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Política
05-11-2019, 21h20

Bolsonaro demoniza imprensa e responde a acusação que jornalismo não lhe fez

Presidente negou ter motivo para mandar matar Marielle

Kennedy Alencar
BRASÍLIA

Em mais um flerte autoritário, o presidente Jair Bolsonaro jogou lenha na fogueira da demonização da imprensa e respondeu a uma acusação que o jornalismo não lhe fez, a de que teria sido mandante das mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Num discurso no Palácio do Planalto por ocasião dos 300 dias de governo, o presidente disse que não tinha motivo para mandar matar Marielle. “O que essa pessoa me atrapalhava? Zero”, perguntou e respondeu sem citar o nome dela.

Bolsonaro disse que a imprensa quis jogar nas costas dele a execução de Marielle e Anderson. O presidente falta com a verdade. Ele culpou a imprensa por ela ter feito um trabalho profissional de revelar que o nome dele foi mencionado no depoimento de um porteiro (reportagem do “Jornal Nacional”). A TV Globo também informou que uma planilha de controle de entrada no condomínio tem anotação na qual um dos acusados de matar Marielle se dirigiria à casa do presidente no dia da morte da vereadora do PSOL.

Não parece que haja uma conspiração contra o presidente da República. Há, sim, mais uma demonstração de Bolsonaro de intolerância com a democracia e com o trabalho da imprensa.

Claro que o presidente tem todo o direito de se defender. Aliás, deveria ser o primeiro interessado em esclarecer tudo. Mas ele respondeu a uma acusação que não foi feita pela imprensa. Nenhum jornalista o acusou de ser mandante do crime.

O que se viu nos últimos dias foi o presidente anunciar que buscou de forma privada provas que fazem parte de uma investigação _o filho Carlos teve acesso a gravações de visitas ao condomínio no dia da morte de Marielle e divulgou uma conversa na qual um comparsa autorizava a entrada do outro e não Bolsonaro.

Esse material pertence a uma investigação que deveria ter seus trâmites policiais e judiciais respeitados. Foi uma atitude equivocada do presidente e de seu filho.

Esse comportamento do presidente somado à atitude do ministro Sergio Moro, que tem atuado como advogado de defesa de Bolsonaro, desaconselha a federalização da investigação dos assassinatos de Marielle e Anderson. Familiares da vereadora e integrantes do PSOL preferem que as autoridades do Rio fiquem com o caso.

É correto esse desejo, ainda mais se levarmos em conta que temos uma Polícia Federal que ofereceu delação premiada a Adélio Bispo _considerado pela Justiça alguém com problemas mentais. Adélio recusou o acordo de delação, demonstrando mais juízo do que os policiais que lhe fizeram a proposta.

Esse episódio evidencia um uso descarado da PF como polícia política. Já houve uma investigação federal que concluiu que Adélio agiu sozinho. Mas, para agradar a uma teoria conspiratória do presidente da República, a PF fez esse papelão.

Chegamos a um ponto no Brasil em que o presidente ataca a imprensa de modo duro, o que resultou hoje num editorial importante do grupo Globo apontando sua veia autoritária. Os ataques de Bolsonaro à imprensa minam a democracia. Têm o objetivo de tirar credibilidade dos jornalistas e veículos de imprensa para permitir medidas autoritárias.

Normalizar Bolsonaro é como as democracias morrem. A imprensa é um dos pilares de qualquer democracia saudável no mundo.

Ouça o comentário no áudio abaixo:

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2019-12-05 21:02:08