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09-09-2015, 16h15

Narcos é melhor que House of Cards

9

KENNEDY ALENCAR
BRASÍLIA

“Narcos” é melhor do que “House of Cards”, a série mais bem-sucedida da Netflix. Também se revela superior a “Game of Thrones”, sucesso da HBO.

No primeiro capítulo, parece que a história sobre o colombiano Pablo Escobar, o maior narcotraficante de todos os tempos, será mais uma vez contada sob a ótica americana, com direção de um José Padilha ainda inspirado em “Tropa de Elite”. Mas isso vai mudando ao longo dos dez capítulos.

O Escobar de Wagner Moura é sensacional. Aos poucos, a interpretação revela a transformação do bandido iniciante num criminoso inteligente. A estratégia de sucesso de Escobar é resumida pelo lema “dinheiro ou chumbo”. Quem se coloca no seu caminho tem de escolher entre a corrupção ou a morte.

O personagem vai se tornando cada vez mais cruel, prisioneiro de uma escalada de violência que não poderia levá-lo a outro destino. Moura explora as nuances de Escobar. Interpreta na dose certa a mistura do pai de família doce com o criminoso calculista, cujas raras e assustadoras explosões de ira vão se tornando mais frequentes.

É uma bobagem implicar com o sotaque do Escobar interpretado pelo brasileiro, o que não compromete em nada a atuação de Moura.

Steve Murphy, personagem de Boyd Holbrook, é um policial da DEA, a agência americana de combate às drogas. Ele começa a investigar o Cartel de Medellín a partir de Miami. Logo depois, é enviado a Bogotá numa função de fachada: chefe do serviço de limpeza da embaixada americana.

Murphy é o narrador da história. Ele vai deixando de ser o típico mocinho de faroeste. Vive uma tormenta psicológica que cresce a cada capítulo e assusta a esposa, Connie, interpretada pela inglesa Joanna Christie. Murphy passa a usar as mesmas armas dos bandidos que persegue: mentiras, aliança com criminosos, chantagem e dinheiro ou chumbo.

A narração em inglês do agente Murphy ajudará a série a ser bem aceita nos Estados Unidos, país desacostumado a ver filmes com legenda. Isso é bom para os artistas latinos.

Um dos melhores personagens da série é o companheiro de Steve, Javier Peña, um gringo veterano em Bogotá e que há muito tempo já utilizava a tese de que os fins justificam os meios. Peña, interpretado pelo chileno Pedro Pascal, é o grande rival de Escobar e o tutor de Murphy na realpolitik colombiana.

Há uma cena magistral no último capítulo, quando Peña faz uma aposta perigosa a fim de estabelecer uma aliança com o Cartel de Cáli para perseguir Escobar.

As sequências de ação são eletrizantes. Os diálogos, excelentes. A música de abertura e a trilha sonora encantam. A direção de arte transporta o telespectador à Medellín de Escobar.

Outro personagem bacana é Gustavo Gaviria, primo e braço direito de Escobar, que nunca deixa o chefão do cartel se esquecer de que eles são marginais. É Gustavo, interpretado pelo colombiano Juan Pablo Rada, quem aponta o erro da tentativa de Escobar de se tornar um político e um homem respeitável. “Somos bandidos”, lembra Gustavo. Escobar repetiria tais palavras numa hora de aperto.

As mulheres, quase todas atrizes mexicanas, são outro ponto forte da série. Elas reforçam as zonas de luz e sombra do enredo.

Paulina Gaitan interpreta Tata Escobar, a esposa fiel a todos os erros do marido. Stephanie Sigman é Valeria Velez, a ambiciosa amante de Escobar. Ela é uma jornalista que não hesita em usar suas conexões com o tráfico para destruir a rival na profissão, Diana Turbay (personagem de Gabriela de La Garza).

A mãe de Escobar, Hermilda (Adriana Barraza), sabe muito bem quem é o filho e do que ele é capaz, inclusive o ajuda desde o início da carreira. Confecciona com esmero um paletó que tenha espaço para levar cocaína a Miami.

“Narcos” mostra a política como ela é. O presidente Cesar Gaviria faz um mau, mas realista acordo com o narcotraficante para acabar com a guerra civil no país. Gaviria lida com adversários e aliados inteligentes e ameaçadores, bem diferente de Frank Underwood, personagem de Kevin Spacey em “House of Cards”, que seria o único esperto em Washington.

Além de entretenimento de alto nível, “Narcos” traz lições interessantes sobre o poder, sobretudo o poder de ser temido e de ser amado, no sentido maquiavélico.

A série não milita a favor ou contra a legalização das drogas, mas é impossível não pensar no tema. Mais de vinte anos após a morte de Escobar, a Colômbia continua a ser uma importante exportadora de cocaína. Os Estados Unidos, como disse Gaviria à embaixadora americana, mantêm-se como o principal centro consumidor do produto. A guerra às drogas matou Escobar, mas o buraco é mais embaixo.

Que venha a segunda temporada.

*

Veja a abertura da série, com a música de “Tuyo”, com Rodrigo Amarante:

Comentários
9
  1. Marcelo Brito disse:

    Parabéns Kennedy, sempre lúcidas e instigantes suas análises, que neste caso demonstra não ser restritas somente ao político, a Narcos por você apresentada foge de percepções clichês, que encontrei em outros comentaristas, sejam especialistas ou não.

  2. Blirio disse:

    A Série Narcos é fraca. Quem viu os 74 episódios de Pablo Escobar – O Senhor do Tráfico entende o que eu digo.Inclusive muito dos atores coadjuvantes desta outra série da TV Caracol foram usados em Narcos. O poder de divulgação da NETFLIX, as figuras de Wagner Moura e Padilha foram o que deu o tal glamour a esta série; e nada mais.

    • Marcelo Bernardes disse:

      Concordo com os colegas Bilirio e Sahzan. Mesmo gostando do excepcional autor que é Wagner Moura e do Diretor Padilha, “El patro del mal” é simplesmente fascinante. Assistir muito rápido madrugada e fim de semana adentro!!!Sem comparação.

  3. shazan dantas disse:

    São duas as series sobre Pablo Escobar em exibição na Netflix, “Narcos” e ” Escobar, el patron del mal “, sendo que a segunda,colombiana, bem mais longa em seus 74 capitulos é muito melhor, se aproximando muito mais do que foi a realidade perversa deste personagem marcante da historia contemporânea .Junto dela “Narcos ” parece uma dessas insossas mini series da Globo, um verdadeiro cafezinho com leite condensado…

  4. Silva disse:

    Comecei a ver Narcos e gostei… A outra parece muito longa e meio chata…

  5. Thomaz Brenha disse:

    Narcos é genial. Acredito que os produtores de House of Cards também devem se impressionar com o talento do Padilha para dirigir. Os cenários são outro destaque dessa série. Bem fíeis aos anos 80.

  6. Ronaldo disse:

    Também acho que Narcos é melhor que House of Cards.

    E mais: é melhor de Tropa de Elite.

    Estou no décimo capítulo e já ansioso pela segunda temporada.

  7. Roberto Regensteiner disse:

    Gostei e concordo com seus comentários Kennedy.Parabéns.
    Achei que outro ponto a ser ressaltado é a mescla de cenas ficcionais e cenas históricas com valor documental.
    Nisto se vê o esforço por fazer com que os personagens fossem semelhantes aos “originais”. Neste contexto achei interessante ver já na abertura a ficha do Reagan como delator do FBI (apresentada em letras miúdas na altura do 1 minuto.
    Abc)

  8. Acho essa serie muito boa! Gostei e concordo com seus comentários.

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