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Política
31-10-2019, 18h58

Com método, clã Bolsonaro tem projeto autoritário para o Brasil

Fala do filho do presidente sobre AI-5 ameaça democracia
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Kennedy Alencar
BRASÍLIA

A fala do deputado federal Eduardo Bolsonaro sobre um novo AI-5 é de uma irresponsabilidade política e de uma ignorância histórica colossais. O discurso do “inimigo interno” tem, sim, um viés fascista.

Mas a nova ameaça à democracia feita pelo filho do presidente também reflete método: criar uma nova crise para o clã Bolsonaro sair da defensiva e evitar acusações de corrupção do imbróglio Fabrício Queiroz e, mais recentemente, a citação do nome do presidente Jair Bolsonaro no caso Marielle Franco.

Nesta semana, tivemos o vídeo do leão com as hienas, o ataque destemperado de Bolsonaro à citação no caso Marielle e duas falas de Eduardo Bolsonaro ameaçando a democracia. É a estratégia de acionar a fábrica de crises para manipular a opinião pública e pintar o presidente como vítima de opositores que seriam inimigos internos, pois inimigos do país.

A afirmação de Eduardo Bolsonaro é bossal. Ele não tem noção do que seja democracia nem do lugar que ocupa no espaço público como líder do PSL e filho do presidente da República. Não há clima para a esquerda radicalizar. Pelo contrário, a esquerda é bem moderada. Quem está cercando o carro de Dias Toffoli e chamando ministros do STF de hienas é a extrema-direita que apoia o clã Bolsonaro.

Do ponto vista legal, a fala de Eduardo Bolsonaro poderia merecer a cassação do mandato, medida que tramitaria no âmbito do Conselho de Ética da Câmara e do plenário da Casa. Mas isso envolve um debate sobre a imunidade parlamentar.

Poderia haver também uma providência da Procuradoria Geral da República, mas é algo que podemos esquecer em tempos de um novo engavetador-geral da República, Augusto Aras.

O deputado Eduardo Bolsonaro desrespeitou a Constituição brasileira. Vamos ver os desdobramentos _se haverá alguma punição ou se, mais uma vez, o absurdo ficará por isso mesmo.

Houve uma reação política vigorosa. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), considerou as palavras “repugnantes” e o deputado “passível de punição”. Outros parlamentares criticaram. Entidades da sociedade civil também. Até Jair Bolsonaro disse que falar em AI-5 é coisa de quem estaria “sonhando”.

*

Esquecer jamais

É preciso lembrar o que foi o Ato Institucional Número 5. Ele é retratado historicamente como o golpe dentro do golpe ou o começo dos anos de chumbo da ditadura militar de 1964. A medida só foi possível porque havia uma ditadura. Ela é inimaginável na democracia.

Foi uma legislação que estava acima da Constituição, que acabou de vez com liberdade de imprensa e expressão, que aprofundou a censura, que agravou a perseguição, a prisão a tortura e o assassinato de opositores e que deu autoridade aos generais para fechar o Congresso. Editado em 13 de dezembro de 1968, o AI-5 só seria revogado dez anos depois.

No Brasil, estamos normalizando absurdos como as ameaças do clã Bolsonaro à democracia. Agir assim é como as democracias morrem. Não adianta ter ilusões. Bolsonaro é um leão com dentes e tem projeto autoritário para o Brasil. Só terá êxito na desconstrução das políticas do país se solapar a democracia.

*

Retratação

No começo da noite, veio a notícia de desculpa de Eduardo Bolsonaro. É tão crível quanto o meme com nota de três reais que ele usou para criticar a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP).

Ouça o comentário no áudio abaixo:

Comentários
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  1. walter nobre disse:

    Kennedy, a família bolsonaro não alivia, deveriam ter um assessor de imprensa, para pensar antes de falar, porém estão sendo torpedeados o tempo inteiro, o que a aposição não percebe, estão dando maior condição ao Jair, diante da opinião pública; reparou que ninguém faz mais pesquisas, por estar em alta a condição do presidente, se comunica com os mais humildes, e pelo excesso da imprensa perseguidora, para quem o POVO vai dar atenção??? Segundo o ARAS, comentar o Ato institucional número 5, com imunidade não é proibido, já que usou palavras certas, não pode ser prejudicado; todos sabemos, ninguém quer viver tal experiência novamente. Como exemplo recente; como poderia o presidente visitar a ARGENTINA, com tanta hostilidade por parte do eleito Fernandez? esta remediando, e confirmando manter relações, desde que a diplomacia entre em campo, já que os ânimos estão acima da média.

  2. Antonio disse:

    Este rapaz não tem ideia do que foi o AI5. Ele nem tinha nascido. O próprio pai deveria ter por volta de 11 anos. A ditadura iniciada em 1964 foi, na verdade, como pode estar ocorrendo agora, um golpe pelo poder feito pelos militares. Claro, em busca da manutenção e ampliação de seus privilégios. E com alegações hipócritas de ameaças comunistas (deixe-nos rir!) e apoio da elite, como fazem hoje. No inicio da década de 1960, o país respirava progresso e crescimento, com a maturação de grandes projetos como a siderurgia nacional, a Petrobrás e a petroquímica, a indústria automobilística e de auto peças, etc., etc. Em São Paulo as pessoas eram abordadas nas ruas e nas saídas das estações de trem por agenciadores de empregos. Coisas que não se vê hoje. Nós vivemos toda aquela época. É um absurdo um parlamentar eleito pelo povo dizer tais aberrações. Foi uma época sangrenta de tortura, de prisões, de assassinatos, motivados por ideologias e sede de poder. Jamais se respeitou o ser humano.

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