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Kennedy Alencar

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Geral
15-03-2018, 8h43

Morte de Marielle evoca caso Acioli, juíza assassinada por policiais

Vereadora do PSOL pode ter sido executada
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KENNEDY ALENCAR
LONDRES

O assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco, ontem à noite no Rio de Janeiro, teve grande repercussão no Brasil e foi noticiado no exterior. Há suspeita de execução policial.

No Reino Unido, o assassinato da vereadora estava entre as dez notícias mais lidas no site do jornal “The Guardian” nesta manhã. Outros veículos de imprensa também noticiaram. Também morreu o motorista dela, Anderson Pedro Gomes. Uma assessora que também estava no carro sobreviveu.

O caso lembra o assassinato da juíza Patrícia Acioli em 12 de agosto de 2011 em Niterói. A juíza foi morta por policiais que investigava. Há fortes suspeitas de que Marielle tenha sido vítima de violência policial justamente por denunciar abusos da corporação.

O crime tem característica de execução. É preciso esclarecê-lo, confirmando se a vereadora foi mesmo vítima da ação de maus policiais. Não se pode sair prejulgando policiais, apesar de indícios nesse sentido.

A vereadora foi morta após acusar o 41º Batalhão da Polícia Militar do Rio de executar dois jovens em Acari e de aterrorizar a população da região. O 41º Batalhão da Polícia Militar de Acari é o que mais mata no Rio. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio, teriam sido 450 mortes nos últimos cinco anos _a maior taxa de letalidade policial do Estado.

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Interventor e ministro devem resposta

Há um problema grave em Acari com o qual a intervenção federal no Rio de Janeiro precisa lidar. Ver o que está acontecendo no 41º Batalha da Polícia Militar e tomar providências. Há uma denúncia de brutalidade em relação a moradores. Isso já é suficientemente grave.

Como as circunstâncias da morte de Marielle indicam execução, o assassinato também é um grande problema para a intervenção federal. A intervenção tem apenas um mês, mas foi feita sob o argumento de que traria mais segurança ao Rio de Janeiro.

Os defensores da intervenção disseram que, de imediato, haveria um efeito dissuasório, que criminosos ficariam amedrontados. Parece que não foi o que aconteceu. Ações do crime organizado continuam ocorrendo. E há a suspeita de que não teria ocorrido intimidação nem de policiais que agiriam com violência.

Pelo contrário, os relatos em Acari são de que a violência policial aumentou após a intervenção federal. A morte de Marielle Franco é um símbolo desse triste estado de coisas no país. A violência policial é um dos principais ingredientes da nossa crise de segurança pública no Rio, mas também em outros Estados, como São Paulo. Há moradores que tem mais medo da polícia do que dos traficantes, por exemplo.

Marielle era relatora da comissão da Câmara Municipal do Rio que acompanha o trabalho da intervenção. Ela considerava a intervenção “uma farsa” com “objetivos eleitoreiros”. O interventor, o general Braga Netto, e o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, têm o dever de esclarecer esse crime rapidamente e punir os culpados, sejam eles do crime organizado, sejam policiais. Se houver envolvimento policial, isso tornaria o fato mais grave.

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Mudança de mentalidade

Aconteceu uma tragédia. A vereadora era uma das principais lideranças políticas em ascensão no Rio. Era uma líder feminista, uma defensora dos direitos humanos. Militava na luta contra o racismo e contra a violência em relação aos mais pobres.

É chocante ver que esse tipo de crime ainda acontece com frequência no Brasil no século 21. Se confirmada a suspeita de envolvimento de policiais, o assassinato deverá impulsionar o debate na campanha eleitoral sobre a necessidade de mudar a mentalidade da Polícia Militar e da Polícia Civil. Há uma cultura de violência policial no Brasil. É uma cultura antiga, agravada pela ditadura militar de 1964, mas que tem raízes na escravidão. O país tem uma polícia violenta.

O Brasil precisa enfrentar esse problema se quiser ter uma segurança pública de maior qualidade. Há um pré-candidato à Presidência, Jair Bolsonaro, que prega abertamente a necessidade de uma polícia mais violenta.

Em novembro do ano passado, Bolsonaro defendeu 20 policiais militares acusados de matar 356 pessoas no Rio. Ele disse: “Policial que não mata não é policial”. Ora, isso é um absurdo que contraria todo o treinamento que as boas polícias do mundo recebem, porque a escolha de matar é a última que todo policial bem capacitado faz.

Todo mundo sabe que os policiais têm uma missão difícil. Trata-se de uma profissão dura de ser exercida no dia a dia, arriscada e mal-remunerada. Por isso, os policiais mereceriam um treinamento moderno, que os aproximasse dos cidadãos e que os equipasse e os capacitasse de forma mais eficiente para o trabalho. Não merecem incentivos para que se tornem justiceiros. Isso seria igualar policiais a bandidos.

Mas há outros pré-candidatos mais moderados que também defendem uma polícia mais dura, apenas o fazem com um discurso mais ameno. Obviamente, esse é o caminho da barbárie. É também uma ilusão, porque violência tende a gerar mais violência.

Agora é uma hora de dor dos amigos e dos familiares de Marielle. Essa hora deve ser respeitada. Mas o momento seguinte, inclusive na campanha eleitoral, deve ser de reflexão e ação para que se tomem medidas que impeçam um embrutecimento ainda maior do Brasil.

Ouça o comentário no “Jornal da CBN”:

Comentários
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  1. BRAGA BH disse:

    Se alguém estivesse no espaço sideral por alguns 5 ou 6 anos e voltasse ao Brasil de hoje, iria acreditar que voltou ao sombrio passado da década de 50/60. O país está pelo avesso! Os falsos moralistas estão tomando a tudo e a todos. Nosso povo, e aí eu me atenho a alguns comentaristas aqui deste Blog, que são aparentemente inteligentes, se deixam levar pela mídia tergiversadora, cheia de silogismos e que opera com a pós verdade. Quando achamos que o país mergulhou e está no fundo do poço, aí descobrimos que o fundo do poço é ainda mais fundo!!!
    O fato é que temos uma elite política/justiceira/eleitoreira que não opera em favor do povo! A vereadora nunca havia recebido uma ameaça sequer! Resolveram calá-la porque ela incomodava muito e por que ela começava a levantar a podridão que está incorporada no poder constituído do Rio De Janeiro.

  2. Joaquim disse:

    Gostaria que mais políticos provassem do próprio veneno. Em um pais que são mortos 164 pessoas por dia, ela é apenas mais uma. Minhas condolências a família desta jovem e das outra 163 vitimas de ontem e para as 164 vitimas de hoje. Este é o resultado de nossa corrupção sistêmica, que age na politica, nas policias, no judiciário e por ai vai . Mais uma vitima da corrupção.

  3. Fernando Kozlowsk disse:

    Sinceramente, Kennedy, antes de qualquer investigação séria, já estão colocando os militares nessa questão… acho prematura e precipitada qualquer declaração sobre os responsáveis. Por que citar os militares, se são eles que até hoje estão garantindo a vida de milhões de pessoas?

  4. Alan Santos disse:

    Muitos dos Eleitores Brasileiros deveriam reservar tempo para ler o seu blog Kennedy.
    Sem duvidas aprenderiam um pouco mais dos que pretendem governar esse país.
    Sentimentos aos familiares da vereadora. Que Covardia! Que Estarrecedor! Triste!

  5. walter disse:

    Um fato lamentável caro Kennedy, só não podemos responsabilizar, as forças de segurança, num espaço tão pequeno de tempo; ali tudo esta sucateado, pelos ladrões, por longos anos; esta vereadora, é uma gota d água no oceano, já que vão morrer muitos durante o Ano, e ficará o discurso, da falta de dinheiro, com um “governador” comprometido e covarde, por acaso, só para lembrar, do MDB…não podemos esquecer que o PT que tanto condena esta corja, já esta com alianças para retomar o poder no local e fora, como outros partidos, que não tem proposta nenhuma para apresentar; vão se reeleger, porque o povo ali, é gado infelizmente…

  6. Giordano disse:

    Mais um assassinato político na pseudo-república brasileira. Mas depois do grande acordo nacional com supremo e com tudo não há muita esperança por essas bandas.

  7. Alexandre disse:

    Sera apenas mais um numero estatistico.

  8. MA disse:

    AT´E HOJE, 2018, O ASSASINATODA JUÍZA NÃO FOI ESCLARECIDO.ACREDITO QUE DADAS AS CIRCUNSTANCIAS DESTE CRIME, APESAR DA INTIMAÇÃO DO CARA QUE PRESIDE ESTE PAIS, TUDO VAI FICAR IMPUNE.É O BRASIL DE HOJE

  9. mano disse:

    prezados: a verdade é que o Brasil é um país muito injusto, uma zona geral e sem respeito no mundo desenvolvido, ou seja, do oiapoque ao chuí, é tudo uma m_ _ _ _ só! A “elite” brasileira sabe que não vale a m _ _ _ _ do gato no exterior, sobretudo nos EUA e Eurpopa.

  10. Indagadagor Simples disse:

    Kennedy, explica pra nós como é esse debate sobre a necessidade de mudar a mentalidade da Polícia Militar e da Polícia Civil que você citou.

  11. Waslon T. A. Lopes disse:

    Já se passou um mês do início da intervenção… Pq os dados sobre o estado atual violência ainda não foram divulgados?

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