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04-12-2015, 23h13

O Mestre e Margarida – uma defesa da liberdade plena da escrita

Romance soviético escrito na década de 30 é cultuado por leitores do mundo inteiro
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DANIELA MARTINS
BRASÍLIA

“O Mestre e Margarida” é um livro que extrapolou sua própria narrativa e acabou ganhando uma dimensão quase mitológica entre seus leitores. Escrito na União Soviética durante a década de 30, o romance levou nove anos para ficar pronto, teve uma versão queimada pelo próprio autor por medo da censura e passou outros tantos anos na gaveta. Só foi lançado em 1966.

Desde então, vem sendo citado como influência para músicas, filmes, performances e para outras obras literárias. Salman Rushdie, Rolling Stones e Pearl Jam são os exemplos mais alardeados, entre muitos outros. O apartamento em que se passa parte da trama é local de culto até hoje em Moscou. Sites do mundo inteiro se dedicam a mapear os personagens, os endereços e todas as demais referências citadas.

A edição brasileira mais recente foi lançada em 2010 pela Alfaguara, com tradução direta do russo feita por Zoia Prestes.

O livro é desafiador. O texto de Mikhail Bulgákov quebra os parâmetros de uma leitura fácil e confortável. Tudo é simbólico, nada está no enredo por acaso. Exige bastante de quem lê e deixa sempre a sensação de que alguma coisa pode estar escapando. Mas há humor o tempo inteiro.

Também são variadas as interpretações possíveis. A mais evidente é a crítica aos excessos do regime stalinista. E deve ser destacada a forma como essa crítica é feita, de forma engenhosa, em um misto de genialidade, ironia, opção literária e necessidade de burlar a censura. Muitos consideram que o mote principal é o amor corajoso e libertário de Margarida. E isso é perfeitamente possível. É um livro que está longe de se esgotar em apenas uma leitura.

Logo no início da trama, um editor e presidente da associação literária Massolit está sentado em um café criticando a obra de um jovem poeta sobre Jesus Cristo. O poeta é acusado de ter humanizado demasiadamente as figuras religiosas, abrindo uma brecha para a sua possível existência histórica, quando se esperava que os tivesse tratado como personagens folclóricos.

O poeta não consegue se opor ao julgamento do editor e, nesse momento, surge ninguém menos do que o diabo para instigar e questionar a segurança dos dois ateus tão racionais. O editor, irredutível em sua argumentação, acaba perdendo a cabeça, simbolicamente, em um estranho acidente. O poeta, abalado em suas convicções depois da conversa com Satanás, é internado em uma clínica de reabilitação mental.

E o diabo, acompanhado de uma memorável trupe particular, decide passar alguns dias em Moscou e virar todas as certezas de cabeça para baixo, enlouquecendo muita gente, desafiando a censura e burlando a burocracia.

A passagem do capeta e de seu séquito pela cidade expõe não apenas a ganância e a hipocrisia ocultadas pelas pessoas comuns, mas também, e principalmente, a face repressora de um regime que se define como igualitário e protetor dos interesses do povo, mas que se desvirtua no exercício do poder pelo poder.

Em paralelo, Margarida vive presa em um casamento infeliz, porém com muito mais conforto e regalias do que o restante da população, que divide cômodos em apartamentos e lida com a escassez de tudo e com o medo. Ela se apaixona por um escritor, a quem chama de Mestre, que escreve um romance sobre Pilatos e o julgamento de Jesus de Nazaré.

O romance do Mestre serve como um espelho velado que reflete as semelhanças entre a Jerusalém dominada pelos romanos e a Moscou dominada por Stalin. Nos dois lugares, aqueles que ousarem questionar as regras serão repreendidos e chamados de loucos, doentes, traidores. Serão perseguidos, delatados, interrogados, torturados, internados, deportados.

Como não poderia deixar de ser, o livro é severamente criticado e o autor (que representa o próprio Bulgákov) também vai parar na clínica de transtornos mentais. Margarida, inconformada e apaixonada, ousa pactuar com o diabo para reverter a situação.

Margarida faz um pacto com o demônio para libertar a obra do Mestre e vingar-se dos críticos covardes. Satanás reduz a cinzas a casa em que funciona a academia literária. A associação é composta por escritores que se acomodaram, que sucumbiram ao medo, que desistiram de contestar. Eles se contentam em receber as benesses daquele lugar conformista. Comem arenque defumado, bebem vodca, são reconhecidos.

Mas não é papel de um artista viver de conveniências, de pequenos privilégios ou de reconhecimento oficial. Quando se insere na conversa do poeta e do editor, no início do livro, Satanás já está tentando mostrar que o papel da arte é justamente o de contestar e apresentar novas possibilidades, não o de se submeter à crítica acadêmica ou acatar as visões do poder vigente. Um artista que não aceita esse desafio se torna um mero repetidor, um propagandista.

Bulgákov está refletindo sobre a vida de um escritor sob o regime stalinista. Está denunciando um sistema político totalitário que utiliza as expressões artísticas como panfletos para respaldar seu discurso. Dentro de tal regime, o diabo é identificado por todos como “o estrangeiro”. Ele representa as ideias divergentes, as ideias inimigas, impedidas de circular. E se materializa para provar que elas existem e continuarão existindo, mesmo que tudo em volta seja construído para desacreditá-las, mesmo que elas não sejam convenientes.

Tanto na Jerusalém romana quanto na Moscou stalinista, as pessoas desafiarão o poder, terão ideias contestadoras, cobiçarão o que não podem ter. É como se Satanás precisasse ensinar virtudes à política e lembrar, principalmente aos que se julgam mais poderosos, que “tão poderosa quanto qualquer força é a sua força contrária”.

Margarida é a musa do Mestre. E, mais ainda, é a personificação do inconformismo. Mesmo tendo uma vida mais confortável do que a média, ela quer mais. Ela se apaixona pelo Mestre e pelo livro que ele escreve, uma história que é criticada porque insere a dúvida na cabeça daquele que exerce o poder e a lei, Pilatos.

Ela é a libertação, aquela que se transforma em uma bruxa, em uma ideia que voa, que transcende, que não tem medo de buscar a força contrária para conseguir sobreviver. As ideias nunca morrem, os “manuscritos não ardem”, nunca se queimam completamente, como Bulgákov escreve em uma das mais famosas frases do livro.

Quando o Mestre se vai com sua musa, quem fica é justamente o poeta que ele conheceu internado na clínica, abalado em suas antigas certezas depois da conversa com o demônio. Soa como um recado de que é justamente da incerteza e do questionamento que pode surgir a verdadeira expressão artística. A arte digna de ser chamada de arte.

Bulgákov parece falar da coragem desafiadora que precisa ter um artista. Afirma que “o pior defeito é a covardia”. É preferir não ver, é compactuar com aquilo que se despreza. Assim como Pilatos se acovardou, mesmo sabendo que poderia ter decidido diferente, não foram poucos os que também lavaram as mãos frente a injustiças óbvias e causas deturpadas. Tanto pior se foram artistas. Tanto pior se colocaram sua arte a serviço do opressor.

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Comentários
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  1. Mauro disse:

    Boa parte desse paragrafo tem similaridade com o que estamos vivendo e com a personagem principal do Planalto:-
    Bulgákov parece falar da coragem desafiadora que precisa ter um artista. Afirma que “o pior defeito é a covardia”. É preferir não ver, é compactuar com aquilo que se despreza. Assim como Pilatos se acovardou, mesmo sabendo que poderia ter decidido diferente, não foram poucos os que também lavaram as mãos frente a injustiças óbvias e causas deturpadas. Tanto pior se foram artistas. Tanto pior se colocaram sua arte a serviço do opressor.

  2. Psycho disse:

    É um tema atemporal. Foi situado pelo autor em sua própria época porque assim o desejou, mas cabe, em menor ou maior proporção, para a intrincada relação de domínio e de submissão que o poder envolve, e naturalmente, suas consequências.

    A opressão pode tomar várias formas. Pode começar na infância, na escola, no lar. Avança na vida adulta, no matrimônio, na profissão e alcança com maior força aqueles que a ela tentam se opor.

    É difícil saber quem é mais sábio, se o acomodado ou o ousado. Fato é que somos o remanescente de tribos primitivas e herdamos, em nossa consciência animal, a reação à dominação. Alguns a aceitam, outros se rebelam.

    Talvez a pior versão seja aquela do ser que elogia o dominador mas que na profundidade de sua consciência rejeite totalmente a sua filosofia e ação, contudo, sem ser corajoso o suficiente para se libertar, permanece escravo das ideias de outrem.

  3. Mario machado disse:

    Creio que o nobre jornalista Kennedy tirou férias do círculo viciado e vicioso da política para se debruçar sobre a literatura mundial. Aproveitando o recesso do parlamento, nem por isso lhe faltaria assuntos apaixonantes e polêmicos como os concedidos pela batalha dessa ciência que seria nobre não fosse os descaminhos com que os seus protagonizadores dirigem seus movimentos amorais e imorais. É sempre apreciável mergulhar em águas de rios mais límpidos. Gostei e aprovei, como seguidor de seus comentários normais. A literatura também me apaixona.

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