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Geral
22-08-2018, 0h01

Otavio modernizou imprensa brasileira como um todo

Com brilho próprio, poderia dirigir qualquer jornal
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KENNEDY ALENCAR
SÃO PAULO

Lá vai um relato em primeira pessoa, daquele jeito que o Otavio não gostava em colunas, como bem lembrou o Helio Schwartsman e mais ou menos como falei no “Jornal da CBN – 2ª Edição” neste 21 de agosto tão triste.

Convivi de perto com Otavio Frias Filho durante cinco anos, quatro como editor da coluna “Painel”, entre 1996 e 1999, e no ano seguinte como repórter especial em São Paulo. Depois, os contatos deixaram de ser diários, mas se mantiveram frequentes no período em que cobri o final do governo FHC e durante todo o mandato de Lula, enviado a Brasília por decisão e conselho dele. Trabalhei na Folha, entre idas e vindas, por uns 17, 18 anos. Nos falamos mais algumas vezes depois que saí do jornal no fim de 2010. Trocamos algumas mensagens no último ano.

Otavio é um dos grandes jornalistas brasileiros. Será lembrado como um dos maiores jornalistas do país.

Quem conheceu as redações na virada dos anos 80 para os 90, como o Alon Feuerwerker, viu como elas mudaram da água para o vinho. Otavio foi o responsável por essas mudanças. Fala-se muito, com razão, do Projeto Folha. Mas as mudanças foram além da Barão de Limeira _não afetaram só a Folha.

Otavio modernizou a imprensa brasileira como um todo, exigindo maior rigor e precisão na apuração, a obrigatoriedade de outro lado de verdade em reportagens com acusações e implementando um jornalismo com pluralidade e espírito crítico.

Otavio tem um papel enorme na minha geração de jornalistas. A partir do trabalho dele, há um novo tipo de redação. Há um tipo antes do projeto que ele implementou na Folha e outro tipo depois do que ele fez.

Otavio era um homem erudito, culto, tinha grande embasamento humanístico.

Era filho do dono, mas não era diretor de redação só porque era filho do dono. Seu Frias quis que o Otavio assumisse a direção do jornal. Ele até hesitou, porque tinha vocação para outras áreas do conhecimento.

Mas o Otavio tinha capacidade para ser diretor da Folha, do Estadão, do Globo e de qualquer grande jornal. Tinha brilho próprio. É uma pessoa que respeito muito por isso e que se fazia respeitada pelas suas qualidades.

Posso contar algumas histórias que vivi com ele. Era um chefe muito leal.

Quando o Serra ligava e pedia a minha cabeça para o seu Frias, ele não dava muita bola. Tava acostumado. Mas uma vez foi diferente. O Serra ligou pra mim no Painel _o Rogério Gentile é testemunha. O Serra queria saber quem era a minha fonte, quem tinha contado que ele seria presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado a pedido do presidente Fernando Henrique Cardoso, tirando o posto de outro tucano, para receber um prêmio de consolação porque tinha perdido a eleição para prefeito de São Paulo para o Pitta. A informação tava correta. O Serra queria que eu abrisse a minha fonte. O telefonema acabou mal, com um xingamento.

Em poucos minutos, o Otavio me ligou. Disse que o Serra tinha ligado para o seu Frias e feito queixa. Expliquei o telefonema, dizendo que eu tinha dito para o Serra que não revelaria fonte porque não faço isso e que tinha xingado o tucano. Aquele não tinha sido o primeiro telefonema do Serra para mim nem para o seu Frias com esse tipo de pressão. Otavio respondeu que estava tudo certo e bola pra frente.

Certa vez, o senador ACM me enviou uma carta que dizia: “Releve a boutade, mas não perderei a oportunidade: mataram o Kennedy errado”. Pedi ao Otavio para responder no Painel do Leitor. Ele convenceu o seu Frias. A resposta foi: “Boutade por boutade, os métodos de ACM revelam que Hildebrando estava em boa companhia no PFL e que talvez haja mais político truculento a merecer a cassação”.

Quando fui cobrir a Guerra do Kosovo, em 1999, Otavio disse algo assim: “Cuidado para não ser furado, literalmente”.

No atentado de 11 de Setembro de 2001, quando me voluntariei para ir ao Afeganistão, as seguradoras não queriam fazer seguro de vida para jornalista. Otavio bancou um instrumento particular no qual a Folha se comprometia a indenizar a minha família, meus filhos eram pequenos na época, caso algo acontecesse comigo no Afeganistão.

Ele é uma pessoa com quem aprendi muito. Era rigoroso. Um grande jornalista. Vai deixar saudade. Foi embora muito cedo, com apenas 61 anos.

É emocionante falar de alguém que me deu as melhores oportunidades profissionais, confiando no meu trabalho, na minha seriedade profissional e pessoal. Sou muito grato a ele.

Há uma geração de jornalistas que aprendeu com o Otavio, que tinha seu jeito tímido, inteligente, irônico, culto, detalhista, durão e bacana. Melhor texto da Folha de S.Paulo. Otavio é um grande jornalista. Tenho saudade. E muita gente ficará com saudade dele, como escreveu a Suzana Singer.

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Uma entrevista e outros comentários feitos no “Jornal da CBN – 2ª Edição” estão no áudio abaixo. Mas o que interessa hoje, que é falar do Otavio, começa aos 10 minutos e 5 segundos:

Comentários
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  1. walter disse:

    Caro Kennedy, este professor de todos, sempre disponível, para quem quisesse conversar, tratar de assuntos corriqueiros ou não…tinha uma doçura admirável, pelo poder que sempre teve, impressionava a todos, pela simplicidade e abrangência…conheci pessoalmente, numa época em que a Folha de SP, tinha o respeito de todos, com muita influencia no cenário nacional…A grande tristeza do Otavio, e outros mestres, como Darci ribeiro; não conseguiram causar ou manter, a Educação em auto nível…não puderam influenciar de fato, governo nenhum, a manter pelo menos o conquistado…de um dia para outro, o País passou a exigir maiores conhecimentos, quando proliferou faculdades, cursinhos, e cursos profissionalizantes, com muito pouco conteúdo, em sua maioria…seu jornal deixou de ser uma tribuna, para se transformar num balcão de comunas; desvirtuado e invadido, com vícios que infelizmente perduram, sabe deus até quando; precisamos unir nosso Povo, acabar com as tentativas de divisão diária…

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2018-11-19 19:56:04