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Entrevistas
12-01-2015, 9h26

Diretor do Comitê Olímpico defende punir racismo como dopping

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Postado por: ISABELA HORTA
Brasília

Para o diretor executivo de Esportes do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Marcus Vinícius Freire, as manifestações de racismo de torcedores deveriam ser punidas com medidas policiais. “Tem de ser igual o doping. (…) Não adianta punir o atleta. Tem de punir o treinador, o preparador físico, o médico, a delegação.”

Em setembro do ano passado, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva alterou a punição aplicada ao Grêmio devido às ofensas racistas de torcedores contra o goleiro Aranha, do Santos. O time gaúcho, que havia sido excluído da Copa do Brasil, perdeu apenas três pontos no torneio.

Questionado sobre as obras de infraestrutura para as Olimpíadas no Rio, Freire diz que há ‘menos chance de atrasos’ em comparação com os preparativos feitos para a Copa. “O Comitê Olímpico Internacional (COI) é muito duro. (…) Tem mais controle do processo do que nos pareceu ter a Fifa em relação à Copa do Mundo.”

Afirma não ter medo de protestos durante as Olimpíadas. Para ele, “a rua” apoiará os atletas olímpicos. “Não adianta a gente fazer uma festa de 15 anos e a debutante não dançar com o padrinho na hora da valsa. E a hora da valsa são os 17 dias dos Jogos.”

Na avaliação de Freire, a diferença de desempenho do futebol masculino nas Olimpíadas e na Copa se deve à importância dada pela Fifa à competição olímpica. Nos Jogos, o time brasileiro nunca conquistou o ouro: tem três medalhas de prata e duas de bronze. Para o diretor executivo de Esportes do COB, o limite de idade de 23 anos nas Olimpíadas é uma ‘estratégia muito bem pensada da Fifa’.

“É uma regra que eles traçaram com um objetivo de não querer comparar força entre ser campeão do mundo e ser campeão olímpico. (…) E isso acaba refletindo também nas confederações.”

Vice-campeão olímpico no vôlei em 84, Freire espera que, no Rio, os atletas brasileiros ganhem medalhas em mais dez modalidades olímpicas. “Se a gente ficar só nos esportes vitais, nos que já temos vitória, não vamos fazer esse salto de qualidade.”

A expectativa do COB é que o Brasil alcance pelo menos o décimo lugar no número de medalhas no Rio. Para isso, a delegação brasileira precisará conquistar 30 pódios, treze a mais do que foi obtido em Londres, em 2012.

Confira a entrevista:

Kennedy Alencar: Em 2014, o Brasil sediou a Copa do Mundo. Qual é a importância de realizar uma Olimpíada em 2016?

Marcus Vinícius Freire: Gigante. É a primeira vez que os Jogos vem para a América do Sul, América Central, Caribe. Então, essa região nunca tinha sido homenageada pelo COI, que trouxe os Jogos para cá. É um desafio gigante. Eu fiz parte do grupo que correu atrás dos votos quando ganhamos de Japão, de Espanha, de Estados Unidos, que eram os outros candidatos para levar as Olimpíadas. Trazer para cá é, primeiro, virar o “local da vez”. O Brasil, hoje, é a menina dos olhos do mundo inteiro. Todo mundo quer vir ao Brasil. Todas as federações internacionais estão nos ajudando na preparação dos atletas. Todos os atletas querem treinar aqui, o que dá uma experiência para os nossos atletas. Isso reverteu completamente a imagem do esporte olímpico do Brasil. E, daqui para frente, é o principal legado: autoestima do brasileiro e a preparação do atleta. E, por isso, nós precisamos ir muito bem nos Jogos dentro de casa.

Durante a Copa, muitas obras atrasaram, houve um certo sufoco. A gente vai passar um pouco desse aperto nas Olimpíadas também?

É diferente o formato, principalmente, de candidatura e de acompanhamento das obras, da parte técnica, da infraestrutura. O COI é muito duro. Primeiro, porque faz isso há muito tempo, desde 1896. Ou seja, já tem uma regra, um livro que tem de ser acompanhado. O BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), quando você se candidata, tem cada fase muito bem detalhada. Fazem videoconferência a cada 15 dias. Quando você se candidata, tem de entregar um volume de informações já com todos compromissos de pagamento, construções, timing, que são acompanhados depois por videoconferência ou por visita física. Em função disso, há menos risco de ter atrasos. O COI tem mais controle do processo do que nos pareceu ter a Fifa em relação à Copa do Mundo.

Em algumas partidas da Copa, os jogadores brasileiros entraram em campo muito nervosos, chorando. A psicóloga da seleção brasileira disse em entrevista que eles entraram em pânico. Você trabalha direto com os atletas, a parte psicológica lhe preocupa?

Me preocupa, mas me preocupa há um tempo já. Nós já tivemos alguns casos no passado e fomos mudando a nossa estratégia. Antigamente, a gente levava só um ou dois psicólogos e eles atuavam de maneira pontual. Nós mudamos a estratégia. Tem oito anos que o Comitê Olímpico Brasileiro atua durante o ano inteiro, durante os quatro anos inteiros. Então, hoje, tem atendimento direto na Confederação, direito no clube. Faz parte. É uma das ciências. Mas a pressão de estar em casa é diferente. Por isso, estamos colocando em execução um planejamento que nós chamamos de “home advantaged”, a vantagem de jogar em casa. A balança tem dois lados. Um deles é a pressão. Então, nos pré-eventos que estão acontecendo no Brasil, nós estamos aproveitando para que o nosso time se adapte a essa pressão. Uma outra ação foi levar jovens atletas que não estavam classificados para as Olímpiadas para Londres, em 2012, para que eles quebrassem o gelo sem ter a responsabilidade do resultado. E entender o que é uma delegação: foram para dentro da Vila, viram competições, participaram de treino. Agora, quando chegar no Rio, estarão mais tranquilos.

Em 2012, o Brasil ficou em 15º lugar em número de medalhas em Londres. Foram 17 pódios. Em 2008, em Pequim, foram 15 medalhas. Essa evolução não foi muito tímida?

Se você olha só os números, vai dizer é pouco. Realmente, saltaram de 15 para 17 medalhas, foram só duas. Quando você olha o mundo inteiro, não é. Se você pegar os 10 primeiros colocados, 7 desses países ganharam menos medalhas em Londres do que em Pequim por algumas razões. Há, por exemplo, mais países participando dos Jogos. A antiga União Soviética vem montando novos comitês olímpicos. Hoje, são 11 novos times. Então, aumentou a competição. Diluiu a distribuição de medalhas. Depois, veio a Iugoslávia com novos sete, com a Croácia, a Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro. São novos países e novas seleções. Se nós aumentamos duas medalhas, quer dizer que, dentro do mercado, nós melhoramos. A nossa vontade agora é fazer um salto gigante. Isso sim é uma meta bem agressiva.

A meta para 2016 é conquistar 30 medalhas e ficar entre os 10 melhores países. Qual que é a estratégia para alcançar isso?

Nós montamos, em 2009, o Mapa Estratégico do Brasil. A meta foi traçada lá em 2009: tornar e manter o Brasil uma potência olímpica. Para isso, tem de ser Top 10, ganhar em mais de 10 modalidades _ algo que a gente nunca fez na história. E tem de mudar a imagem também.

Vamos usar duas estratégias. A primeira é ganhar mais medalhas onde sempre ganhamos. Por exemplo, no vôlei nós ganhamos 4 medalhas em Londres: duas na quadra e duas na praia. Nossa meta para o Rio é ganhar 5 ou 6. O judô ganhou 4 medalhas pela primeira vez. Nessa modalidade é possível ganhar até 14 medalhas. Nossa meta no Rio é conquistar de 5 a 8 medalhas no judô. É uma meta agressiva nos esportes em que nós já ganhamos.

A segunda estratégia é investir nos esportes em que nunca conquistamos medalhas. Em Londres, já ganhamos em alguns desses esportes: o pentatlo, com a Yane Marques. Nós ganhamos pela primeira vez. Voltamos a ganhar medalhas no boxe depois de 48 anos: foram 3 pódios. Ganhamos pela primeira vez na ginástica, com o Arthur Zanetti na ginástica artística. Para 2016, há uma geração novíssima. A Flávia Saraiva ganhou medalha com menos de 18 anos nos Jogos Olímpicos da Juventude de Nanquim em 2014. A Rebeca Andrade é um outro nome espetacular. Então, são esportes “novos”. Estamos falando em canoagem, em boxe, em tiro com arco. Marcus Vinícius, meu xará, foi medalha de prata em Nanquim e prata, com 16 anos, em um mundial adulto. Então, são garotos novos em modalidades que o Brasil acompanha pouco, mas que, nas Olimpíadas, espero que contribuam para chegarmos nesse patamar de 30 medalhas. Se a gente ficar só nos “esportes vitais”, nos que já temos vitória, não vamos fazer esse salto de qualidade.

É comum a crítica de que alguns países com economia e população menor do que a brasileira conseguem ter um desempenho muito melhor em termos de medalha. O que seria preciso do ponto de vista geral e estratégico para o Brasil ser uma potência olímpica?

Quando fazem essa crítica para o esporte, eu levanto outros lugares em que nós também não somos o sexto ou sétimo lugar: na saúde, no transporte, na segurança. Não é tão simples assim. É uma questão do país como um todo. Não é só o PIB do país que faz diferença no resultado. Nosso PIB esportivo está longe dos grandes. Os 10 primeiros têm PIB em torno de 1 bilhão de dólares. O PIB esportivo do Brasil, dos quatro anos pré-Olimpíadas, focado em alto rendimento, sempre foi 150, 200, 300. Esse quadriênio, possivelmente, vai a 700 milhões de dólares. E isso começa a nos levar a um patamar melhor. Mas não é só dinheiro também. Você precisa ter plano, estratégia e infraestrutura. Os 10 primeiros do mundo têm vários centro de treinamentos multiesportivos. O Brasil está começando a construir seus primeiros agora. Vai ter um como legado no Rio de Janeiro, em Fortaleza, em Vitória. Mas, até o ano passado, não tínhamos nada disso. Não ter educação física na escola é um absurdo para o esporte. Não ter esporte nas escolas de base, secundário e nas universidades é outro. É uma diferença gigante para Canadá, EUA, Alemanha, Reino Unido. Esses países usam isso de base. Então, o dinheiro só por quatro anos não resolve. Pode até nos ajudar a chegar no Top 10. É um incentivo para um momento, mas a gente precisa estruturar melhor o esporte e apostar no longo prazo, que é o que fazem esses países.

O COB trouxe técnicos estrangeiros para treinar atletas brasileiros. Ainda se diz muito que é importante que os esportistas de ponta tenham uma experiência no exterior. O caminho é esse? Eles têm de sair mesmo do Brasil?

É um mix dos dois. Ou você traz o técnico ou leva o atleta. No BMX, que é uma das modalidades do ciclismo em que o Brasil é mais forte, nós não temos adversários e grandes treinadores aqui. Por isso, nós levamos nossos atletas para morar na Suíça. Já no tiro com arco, o Marcus Vinícius treinou, primeiro, com treinador coreano que nós contratamos e, agora, com um treinador italiano. E quem fez nosso plano estratégico foi um holandês. No basquete, temos um técnico argentino. Nós temos um finlandês no handebol feminino. Muitas vezes, o atleta vai treinar lá fora como é o caso da natação. A maioria dos nadadores brasileiros, estou falando de César Cielo, Bruno Fratus e Thiago Pereira, foram ter a sua experiência em universidades americana, porque você nada e, na raia do lado, está o campeão do mundo, o vice-campeão olímpico. Então, eles estão competindo no treinamento com esses caras todo dia. Perdem o “respeito” por eles. Sabem que uma hora podem ganhar dele.

O Brasil tem cinco medalhas no futebol masculino olímpico, três de prata e duas de bronze, mas a seleção é penta campeã mundial. O que explica uma diferença tão grande de desempenho nas Olimpíadas e na Copa?

Guardaram a de ouro olímpica para o Rio de Janeiro, se Deus quiser. E, se possível, ainda as duas: masculino e feminino. A diferença entre o desempenho na Olimpíada e na Copa é simples. A importância que é dada para a Olimpíada, a começar pela Fifa, não é verdade? A regra já começa sendo outra. Tem limite de idade. O futebol masculino só pode menores de 23 anos e três convidados acima dessa idade limite. Então, já muda completamente o time. É uma regra que eles traçaram com um objetivo de não querer comparar força entre ser campeão do mundo e ser campeão olímpico. Foi uma estratégia da Fifa, se pensar do lado dela, muito bem pensada. E isso acaba refletindo também nas confederações. No caso da Confederação Brasileira, para esse quadriênio, isso não é verdade. Nós conseguimos sentar com o Gilmar Rinaldi, com o Alexandre Gallo, que é responsável pela seleção masculina, conseguimos sentar com a seleção feminina. Estamos traçando um plano para ganhar as duas medalhas no Rio de Janeiro.

Em 2013, na Copa das Confederações, ocorreram protestos muito violentos. Eles não se repetiram com a mesma intensidade na Copa do Mundo, mas houve manifestação de rua também. Para o Rio, você tem alguma preocupação com esses protestos? Como está sua estratégia para envolver o torcedor brasileiro, que na Copa se empolga com a seleção, e fazê-lo torcer para a equipe olímpica brasileira?

Nós fizemos a mudança da marca do Time Brasil com esse objetivo. A ideia é simples: é um escudo de um time, que é a nação. Ou seja, os 500, 600 atletas vão representar os 200 milhões de brasileiros. Esse é o nosso objetivo. Convidamos algumas pessoas que representem também esses 200 milhões para botar a cara para fora dizendo “eu torço”. Não atletas, mas artistas, músicos e etc., porque a gente precisa dessa torcida. Eles vão fazer a diferença em 2016. Não tenho muito medo de manifestações, da rua, porque eu acho que a rua vai estar apoiando, entendendo que esse momento é o momento do Brasil mostrar sua qualidade. Não adianta a gente fazer uma festa uma festa de 15 anos e a debutante não dançar com o padrinho na hora da valsa. A hora da valsa são os 17 dias do jogo. É a hora do Brasil se apresentar bem e a torcida nos apoiar.

Em 2014, ocorreram vários episódios de racismo no futebol no Brasil. O goleiro Aranha, por exemplo, foi hostilizado em um jogo com o Grêmio. Até houve uma punição ao time, que depois foi suavizada. Que medidas tem de ser tomadas para se evitar o racismo no esporte em geral?

Tem de ser igual o doping: policiais mesmo. Foi um caminho que o mundo tomou contra o doping, ou seja, punir a linha inteira. Não adianta punir o atleta. Tem de punir o treinador, o preparador físico, o médico, a delegação. Tem de ter medida forte para que isso seja cultural. É um absurdo, ainda mais em um país como o Brasil em que temos todas as raças, todas as religiões. Uma das marcas do Time Brasil é essa: a brasilidade, que é a completa diversidade. Então, eu sou meio pesado nas minhas batidas, mas acho que a gente deve policiar e aplicar penalidade para quem não cumpre o que não está combinado.

Comentários
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  1. walter.nobre disse:

    Caro, o Sr Marcus Vinicius, deveria se preocupar, como corrigir as distorções dos clubes; todos parecem “milagreiros”
    COMO FAZEM OS CLUBES DE FORMA GERAL, PARA PAGR SALÁRIOS ESTRATOSFÉRICOS; CONSIDERANDO AS RENDAS BAIXAS DE ESTÁDIOS???
    QUANDO É QUE VÃO, ABRIR AS CAIXAS PRETAS DOS CLUBES GRANDES???
    ESTA CONVERSA DE PRECONCEITOS…QUANTO MAIS SE DIVULGA, MAIS IBOPE SE CRIA; NÃO VÃO RESOLVER; AS LEIS NÃO SÃO SEGUIDAS…
    SERIA MAIS POSITIVO, QUE OS CLUBES PRESTASSEM CONTAS, COMO QUALQUER EMPRESA; QUE SUAS CONTAS FOSSEM TRANSPARENTES.
    ENFIM, A REDE GLOBO, NÃO PODE SER A DETENTORA ETERNA, DAS TRANSMISSÕES; ASSIM COMO O CONTROLE DO FUTEBOL, NÃO PODE FICAR NAS MÃOS DE CARIOCAS; OS CARTOLAS PROMOVEM, OU PERMITEM ISSO, PORQUE…COM ESTAS RESPOSTAS, COMEÇA MELHORAR; ABRIR A CAIXA PRETA, É PRECISO; ISSO O GOVERNO FEDERAL, DEVERIA DETERMINAR; NÃO COM MAIS DINHEIRO…

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