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27-02-2016, 9h47

Número Zero

Último livro de Umberto Eco faz reflexão sobre imprensa e poder
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DANIELA MARTINS
BRASÍLIA

Lançado em 2015, o último livro de Umberto Eco foi descrito como uma denúncia do mau jornalismo e dos artifícios utilizados para conduzir o entendimento do leitor, para reforçar teses pouco embasadas ou para tornar relevantes notícias banais.

Tudo isso está lá, nos diálogos da equipe responsável pelo novo jornal Amanhã. Eles planejam o uso de figuras de linguagem que facilitem a leitura ou reforcem ideias subliminares, o agrupamento de matérias desconexas que possam dar origem a páginas temáticas e enfatizar determinadas ideias, o uso de matérias alarmistas, as técnicas para disfarçar a opinião de quem escreve a matéria, a forma de desculpar-se sem assumir responsabilidade e até mesmo como sair sempre por cima no caso de alguma matéria ser desmentida, jamais admitindo erros.

É uma discussão pertinente. O próprio autor observou que jornais e jornalistas reconhecem muitas das práticas descritas. Mas, curiosamente, sempre as enxergam só nos outros veículos de comunicação e colegas de profissão.

O jornalismo que abre mão de desafiar seu público e opta por se tornar palatável e dizer aquilo que ele quer ouvir, além de reforçar preconceitos e fundamentalismos, acaba perdendo a relevância. Deixa de ser um balizador real para o debate público. O resultado de um jornalismo que supõe que “sabe o que o leitor precisa” é um público de visão crítica empobrecida, que demandará análises cada vez mais rasas com as quais ele possa “concordar”.

Mas “Número Zero” não fala somente desse viés de mediocridade do jornalismo. Fala também do posicionamento da imprensa como instrumento de poder.

O Amanhã é um projeto do Comendador Vimercate, uma figura de perfil não muito delineado. Sabemos dele pelo diretor do jornal, Simei. O Comendador é alguém que “quer entrar para o clube de elite das finanças, dos bancos e, quem sabe, dos grandes jornais”. Seu passaporte será o periódico “disposto a dizer a verdade sobre todas as coisas”, que circulará com pouquíssimos exemplares, apenas entre escolhidos.

O projeto de dizer a verdade deve ser lido como fazer insinuações sobre alvos pré-determinados. Nada que seja mentira, apenas verdades descritas de modo torto que criem perigosas áreas de sombra e comportem muitas interpretações. Inclusive as mais danosas. “Quando o Comendador demonstrar que pode pôr em dificuldades aquilo que chama de clube de elite das finanças e da política, é provável que o clube de elite lhe peça para parar com essa ideia, então ele desiste do Amanhã e consegue licença para entrar no clube de elite”.

Simei também tem o seu projeto pessoal. Para colocá-lo em prática, contrata Colonna, um escritor fracassado de 50 anos que será seu assistente na direção do jornal. Por trás dessa fachada, Colonna deverá escrever um livro contando como durante todo o processo de edição do Amanhã Simei teria se esforçado para “realizar um modelo de jornalismo independente de qualquer pressão, dando a entender que a aventura acabou mal porque não se podia dar vida a uma voz livre”. Simei explica seu objetivo: “Vai ser uma bomba e vai me render uma nota em direitos autorais. Ou então (só uma suposição) alguém pode não querer que eu publique e me dá uma quantia. Isenta de impostos”.

O “jornalismo independente” de Simei, não por acaso, será apresentado não em um jornal, mas em um livro. Uma ficção travestida de linguagem documental, escrita por um ghost-writer. Seria o jornalismo independente uma ficção?

Umberto Eco disse em entrevista à repórter Ilze Scamparini, na ocasião do lançamento do livro, que “Só existe um tipo de jornal que não é contaminado. É o jornal de partido. Porque se sabe que é um jornal de partido, então se sabe como ler e fazer a filtragem das informações. É claro que cada jornal tem pressão política de todos os tipos. Vai depender de como eles declaram isso. Os grandes jornais americanos, quando tem eleição para presidente, dizem: ‘Nós apoiamos este’. Ok, estamos entendidos. Na Itália, o problema trágico é que não existem jornais independentes. Todos são, de algum modo, ligados a bancos, indústria etc. Isso é muito grave. Não é tanto a política. Um jornal deve fazer política. Se é um jornal honesto, deixa claro qual é a posição política dele”.

No enredo do livro, Colonna é abordado por Braggadocio, um colega do jornal que deseja dividir com ele uma trama mirabolante sobre grupos secretos fascistas que permaneceram em ação desde a Segunda Guerra e projetos de golpes de Estado da direita acobertados por um sistema internacional de interesses geopolíticos e pelo Vaticano. Braggadocio vê tudo interligado, como uma enorme teoria da conspiração. Vale observar que a ação do livro se passa em 1992, período em que a Operação Mãos Limpas revirava a política e a História na Itália.

Quando a redação do Amanhã é fechada às pressas e um documentário da BBC exibe parte da trama de ligações improváveis defendida pelo paranoico Braggadocio, a teoria da conspiração ganha contornos de realidade. Mas tudo parece diluído no sem-fim de notícias que são consumidas diariamente. Parece que o público (ou o leitor) não consegue mais detectar os limites entre o fato histórico, a notícia real e a desinformação (ou a informação interessada).

Os veículos de mídia se transformam hoje em imensos portais. Uma estrutura que nivela todas as informações e, com isso, acaba por retirar-lhes a importância ou por interferir na sua escala natural de importância. Tudo será sempre e apenas mais uma notícia dentre tantas, podendo receber um foco de luz ou não. O que também é uma forma de manipulação da informação.

O autor desagradou a muitos quando afirmou que as redes sociais deram voz aos imbecis. Foi chamado de retrógrado e arrogante. Mas talvez ele estivesse justamente falando sobre a inocuidade de um debate que se pauta fundamentalmente pela falta de informação, pela opinião sem base, pelas leituras enviesadas e análises de perspectiva limitada.

“Mas os jornais seguem as tendências ou as criam?”, pergunta a única jornalista incomodada da equipe do Amanhã. “As duas coisas, senhorita Fresia. As pessoas no início não sabem que tendências têm, depois nós lhes dizemos e elas percebem que as tinham. É bom não fazermos filosofia demais e trabalharmos como profissionais”, responde o diretor, cinicamente.

Umberto Eco faleceu na semana passada e deixou vasta obra literária e acadêmica, na qual o papel do leitor como agente de reflexão crítica sempre foi desejado e respeitado. Boa premissa para uma autocrítica do jornalismo praticado hoje.

“Número Zero” foi lançado no Brasil pela editora Record, com tradução de Ivone Benedetti.

Comentários
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  1. A propaganda é a alma do negocio. O marqueteiro preso com os bolsos cheios de acarajés, mostra o espirito da campanha das esquerdas. Se precisar vendem a alma ao diabo para estarem no poder. A propaganda suja e mentirosa veio a tona após a eleição, quando a Presidente eleita fez tudo ao contrário do que promete na campanha. E a mascara caiu de vez, com a lava Jato.

    • Apenas Leitor disse:

      Qual é a relação do seu comentário com o texto publicado? realmente eu não entendi onde se insere sua opinião ou o que você quis dizer sobre o tema.

      • Pesquisas mostram que os brasileiros tem muita dificuldade de entender e interpretar textos simples. É a tal da “Pátria Educadora” e as suas consequências. As pessoas querem tudo pronto e embalado para o consumo. Tem preguiça de pensar. Por isto tem que plagiar monografia da internet e copiar consultoria do Wikipédia.

  2. PEREIRA disse:

    O que seria de nós brasileiros se não tivéssemos, jornalistas sérios e competentes tipo Kennedy e outros. Fala o que queremos ouvir, com lógica, esclarecimento, eficiência nas palavras. Parabéns nobre jornalista continue assim e que Deus lhe de muita saúde e paz para continuar o seu trabalho.

  3. mario machado disse:

    Senhor Pereira:

    Ainda não vi de parte do nobre jornalista Kennedy um laivo sequer de pendores a esses ou àqueles grupos políticos. Sempre escorreito, nos dá aquilo que desejamos e precisamos saber sem imbróglios ou marcas partidárias veladas. O jornalista de verdade deve ser isento e guardião da realidade, mostrando tudo de bom ou de mau que surjam ao interior do universo político. Porém, no dia em que eu puder lobrigar de alguma maneira uma queda à direita ou à esquerda – que não desejo ver velado ou explicitamente registrado pelo titular deste Blog – deixarei incontinente – mas jamais arrependido – de postar neste espaço minhas conjeturas humildes, mas sinceras. Abraços.

  4. Pasquale disse:

    Ué, um jornalista é responsável pela sua opinião?

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