aki

cadastre-se aqui
aki
Recomendo
14-11-2015, 8h47

Iberê Camargo: um trágico nos trópicos

Montagem revela o processo de amadurecimento de um dos maiores pintores brasileiros
1

DANIELA MARTINS
BRASÍLIA

Iberê Camargo teria completado 100 anos em 2014. Para celebrar a trajetória desse grande mestre da pintura brasileira, foi organizada uma mostra que reúne 134 obras do artista, sendo 21 de coleções particulares e todas as demais pertencentes à Fundação Iberê Camargo, do Rio Grande do Sul. A montagem, que já passou por São Paulo e Rio de Janeiro e chega agora a Brasília, foi reconhecida como a melhor exposição retrospectiva do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

Basta estar de frente para uma pintura de Iberê para começar a especular sobre o seu processo de trabalho. São muitas camadas de tinta, muitas pinceladas, raspagens, volumes, gestos impressos. Há figuras identificáveis e, ao mesmo tempo, abstração e desconstrução das formas. Há movimento por todos os lados.

O artista Eduardo Haesbaert, que trabalhou com Iberê e hoje coordena o ateliê de gravuras da fundação, diz que o mestre jamais teria conseguido utilizar a tinta acrílica, por exemplo, pois sua pintura estava sempre em processo, nunca perto do fim. A tinta não poderia secar rápido, precisava permitir mudanças. O próprio Iberê dizia: “Tenho sempre presente que a renovação é uma condição de vida. Nunca me satisfaz o que faço. Ainda sou um homem a caminho”.

Toda essa densidade de material sobre a tela pode parecer caótica. Por isso, é bem interessante ver os esquemas e estudos que Iberê fazia em papel antes de partir para os quadros. Há também muita estrutura neles.

Nas pinturas, ele recorria a seus temas de infância, como os famosos carreteis que aparecem em tantas obras, e os reinterpretava, desfigurava, os fazia emergir de todas aquelas camadas espessas de cores. É como se manipular a tinta fosse uma escavação arqueológica que trazia à tona símbolos importantes do passado.

Iberê veio do desenho. Desenhou paisagens ao ar livre e foi retratista. Seus retratados costumavam se identificar nos desenhos, mas também encontravam traços de outros familiares. Era uma espécie de ancestralidade que emergia das linhas, outro elo com essa escavação, com essas muitas camadas de tempo.

O desenho jamais o abandonou. Mesmo nas fases mais abstratas, podia pegar o tubo de tinta e espremer em gesto rápido, diretamente sobre a tela, conseguindo traço e volume.

Ele também se dedicou bastante à gravura em metal. Testou técnicas e materiais e imprimiu às obras as mesmas características de volume e movimento que sempre buscou nas telas. 32 gravuras e 10 matrizes compõem a mostra.

Na fase final, entre 1989 e 1993, já acometido pelo câncer, pintou uma série intitulada “Tudo te é falso e inútil”. São telas de grandes dimensões e de cores lúgubres, mais figurativas, que trazem imagens recorrentes de bicicletas (um símbolo de movimento) e figuras humanas com características desoladoras.

Estão todas agrupadas em uma mesma sala. O efeito é imediato em quem visita a exposição. As camadas superpostas ainda estão lá, iniciadas com cores mais vibrantes e recobertas por tons escuros. Mas não há mais tanto volume, não há mais tanta escavação. As telas traduzem em imagens um sentimento de desesperança, como se não houvesse muito mais a ser descoberto. É belo, impactante e triste.

O curador Camillo Osório resume bem em um dos textos do catálogo: “É justamente o mergulho nas visões cruas e dolorosas da vida que me parece evidenciar a dimensão trágica da pintura de Iberê, sua densidade existencial, sua recusa, tão anti-brasileira, a crer que, ao fim, a harmonia afirmará”.

Em Brasília, além das obras expostas, o público vai poder acessar uma novidade que acaba de ser lançada: o “Acervo Digital da Fundação Iberê Camargo”. São 4 mil trabalhos disponibilizados em hotsite, com possibilidade de pesquisas cruzadas entre imagens, documentos, catálogos, recortes de jornais e revistas, correspondências, cadernos de notas e fotografias, armazenados pela esposa de Iberê, Maria Coussirat Camargo.

A exposição ficará no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília até o dia 11 de janeiro de 2016. Para informações sobre a visitação e horários, clique no site do CCBB. Para conhecer o acervo digital, visite a página da Fundação Iberê Camargo.

Imagem interna: Ciclistas, 1989
Imagem da capa: Carretel Azul, 1981

MEDIA_obra Ciclistas (Cyclist), 1989 - foto Rômulo Fialdini

 

Comentários
1
  1. Parabéns ao artista, essa mostra esta muito interessante

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados

Não serão liberados comentários com ofensas, afirmações levianas, preconceito e linguagem agressiva, grosseira e obscena, bem como calúnia, injúria ou difamação. Não publicaremos links para outras páginas devido à impossibilidade de checar cada um deles.

2020-09-28 12:09:15