aki

cadastre-se aqui
aki
Recomendo
21-11-2015, 9h03

Kaschtanka e outras histórias de Tchékhov

Coletânea de contos
1

Daniela Martins
Brasília

“Kaschtanka” reúne sete contos de Tchékhov traduzidos por Tatiana Belinky e Boris Schnaiderman. É um livro bem fininho, de apenas 96 páginas, lançado pela Companhia das Letras no início deste ano. É possível sentar e ler tudo de uma só vez. Mas com a certeza de que as histórias nos acompanharão por um longo tempo.

O conto que empresta o nome ao livro fala sobre uma cadelinha curiosa, que corre para todo lado em busca de novidades e que, por isso, se perde do dono durante um passeio. Ela encontra abrigo em outro lar, com um homem que treina animais para apresentações em um circo. Kaschtanka divide a nova casa com um ganso, um gato e um porco. Ela é bem alimentada, aquecida, bem tratada. Pensa na sua vida anterior com os donos, um marceneiro e seu filho. Era uma vida sem muita emoção e sem muita fartura. Sente alguma saudade. Mas a excitação do início dos treinos é mais forte. Kaschtanka tem uma vida nova pela frente, cheia de promessas. Ela ganha até um novo nome. Quando chega o dia de ir para o picadeiro, não sabe ao certo o que a espera. Nessa nova vida não há previsibilidade. Mas, num lance do destino, ao iniciar a apresentação ela vê seus antigos donos na plateia. Não chega nem mesmo a pensar, dispara em direção a eles. Voltando para casa, seguindo os dois pela rua, como sempre havia feito, a cadelinha reflete sobre esse sonho de aventura que passou.

O seguinte é o mais triste da antologia, “Vanka”. O menino pobre, ainda criança, é entregue a um sapateiro como aprendiz. Deixa para trás a sua aldeia e o seu avô. O futuro se revela uma desgraça completa. Ele é maltratado, passa fome, apanha, sente frio. Sem suportar o sofrimento, escreve ao avô suplicando para ser resgatado. Promete ser um menino bom, desvelar-se em cuidados, não dar trabalho algum. Mas Vanka não sabe o endereço do avô, não sabe nem mesmo como se posta uma carta. É apenas uma criança desesperada. Ele escreve no envelope “ao vovô, na aldeia”, joga em uma caixa de correio e dorme feliz, pleno de esperança. É uma história devastadora.

Outro conto marcante da coletânea é “Brincadeira”. Durante um inverno da juventude, um rapaz convence Nádia a vencer o medo e a deslizar com ele num trenó por uma encosta. No meio do caminho, grita que a ama. Mas as palavras misturam-se ao vento cortante e a moça não tem certeza do que realmente ouviu. Nádia toma coragem e pede para descerem novamente no trenó. Percebendo o potencial da brincadeira, o rapaz a repete muitas vezes. Nádia perde a noção da realidade. Seria ela de fato amada ou seria um delírio, apenas a voz do vento? O inverno acaba e a ele se seguem muitos outros. Nádia se casa, tem três filhos, mas continua guardando na lembrança aqueles dias em que foi amada pelo vento. Para o rapaz, o tempo também passa. Mas ele nem mesmo se lembra do motivo de ter feito aquela brincadeira. É um conto que faz pensar na juventude, no amor, na imaginação, na fantasia, no endurecimento dos sentimentos.

São, sobretudo, contos bonitos, bem escritos, concisos e sensíveis. O autor não precisa de muitas palavras para expor as dúvidas, contradições e emoções que são parte indivisível da nossa humanidade, seja no Brasil ou na Rússia czarista.

Anton Tchékhov, que morreu em 1904, emociona os leitores há mais de um século, mesmo tendo escrito em um lugar muito distante e muito diferente de onde nós o lemos agora. Não é nada simples tentar explicar como se dá essa mágica da literatura. Mas é impossível não ser tocado quando ela acontece.

Comentários
1
  1. Esses contos parecem ser muito bons, estou ansioso para ler!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados

Não serão liberados comentários com ofensas, afirmações levianas, preconceito e linguagem agressiva, grosseira e obscena, bem como calúnia, injúria ou difamação. Não publicaremos links para outras páginas devido à impossibilidade de checar cada um deles.

2020-09-27 16:47:42