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Política
15-10-2019, 11h20

Denúncia da Lava Jato expõe corporativismo, uso político e ilegalidade

Falsos heróis manipularam caso do sítio, revela o "Intercept"
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Kennedy Alencar
BRASÍLIA

Mais uma reportagem do “The Intercept Brasil” mostra o baixo nível ao qual chegaram a Lava Jato e o processo penal no país.

Interesse corporativista, ação política e ilegalidade jurídica se misturaram quando a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba tramou para propor denúncia contra o ex-presidente Lula no caso do sítio de Atibaia. O objetivo era proteger o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que vivia duelo político e jurídico com à época o presidente da República.

Os fatos narrados pela reportagem dizem respeito a maio de 2017, girando em torno do famoso diálogo entre Temer e Joesley Batista no Palácio do Jaburu.

Em resposta ao “The Intercept Brasil”, o Ministério Público Federal do Paraná confirmou a veracidade da reportagem, indo na contramão das desculpas esfarrapadas sobre conversas sem autenticidade checada. Há uma confissão do cálculo midiático para denunciar Lula.

O Ministério Público Federal do Paraná disse que, “quando nenhuma questão legal (como a existência de prazo ou risco de prescrição) ou razão de interesse público determina o momento de apresentação de uma denúncia ou manifestação, a força-tarefa ouve a equipe de comunicação quanto ao melhor momento para sua divulgação”.

É inacreditável que o processo penal brasileiro tenha descido a tal baixo nível. Equipe de comunicação não decide hora de denúncia ou medida do Ministério Público e do Judiciário.

Os diálogos do arquivo obtido pelo jornalista Glenn Greenwald revelam o uso de uma denúncia contra o ex-presidente Lula para tentar distrair a opinião pública em maio de 2017.

Decano e estrategista da força-tarefa à época, Carlos Fernando dos Santos Lima escreveu: “Os áudios do Temer não são matadores, mas são bem melhores do que eu imaginava. (…) Quem sabe não seja a hora de soltar a denúncia do Lula. Assim, criamos alguma coisa até o laudo”.

No momento, discutia-se se houvera edição na gravação do diálogo entre Temer e Joesley, algo que viria a ser descartado posteriormente. Isso explica a referência ao “laudo”. Manobra diversionista pura.

Um outro procurador, Roberson Pozzobon, disse no Telegram: “Bem que poderia vir uma gravação do Gilmau [Gilmar Mendes, ministro do STF], né?”. É normal isso?

Esses eram os diálogos dos membros do Ministério Público, órgão fiscal da lei. Para piorar, o chefe da força-tarefa de Curitiba, Deltan Dallagnol, chega a consultar o procurador Sérgio Bruno, da equipe de Janot na Procuradoria Geral da República, para saber se haveria operação (“festa”) naquela semana com iniciativa de Brasília. Diante do sinal verde do auxiliar de Janot, Dallagnol disse aos colegas que poderiam denunciar Lula.

O processo penal não pode se submeter a interesses corporativistas ou políticos. Não deve buscar repercussão midiática. Se isso acontece, há uma ameaça a todos os cidadãos. Estamos diante de uma prática autoritária e ilegal.

O oferecimento de uma denúncia deve ser baseado em elementos e provas, não na manipulação da opinião pública, ações políticas ou interesses corporativos. A denúncia deve ser feita com substância jurídica. É triste que o Brasil tenha chegado a esse ponto.

O que a Vaza Jato está expondo deveria escandalizar todos nós, especialmente os jornalistas, que sabem a importância de uma democracia e da Constituição. Sem essas duas, não há liberdade de imprensa e opinião.

Esse pessoal da Lava Jato passou completamente dos limites. Os diálogos são indecentes para funcionários públicos que deveriam estar cumprindo o papel de agentes da lei. Repetindo: o MP é fiscal da lei.

Por que as conversas ocorreram via Telegram e não pelos canais oficiais? Ora, porque procuradores da República e o então juiz Sergio Moro atuaram politicamente a serviço de um projeto de poder. Sabiam que estavam à margem da lei. Hoje, Moro é ministro da Justiça de Jair Bolsonaro.

É lamentável a existência desses falsos heróis, mas parte da opinião os acha bons. Esse é o perigo. Essa é a ameaça à democracia.

Obviamente, a corrupção é um problema sério e secular no Brasil, mas também o são a desigualdade social, o sistema de saúde universal que está ameaçado e a educação que precisa ser melhorada.

Vemos muita gente usando a capa do combate à corrupção para promover os seus interesses políticos no atual momento histórico, no qual o debate público foi rebaixado. Tem razão o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) ao dizer que há uma “predominância do ódio na política” brasileira.

O comportamento da Lava Jato exposto pela Vaza Jato ajudou a manipular a opinião pública e a incutir na cabeça de muitas pessoas que a política é pecaminosa. Essa visão é errada. É por meio da política que o Brasil superará ou fracassará diante de seus desafios. É pela política que será possível encontrar soluções, desde que haja pluralidade de ideias, respeito à opinião alheia e foco nos problemas reais.

Não se combate a corrupção cometendo crimes. O jornalismo e a lei devem valer para todos.

Ouça este comentário a partir dos 7 minutos e 39 segundos no áudio abaixo:

Comentários
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  1. walter nobre disse:

    Kennedy, seja lá como for, julgar questões com penas em segunda instância, já definidas não deve ser opção; a intercept é irregular, nada apresentado deve ser considerado, foram permitidas inúmeras investidas contra um Juiz e um procurador, nada foi de fato comprovado, ou estariam em maus lenções…retroceder processos, zerando penas definidas, é impossível, partiríamos ao “país da bananas maduras”. Devem ter muito cuidado, estará nas mãos desta corte, 300 processos de toda a sorte, de criminosos já condenados. A corte não deve agir por política, caso o faça, cairá numa armadilha terrível aos seus membros a médio prazo, desta não fugirão…

    • Wellington Alves disse:

      Vc quer que seja irregular.

      Irregular é o lavajatismo, o bolsonarismo e talvez até a eleição de 2018 diante de tantos vícios e manipulações.

  2. Miguel Ângelo disse:

    Lava Jato contra Lula “Grandona, fanfarrona com muita má intenção”. Lava Jato contra Bivar, clã Bolsonaro “Pequeninha, esquecidinha, subalterninha, uma mocinha legal”. E o Brasil, que já vinha de mal, piorou. Expõe não só a ilegalidade da Lava Jato. Expõe o laranjal, e o crime eleitoral praticado por Moro, Deltan, PF e Força Tarefa. E para isto, não há CPI no Congresso. Se aqui realmente a coisa fosse séria. E se não existisse perseguição aos desfavorecidos. Lula estaria solto pelos crimes da Lava Jato, e “curitibetes”, de Moro o falastrão. Mas a justiça aqui é cega, e sempre que pode apalpa os recursos do erário pelos penduricalhos imorais. Já que quem recebe o salário mínimo paga seu transporte, sua comida, sua moradia, sua saúde. Lava Jato será lembrada como marco da mentira jurídica a favor de acabar com a corrupção. O legado, é aquele que já sabíamos, na Terra Tupiniquim, a realeza preguiçosa foi trocada pela elite da esperteza, preguiçosa, desvirtuosa elite financeira.

  3. Harden Costa Resende disse:

    Kennedy ou qualquer outro leitor,saberiam me explicar o que vai acontecer com os milhões recuperados? Teríamos que devolver esse dinheiro aos ladrões?

  4. Alvaro Vallim disse:

    Kennedy Alencar, você faz o comentário político mais sóbrio da atualidade.

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