisco Carlos Teixeira diz que o apoio ocidental à Primavera Árabe intensificou a atual crise migratória na Europa. Segundo o professor de história contemporânea da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), os governos derrubados nas revoltas populares de 2011, apesar de serem cruéis e brutais, impediam o tráfico ilegal e o contrabando humano.

“O [Muammar] Kadhafi cansou de dizer: ‘Com a minha derrubada, vai ter uma torrente de migrantes para a Europa e não vai ter ninguém pra segurar. Estou ajudando vocês.’ (…) Naquele momento, com o preço de barril de petróleo a 105 dólares, eles [europeus] acharam que era muito mais fácil entrar e se apoderar do petróleo da Líbia do que ter um governo que controlasse os fluxos migratórios”, afirma Teixeira.

Na avaliação do historiador, os países ocidentais também colaboraram para o surgimento do Estado Islâmico. Segundo Teixeira, após a queda de ditadores árabes, as nações europeias se retiraram de territórios em conflito e “deixaram tudo no caos que está hoje”. “No lugar desses governos [ditatoriais], instaurou-se uma guerra civil de cunho religioso em que as pessoas estão sendo mortas em grande quantidade”, diz.

Na avaliação do professor da UFRJ, há um componente racista no combate à imigração ilegal: os países europeus não permitiriam a entrada dos refugiados porque eles são negros e árabes e, na maioria dos casos, muçulmanos. “A Europa, obviamente com seus preconceitos, não quer aceitá-los.”

Segundo dados da ONU (Organizações das Nações Unidas), mais de 60 mil pessoas já tentaram chegar ao continente europeu atravessando o Mar Mediterrâneo neste ano. Para Teixeira, esse fluxo migratório é a “contramão do processo colonial europeu”. “Um grande número de europeus ia para a África para se enriquecer, para viver melhor. (…) Quem foi lá em primeiro lugar e disse que é tudo uma unidade só foram os europeus”, avalia.

Teixeira diz que a definição de cotas de refugiados para cada Estado da União Europeia é uma medida “paliativa”. De acordo com essa proposta, os imigrantes seriam divididos pelos países do bloco europeu levando em conta critério econômicos e populacionais, além do número de asilados já acolhidos em cada Estado. “A Inglaterra, neste momento, não quer receber nem os migrantes vindos da Polônia, quanto mais os vindos da Mauritânia, do Senegal ou da Líbia.(…) Quem for excedente das cotas ficará em campos de concentração?”

O historiador também critica a proposta do primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, de criminalizar o trabalho de residentes ilegais, com a possibilidade de confisco de salário e deportação dos clandestinos. “Em vez de criminalizar o imigrante devia criminalizar o nacional europeu que encomenda e emprega o imigrante. (…) Ele trabalha a semana inteira e não vai receber? O empregador fica com o trabalho dele e não irá remunerá-lo?”, diz.

Perguntado sobre a entrada de haitianos no Brasil depois do terremoto de 2010, que destruiu a capital Porto Príncipe, Teixeira diz que o país “tem condições” de receber esses imigrantes. “O mercado de trabalho, malgrado a crise, está bastante estruturado. Não é um mercado em crise como na Europa. Nós temos condições da fazer isso. Não há nenhum problema a não ser o preconceito das pessoas”.

Confira a entrevista:

1 – Em abril, mais de 800 imigrantes da Síria, Somália, Serra Leoa, Mali, Senegal, Gâmbia, Costa do Marfim, Etiópia e Bangladesh morreram naufragados em um barco que tentava chegar à Europa. Segundo dados da ONU, mais de 60 mil pessoas tentaram atravessar o Mediterrâneo neste ano. Quais são as raízes históricas dessa crise imigratória?

Na verdade, essa migração se faz em blocos que são dos países chamados “Sahel”_ da franja sul do Saara, da África Ocidental, Guiné, Libéria e Senegal, e do Oriente Médio. Todas essas áreas faziam parte dos antigos impérios coloniais europeus, que duraram até, mais ou menos, 1960 e 1970, quando as últimas colônias se tornaram independentes na África: Angola, Moçambique, Guiné.

Então, na verdade, essas populações ainda olham para a Europa, para França, Portugal, Alemanha, Inglaterra e Bélgica como centro daquelas unidades políticas que duraram 150, 200 anos e às vezes mais, onde havia uma circulação de pessoas, inclusive um grande número de europeus que iam para a África para se enriquecer, para viver melhor. É só ver a população branca na África do Sul ou a população de mestiços e brancos em vários países africanos. Então, é a contramão de um processo histórico que começou há 150 anos, quando a França, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, Portugal, Espanha e Itália ocuparam a África. Ou seja, é a contramão do processo colonial europeu. Quem foi lá em primeiro lugar e disse que é tudo uma unidade só foram os europeus.

2 – Por que os fluxos migratórios se tornaram mais intensos em 2015?

A resposta da intensificação, neste momento, é simples. Os europeus em 2010 e, principalmente, em 2011 apoiaram a destruição das ditaduras que controlavam esses países, como na Líbia, na Tunísia, no Egito, na Síria. Com isso, aqueles governos fortes que impediam a existência de contrabando humano e desse tráfico ilegal, porque eram governos que controlavam o território com mão de ferro e, às vezes, com brutalidade e crueldade, desapareceram. No lugar desses governos instaurou-se uma guerra civil de cunho religioso em que as pessoas estão sendo mortas em grande quantidade.

3 – Alguns historiadores avaliam que o apoio ocidental a revoltas no mundo árabe, através de financiamento e treinamento de opositores de regimes ditatoriais, abriu espaço para o crescimento do Estado Islâmico. O senhor concorda com essa avaliação?

Não só do Estado Islâmico, mas das chamadas Primaveras Árabes, que foram todas apoiadas pela França, Inglaterra, Itália, Espanha e financiadas por ONG como a Open Society, do senhor George Soros. Depois que eles derrubaram os governos estáveis, e possivelmente cruéis, mas estáveis que existiam ali, eles se retiraram e foram embora. Deixaram tudo no caos que está hoje.

4 – Foi errada a forma como o Ocidente colaborou para que Muammar Kadhafi fosse destituído na Líbia. Também seria um equívoco como o ditador da Síria Bashar Al-Assah tem sido combatido?

O Kadhafi cansou de dizer: ‘Com a minha derrubada vai ter uma torrente de migrantes para a Europa e não vai ter ninguém pra segurar. Eu estou ajudando vocês.’ Ele achava que essa advertência seria compreendida pelos países europeus, mas eles não entenderam. Naquele momento, com o preço de barril de petróleo a 105 dólares, eles acharam que era muito mais fácil entrar e se apoderar do petróleo da Líbia do que ter um governo que controlasse os fluxos migratórios.

5 – A Europa aprovou, recentemente, uma operação militar para combater o tráfico de pessoas pelo Mediterrâneo. A ação, que contará com vários países do bloco europeu, pretende mapear rotas de travessia ilegal e os responsáveis pela imigração. Em uma outra fase desta ação bélica, deverão ser destruídos os barcos usados para o tráfico de pessoas. Uma resposta militar não poderá agravar a relações dos países europeus com os do norte da África, de onde saem a maior parte dos imigrantes ilegais? Essa estratégia conseguirá diminuir a travessia ilegal?

Não é uma estratégia correta. Vai causar problemas. Vão pensar que haverá embarcações vazias, quando haverá pessoas escondidas nos porões. Vão atacar essas embarcações e matar esses imigrantes.

Por outro lado, se eles procurarem atingir essas embarcações nos portos de saída, na Líbia, na Síria ou na Tunísia, eles irão violar a soberania nacional de vários países. O princípio de soberania nacional vai por água abaixo. Com isso, vai ser possível fazer qualquer coisa em qualquer lugar.

6 – Um plano proposto pela Comissão Europeia prevê a definição de cotas de refugiados para cada Estado da União Europeia. A divisão dos refugiados levaria em conta critérios econômicos e populacionais dos países europeus, além do número de asilados já acolhidos em cada Estado. Essa proposta foi duramente criticada pelo Reino Unidos, que acredita que a medida acabaria incentivando a imigração ilegal. Qual sua avaliação sobre esse plano de cotas?

Isso é paliativo. A Inglaterra já vai convocar um referendo para se retirar da União Europeia. A Inglaterra, neste momento, não quer receber nem os migrantes vindos da Polônia, quanto mais os vindos da Mauritânia, do Senegal ou da Líbia. Então, na verdade, isso vai causar uma pressão enorme. Todos os países da União Europeia estão com seus sistemas sociais em crise e com desempregos que variam de 10% até 20% do seu contingente. Estabelecer as cotas vai fazer o quê? Quem for excedente das cotas ficará em campos de concentração? Serão abertos campos de concentração?

7 – No Reino Unido, o primeiro-ministro David Cameron venceu as eleições prometendo combater à imigração ilegal. O governo britânico pretende tornar crime o trabalho dos residentes ilegais, podendo confiscar salários e deportar quem for encontrado em situação clandestina. Essa solução é adequada? Quais poderiam ser os resultados práticos desta medida?

Em vez de criminalizar o imigrante, deveria criminalizar o nacional europeu que encomenda e emprega o imigrante. Na verdade, essas pessoas são superexploradas, em condições sub-sociais de trabalho na Europa. Então, condene isso. É o mesmo caso dos Estados Unidos em que quer se impedir que entre no país mexicanos ou guatemaltecas, mas que se permite que as fazendas tenham dezenas de trabalhadores sem nenhum amparo sindical, que os empregadores contratam à vontade. Então, na verdade, você devia ter clareza com o empresário europeu e não o imigrante, que trabalhou o mês inteiro, porque ele é ilegal. Muitas vezes ele não entende como se faria a legalização ou se é possível a legalização. Ele trabalha a semana inteira e não vai receber? O empregador fica com o trabalho dele e não irá remunerá-lo?

8 – O envelhecimento da população tem imposto desafios sociais e econômicos aos países europeus. Segundo dados da Comissão Europeia, em 2025, mais de 20% dos europeus terão mais de 65 anos. Isso criará dificuldades para o mercado de trabalho, para a área da saúde e para o sistema de previdência social. Nesse sentido, não seria interessante incentivar à imigração? Por que os países europeus têm adotado cada vez mais posturas de combate à entrada de cidadãos de outros países?

Por uma razão simples: esses imigrantes são negros e árabes e, na maioria dos casos, muçulmanos. E a Europa, obviamente com seus preconceitos, não quer aceita-los. Mas os europeus estão dando uma solução para esse envelhecimento da população muito oportunista. Por exemplo, a Itália está reconhecendo netos e bisnetos de italianos nascidos fora da Itália. Com isso, incentiva essas pessoas a voltarem à Itália. Estou trabalhando com uma professora que é a terceira geração de imigrantes italianos e acabou de receber a nacionalidade italiana. Nessa semana, o parlamento de Portugal acabou de aprovar uma lei estabelecendo que os netos portugueses nascidos no estrangeiro são portugueses.

9 – O Brasil tem recebido, desde 2010, haitianos que procuram oportunidade de emprego, depois que um terremoto destruiu o país e deixou mais de 300 mil mortos. De acordo com dados do governo do Acre, Estado por onde os haitianos costumam chegar, entre 2010 e maio de 2015, mais de 38,5 mil imigrantes entraram no Brasil. Na semana passada, o Ministério da Justiça anunciou que aumentará o número de vistos para haitianos. Atualmente, são concedidos mais de 100 vistos por mês para eles. Só a regularização da entrada já garante que os haitianos terão boas oportunidades no país? O que mais deve ser feito para que os imigrantes tenham uma vida digna no país?

Seria necessário ter centros de acolhimento com o ensino básico da estrutura administrativa e política brasileira e ensino de idioma. Os haitianos falam creole, que é uma versão do francês. Portanto, eles têm dificuldade de se localizar e entender. Os haitianos estão sendo muito absorvidos pela indústria da construção civil. Daí, eles têm condições de passar para outras etapas. Embora algumas cidades no sul do país, principalmente no Rio Grande do Sul, tenham se mostrado muito hostis à entrada desses imigrantes.

10 – O Brasil é um país que recebeu muitas ondas migratórias. Há casos de xenofobia de descendentes de imigrantes contra os haitianos. O envelhecimento da população brasileira não deveria servir como um estímulo à aceitação dessa onda migratória haitiana?

Sem dúvida nenhuma. O Brasil é um país aberto e enorme. Estamos com 200 milhões de habitantes. Temos condições de ter esses habitantes. O mercado de trabalho, malgrado a crise, está bastante estruturado. Não é um mercado em crise como na Europa. Nós temos condições da fazer isso. Não há nenhum problema a não ser o preconceito das pessoas. O preconceito é um elemento impeditivo.

Agora, envelhecimento da população brasileira se deve às péssimas condições da rede de saúde pública e da rede escolar brasileira. Hoje uma família de média classe média, se tiver dois ou três filhos, toda renda dela será consumida com planos de saúde e no pagamento de escola. No momento em que a escola for uma escola de qualidade e gratuita e a saúde responder pela demanda na rede hospitalar, a população brasileira voltará a crescer.

Foto capa: Marina Militare / Fotos públicas (04/05/2015)

Comentários
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  1. Jose da Silva disse:

    Acho corretissima a posição dos europeus, desde que em reciprocidade aos governos negros da africa e dos governos de paises islamicos, que não aceitam brancos cristãos e judeus.

    • walter disse:

      É Jose da Silva, do ponto de vista da reciprocidade, vc esta corretíssimo; aliás que abordagem do Kennedy…
      O maior efeito retardado da destruição, a médio prazo, são os êxodos de imigrantes no mundo..todos vindos de países pobres; como Africa e Asia; INVADIRÃO O PRIMEIRO MUNDO”… a Europa por exemplo, independente do preconceito, não tem espaço para alojar tantas pessoas carentes de tudo;por isso sabiamente, o EUA fazem um filtro, retardando a entrada deles…poderíamos até comemorar, mas o s africanos que invadem o acre, não param de chegar, e o pt não tem política alguma para eles….

  2. Danielle disse:

    Ele falou muita coisa certa, mas algumas coisas ele n explicou corretmente.

    Alguns paises da UE (como a Alemanha e a Franca) estao querendo uma divisao igualitaria dos imigrates e n quotas. A Alemanha ja recebeu mais de 114.000 refugiados no ano de 2015, a Italia recebe a cada 2 dias umas 1000 pessoas, ja a Polonia so recebeu uns 2.000 e isso n e justo, n? N sei quem inventou isso de quota, pq aqui quem tem direito a asilo (por ser perseguido, ou por guerra, por exemplo) ganha asilo. Quem vem pra Europa por motivos economicos, nao ganha e e mandado de volta. Pq? Porque muita gente tem vontade de morar na Europa e vc n pode, por um lado, ser burocratico no caso de pessoas com qualificacao profissional e, por outro lado, deixar outras pessoas entrarem sem nenhum controle.

    E o segundo ponto, europeu que emprega ilegais ja sao punidos e com multas grandes e cadeia. Nao tem isso de so o ilegal pagar. Eu moro na Alemanha, aqui sonegação fiscal e pior que matar alguem e no caso de empregos ilegai, os dois estao sonegando…

  3. Getulio disse:

    Governos de EUA , França, Inglaterra com suas mentiras destruiram as nações arabes e o que querem em seus paises de cor negra é só petroleo.
    Agora não é por que o pais o Brasil e grande em estensão territorial que se pode abrir as fronteiras , se fizer isso estariamos dando suporte ainda mais para que esses (03)tres com suas politicas externas de guerras que destruam de vez o norte da Africa a Libia e oriente Medio Afeganistão, Iraque, Siria que só não completamente ainda pelo fator Russia ,Irã que ainda dá um suporte aos persas e uma ajudazinha militar ao pais arabe a Siria de Assad

  4. Até pouco tempo atrás a maioria dos refugiados que procuravam entrar na Europa ilegalmente eram de fato negros, africanos, e mussulmanos,(o exodo dos refugiados do leste europeu ex yugoslavia felizmente diminuiu) hoje temos refugiados provenientes da siria que são brancos e cristãos fugindo do E.I, mas vamos por partes, os africanos negros e mussulmanos que hoje invadem a Europa em primeiro plano pela ilha de Lampedusa, que é o ponto mais próximo da Africa a quantidade de refugiados na ilha já é maior do que os habitantes!, a Italia tem problemas terriveis de emprego, água comida e habitação! o país é pequeno não tem a mínima condição de fazer mais do que esta fazendo! E esses refugiados não tem na cultura deles a disciplina de trabalho dos europeus, são oriundos de paises na verdade alguns bastante ferteis em recursos agricolas, petroleo, minérios etc. o problema é que depois que expulsaram os europeus, aqueles que passaram a administrar o pais eleitos por eles, simplesmente o fizeram em proveito próprio, os europeus não tem culpa disso! É um problema que os próprios africanos tem que resolver! A começar pelo controle de natalidade!Já o problema dos sirios cristãos é diferente, fogem do E.I.!Pergunto porque Israel e EUA, não estão combatendo o EI? Que está ás portas de Israel! Limitan-se apenas a pequenas ações!

  5. César disse:

    Os descendentes de japoneses(nikkeis brasileiros), estão retornando ao Japão. São as vítimas da situação econômica do país, buscando por trabalho no exterior, porque aqui no Brasil já não encontram empregos disponíveis e nem perspectiva de melhora. Os nossos próprios refugiados econômicos, fugindo do desemprego, da miséria, da fome e da violência. Lá tem terremoto, tsunami, tufão, vulcão, mas, não tem PT. Os desastres são só os naturais!

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2020-04-06 15:17:05