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Política
10-10-2018, 16h11

Normalizar selvageria de Bolsonaro é ameaça à democracia

Nivelar desiguais beneficia candidato do PSL
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KENNEDY ALENCAR
BRASÍLIA

Obviamente, há um lado positivo nas entrevistas dadas por Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) ao “Jornal Nacional” na segunda-feira, dia seguinte ao primeiro turno das eleições. Ambos os candidatos afirmaram ter compromisso de respeito à democracia.

Mas há um nivelamento indevido e também uma cobrança descabida sobre os compromissos de Bolsonaro e Haddad com a democracia. Quando o PT esteve no poder e teve oportunidades nas esquinas da história de trilhar um caminho autoritário, o partido não o fez.

Exemplos: Lula não cedeu à tentação do terceiro mandato, não houve rebelião em relação ao impeachment e o ex-presidente não resistiu à ordem de prisão dada pelo juiz Sergio Moro.

Já Bolsonaro tem um longo histórico de declarações a favor da ditadura militar de 1964, inclusive com a defesa da tortura. Na votação do impeachment da Dilma, ele homenageou um torturador, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Há inúmeras entrevistas do candidato do PSL com ataques aos direitos humanos e das minorias. Já defendeu que mulher ganhe menos do que homem por engravidar. Já manifestou preconceitos contra gays e negros. Ao longo de 30 anos de carreira política, deu declarações preconceituosas e antidemocráticas.

Nesse cenário, tratar Bolsonaro e Haddad da mesma maneira normaliza a selvageria do candidato do PSL à Presidência da República.

Bolsonaro está numa estratégia eleitoral para tentar diminuir a rejeição. Compromisso com a democracia é muito bom, mas não pode ser mera tática eleitoral.

Bolsonaro pode ter mudado? Sim. Pode ter mudado da noite de domingo para segunda, porque no dia da eleição ele levantou suspeita de fraude na urna eletrônica para impedir eventual vitória dele no primeiro turno. Isso é um comportamento antidemocrático. Ele questionou a mesma urna eletrônica que deu votação expressiva ao filho dele candidato a deputado federal em São Paulo, Eduardo Bolsonaro.

É lícito suspeitar que esse discurso seja uma tática eleitoral diante de tudo o que Bolsonaro disse e fez ao longo de sua vida política. Uma vez eleito dentro da regra do jogo, será preciso que as instituições e a sociedade civil cobrem respeito às normas legais durante eventual governo.

Tratar desiguais de uma maneira igual acaba sendo bom para o Bolsonaro. Quem precisa jurar lealdade à democracia brasileira é Bolsonaro, porque ele é autoritário. No passado, o candidato do PSL disse que o Brasil precisava de uma guerra civil com a morte de pelo menos 30 mil pessoas, algumas delas inocentes. Pregou o fuzilamento de FHC.

É preciso tomar cuidado para não nivelar candidatos diferentes. No quesito democracia, Bolsonaro está muito atrás do PT e de Haddad nem se fala. É um risco para a democracia comprar pelo valor de face declarações que são mera tática eleitoral. Uma vez empossado, esse discurso pode mudar.

Na entrevista ao “Jornal Nacional”, Bolsonaro fez uma advertência ao general Mourão por ter defendido uma nova Constituição a ser elaborada por notáveis. Mourão rebateu no dia seguinte dizendo que não era vice “anencéfalo”. Bolsonaro também disse que não entendeu muito bem a referência a autogolpe, mas o general Mourão foi muito claro em entrevista à Globonews sobre a possibilidade de golpe em caso de caos social.

O histórico de Bolsonaro não pode ser comparado com o do PT nem com o de Haddad quando se trata de respeitar a democracia. Ao cobrir a disputa política, o jornalismo erra ao tratar desiguais de forma igual. Bolsonaro está em posição de maior fragilidade do ponto de vista das credenciais democráticas.

*

Perigo autoritário

Casos de agressões pelo país e a morte de um capoeirista em Salvador mostram o risco da normalização da selvageria de Bolsonaro e de seus guardas da esquina.

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Crise contratada

O desgaste da relação entre Bolsonaro e Mourão pode ser prejudicial a um futuro governo do candidato do PSL. A história recente do Brasil mostra que desentendimentos entre presidente e vice contribuem para crises ou momentos políticos de tensão.

Itamar Franco rompeu com Fernando Collor de Mello antes da crise do impeachment de 1992 crescer. A relação entre Dilma Rousseff e Michel Temer já era ruim antes do acirramento de divergências que levaria à queda da petista.

Seria negativa uma crise entre Bolsonaro e Mourão com o governo já instalado. Há um risco maior porque o vice é um general da reserva respeitado por colegas da ativa.

Nos últimos meses, houve forte ativismo político da parte dos militares, que deram declarações políticas, o que não acontece em democracias avançadas. Não é preciso que militares digam que cumprirão à Constituição porque isso está dado. É isso o que tem de acontecer, sem autorização ou tutela militar. Nas democracias, quem manda é o poder civil.

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Triste fim

É ruim para a democracia brasileira que o PSDB se enfraqueça e se torne um satélite do bolsonarismo. Ontem, Alckmin sugeriu que Doria foi um “traidor” na campanha eleitoral. O candidato do PSDB ao governo paulista fez gesto pró-Bolsonaro enquanto o postulante tucano ao Palácio do Planalto e seu padrinho político ainda estava na luta.

*

Velho truque

O partido Novo decidiu rejeitar Haddad no segundo turno e adotar posição de neutralidade. Indiretamente, ajuda Bolsonaro.

*

Carta branca

Na segunda-feira, o próprio Lula disse a Haddad que o candidato do PT não deveria visitá-lo mais em Curitiba devido à repercussão negativa na eleição desses encontros. Os dois conversaram para alinhar a estratégia eleitoral do segundo turno.

Haddad recebeu carta branca para tocar a campanha e mudar o programa de governo elaborado com Lula e o PT. A ideia é criar uma frente ampla e democrática para atrair o apoio de Ciro Gomes (PDT) e de FHC (PSDB). Haddad já fez gestos para os dois.

O candidato do PT tirou de campo a proposta de Constituinte, ideia do PT, em sintonia com essa nova estratégia eleitoral. Haddad ganhou mais liberdade para montar o discurso econômico da campanha.

O candidato já disse que pretende indicar um empresário ou economista do setor produtivo para a campanha. Josué Gomes da Silva, do grupo Coteminas e filho de José Alencar, é um nome cotado.

A ideia é fazer contraponto a Paulo Guedes, banqueiro e assessor econômico de Bolsonaro que tem laços com o mercado financeiro. Jaques Wagner pode ser um nome para a Casa Civil ou a articulação política de um governo Haddad. Wagner tem feito a coordenação política da campanha de Haddad no segundo turno.

No áudio abaixo, ouça os comentários feitos ontem no “Jornal da CBN – 2ª Edição”:

Comentários
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  1. Francisco Ricardo disse:

    Kennedy, desta vez vou discordar da conclusão do seu comentário. Quem tem um histórico inconteste de ações não republicanas do PT – vide toda a corrupção que eles deveriam ter combatido e fizeram o contrário (sistematizaram o que existia e transformaram em meio de autofinanciamento) e tentaram distorcer nosso modelo de democracia – comprar o Congresso (mensalão), aparelhar o STF (conseguiram em parte), criar conselhos com viés duvidoso e tentaram se perpetuar no poder. Por mais que o Bolsonaro seja boquirroto, fale muito mal sobre raça, sobre a questão feminina, aprecie o autoritarismo e os atos da ditadura de 64, não chega nem perto disso tudo que o PT fez. Uma coisa é ele ser quem é, outra coisa é ele como presidente consegui impor isso ao País. Lembre-se que é no Congresso que essas intenções se concretizam. Não votei no Bolsonaro e não gostaria de votar nele, mas essa ação de difamação explícita está dando nas vistas das pessoas, até daquelas mais simples.

    • walter disse:

      Caro Francisco e Kennedy, estamos passando por uma transição difícil, mas necessária, onde o candidato contrário ao PT tem sido hostilizado, por mídia comprada e interessada, em aniquilar o concorrente; não basta o atentado encomendado, com quatro advogados suspeitos contratados, de forma absolutamente Negra e distante de inocência, a quem interessa este fato? ficou consagrada a intolerância da esquerda…julgar o Capitão por truculente em suas falas…esquecem que o governo anterior, sucateou nossas reservas, querem tantas justificativas; o novo presidente, pelo que tudo indica, esta sendo acusado antes de proceder; puro jogo de cena…quanto aos entreveros com seus pares, é normal; o cidadão esteve internado por dias…a questão de fato, seguirá com solavancos, existe uma resistência agressiva, por saberem que o haddad não tem qualificações, mantem retórica triste…mudar cor de bandeira cores do partido, mudar programa, não visitar lula, é puro jogo de sena; nada disso funciona…

    • Miguel Ângelo disse:

      Violência nenhuma vale a pena. E a maior violência contra o Brasil será feita por Países estrangeiros contra a população que vai eleger Bolsonaro, e infelizmente à aqueles que votarão, não em Ciro (sempre a melhor opção), mas em Haddad (a opção do teimoso Lula e o PT de Gleise e sua utopia do Lula livre (não vai, Moro já tem outra prisão engatilhada – e vai ser mais vergonhoso ainda ele sair e voltar). Francisco os EUA estão influentes nos problemas políticos e econômico da Venezuela (Bolsonaristas culpam a esquerda – são incultos e não observam isto). O Brasil está também sob ataque a sua soberania pelo EUA. E puxou de volta o câncer da Ditadura, que agora apresentou metástase de um mal não curado (pelo PT). Eu desafio a qualquer equipe econômica de Bolsonaro, com Paulo Guedes ou qualquer mágico, a conseguir 35% de mercado externo se o Mercosul e BRICS resolverem lavar as mãos por 4 anos com o governo brasileiro. Bem vindos de volta a superinflação. E fim dos empregos e empresas.

    • Alberto disse:

      Perfeito caro sr Francisco Ricardo.Como meus comentários são quase sempre bloqueados só resta,por enquanto,,o “concordo”,o “perfeito”. Cumprimentos sr.

  2. Francisco Ricardo disse:

    Seria interessante você comentar e opinar sobre o que o PT agora quer fazer, que é recuar de boa parte do seu plano de governo e se passar como uma coalizão de centro esquerda. Em dois dias eles deixaram o Lula meio de lado, mudaram o logo da campanha e até largaram um pouco o vermelho. O outro lado também recua, mas não se descaracteriza. Fica muito difícil saber se não é uma manobra para ludibriar de novo o eleitor como na 2ª eleição da Dilma, que é o que parece, ou se o PT de fato entendeu o recado do 1º turno. Infelizmente não vi nenhum comentário neste blog sobre o significado da diferença de votos observada no domingo passado. Ou de fato todos creem que foi fake news? Se for isso eu não ficaria surpreso com uma nova lavada no 2º turno.

    • Miguel Ângelo disse:

      Comento eu pro Kennedy. Ora Francisco Ricardo. Se Bolsonaristas tivessem participado de Sindicatos, CIPAT, e tantos grupos que tomam decisão saberia o que é a política. Política é a arte de negociação (Não a favor da corrupção, feita pela elite financeira do Brasil, e os militares da Ditadura no passado, que quer se repetir novamente. Não a favor das Igrejas que ainda protestam após séculos, por uma inverdade da base de sua fé, onde hoje pessoas como Edi Macedo, Malafaia, ex-presidiários em outdoors são mais importantes que os profetas que andaram do lado do filho de Deus). Seja o o que Haddad fizer. Até renúncia em favor de Ciro, para a vitória do povo (muitos que nem teriam motivos para votar em Bolsonaro, já que Negros, Homossexuais, religiosos que deveriam não levantar bandeira a política e pobres que aumentaram nestes últimos anos). Será política. Como EUA estão fazendo na Venezuela e Brasil. E como fará Rússia, China e Índia não comercializando conosco. Brasil anos 80. Perdido.

    • Alberto disse:

      Correto caro sr Francisco Ricardo.Cumprimentos.

  3. Andre Martins disse:

    O PT não é o partidos dos meus sonhos, mas esteve aí em 4 mandatos e respeitou às instituições. A Lava Jato correu livremente, Lula foi preso e houve ampla liberdade de imprensa, liberdade esta que nos permitiu descobrir a extensão da corrupção. Por outro lado, o Bolsonaro não tem compromisso nenhum com a democracia quando elogia um torturador sanguinário como o Brilhante Ustra, de triste memória para suas vítimas. E seu discurso de ódio tem incentivado a criação de verdadeiras tropas de choque de defensores da moralidade. Todo dia alguém é agredido por um eleitor dela. Parece uma tropa “SS” de seguidores fanatizados, sem o mínimo respeito à liberdade de manifestação do pensamento.

  4. marco aurelio disse:

    Boa tarde Kennedy. Gostaria da sua avaliação do plano de governo do Haddad. Vejo grandes riscos à democracia também. Você não entende desta forma?

  5. sonia maria albuquerque disse:

    Pelo que vejo, toda pessoa com alguma espécie de agressão, como resposta temos que foi feita por alguém filiado ao Bolsonaro. Outra coisa, pessoas acreditam que será uma violência caso o presidente seja Bolsonaro. Maior violencia do que os petistas fizeram com esse pais, a ponto de ficarmos sem dinheiro, sem saúde, sem educação, muitos sem moradia, etc… é pior do que um soco na cara ou pior.Sou filha e neta de militares, e foram estes as pessoas mais bondosas e carinhosas que encontrei na vida. Quem recebeu a violência foi o Bolsonaro, com uma facada e quase morreu. Então quem é o violento??? Ele??? Quem está preso, ele???

    • Andre disse:

      Com certeza as mães e pais que perderam seus filhos, mortos de forma covarde por militares, não pensam como você. Aqueles torturados covardemente pelos militares , também não. Não precisa ir muito longe, pois o primeiro presidente militar, o general Castello Branco, envergonhado, referiu-se a tortura, como um ato covarde que vinha sendo praticado por militares. Acredito que seus familiares militares citados são pessoas boas, como a maioria dos militares, mas não posso dizer o mesmo de quem defende a tortura, o extermínio e ditadura.

  6. ezequias monteiro de lemos disse:

    Em um país que a corrupção impera, o crime reina e o incentivo a prostituição e ao ensino de crianças e ados
    lecentes aprender a se homossexual,nada como um candidato representante da família Brasileira.

  7. Andre disse:

    Caro Kennedy, pela sua lucidez você será chamado de petista. Neste tempo de intolerância, qualquer voz que se pronuncie, tentando alertar para o risco à democracia que representa o candidato Bolsonaro, será vilipendiado e taxado de “comunista”. Só compreende a democracia e a sua importância quem se dedica a ler a história, o fascismo só fascina os ignorantes e só logra êxito por se apresentar como uma falsa solução em momentos de adversidades. Mas o que mais me entristece é ver, o quão é mesquinho, parte do empresariado brasileiro que está flertando com o fascismo de Bolsonaro, simplesmente por acreditar que pode ganhar mais dinheiro.

  8. mano disse:

    prezados: A eleição tá ganha. Bolsonaro será o novo presidente. O grande problema é que ele não é candidato com credibilidade no mercado, haja vista, as recentes declarações sobre limitar privatizações. Ele é o candidato dos militares. Teremos um congresso tutelado pelos militares e pelo judiciário. Para retomar o poder, redemocratizar de verdade o país e fazer valer a constituiçao, vai levar algum tempo e água e óleo terão que se unir. Mirem-se no exemplo da coalizão recente em Portugal.

  9. mariza disse:

    Kennedy, falando em democracia e sendo você um jornalista, defensor da liberdade de imprensa, gostaria que você comentasse o fato do PT querer criar outra TV pública, com dinheiro público, e com o objetivo de dar concessões apenas aos aliados do PT ( movimentos sociais e sindicatos). Isto não estaria criando um controle na liberdade de imprensa, já que os aliados seriam chapa branca e falariam bem do governo o tempo todo?

    • Ricardo Costanzi disse:

      Perfeito a sua análise. Infelizmente as declarações de Bolsonaro são de implementação de ditadura. Lembrando que a Venezuela é uma ditadura militar – vide vídeo de Bolsonaro elogiando Hugo Chaves. Os eleitores de Bolsonaro inventam um candidato que não existe. Será que eles assistem os vídeos do próprio candidato? Acho que melhor não ver o que ele declara e acreditar em frases soltas. Se o Lula está preso e não houve nenhuma revolução, apenas protestos pacíficos, o que esperar de um candidato que não pensa nem no que fala e não lembra nem o nome do seu vice?

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2018-12-13 10:02:29