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Entrevistas
26-08-2017, 8h16

Petrobras deve buscar sócios para refino, diz Parente

Executivo afirma que apenas um terço da dívida da estatal foi bem usada
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KENNEDY ALENCAR
SÃO PAULO

O presidente da Petrobras, Pedro Parente, disse que a estatal deve procurar parcerias com empresas privadas para a área de refino, hoje algo que a empresa faz sem sócios. Segundo ele, grandes empresas internacionais, com boas práticas de governança, poderiam exigir da Petrobras a elevação do seu nível de gerenciamento.

“Essas empresas têm também um nível de governança muito elevado e, portanto, isso também demanda da própria Petrobras que você tenha essa governança muito elevada. Então, para responder à sua pergunta, nós achamos, sim, que a experiência da parceria deveria ser levada para a área de refino. Estamos avaliando qual é o melhor modelo para fazer isso”, disse Parente em entrevista ao SBT.

Indagado sobre o que teria feito mais mal à Petrobras, se a corrupção ou a ingerência política e a incompetência administrativa da gestão Dilma, ele respondeu:Quando você olha para a dívida da empresa, que hoje é em torno de 90 bilhões de dólares, você nota que um terço dessa dívida produz resultados, porque se pode dizer que foi o que foi empregado na exploração do pré-sal. No entanto, um terço dessa dívida decorre da prática de preços abaixo da paridade internacional. Portanto, não traz resultados para a empresa. E o outro terço é o fato de que existiram obras que foram feitas e que, ou custaram muito mais do que deveriam custar, ou estão paradas e não produzem nenhum tostão para a empresa. Então, isso lhe dá uma ideia, mais ou menos, de como deve ser respondida essa sua pergunta”.

O presidente da Petrobras disse que o Brasil “nunca esteve diante de uma situação fiscal tão grave”. Afirmou que medidas propostas pelo governo para combater o problema “vêm sendo aguadas” pelos políticos.

Parente afirmou que assumiu a Petrobras porque se sentiu “indignado com o que tinha acontecido” na estatal. Ele obteve do presidente Michel Temer o compromisso de que não haveria intervenção política na empresa.

De acordo com Parente, “não é desejo da sociedade brasileira, dos brasileiros, que a Petrobras seja privatizada”. Afirmou que a empresa precisa ser gerenciada com “racionalidade econômica” e “responsabilidade financeira”.

O vídeo abaixo contém uma versão de 20 minutos da entrevista de Parente, concedida no fim da manhã de sexta em São Paulo. Logo depois, em texto, está a íntegra da conversa.

*

Kennedy Alencar – O assunto da semana foi a privatização. O governo anunciou que pretende vender, fazer uma pulverização de ações da Eletrobras. Estão discutindo o modelo ainda. O sr. já disse que não tem planos de privatizar a Petrobras. No entanto, eu pergunto: no futuro, interessaria ao Brasil privatizar a Petrobras? Ou é mais importante manter essa empresa sob o controle do Estado brasileiro?

Pedro Parente – Eu acho que aqui tem uma consideração muito importante, que é o sentimento da sociedade brasileira e do povo brasileiro em relação à Petrobras. E esse sentimento é de um grande orgulho por tudo que a Petrobras fez, especialmente vencendo desafios tecnológicos e encontrando petróleo em águas cada vez mais profundas, o que culminou na descoberta do pré-sal, que, sem dúvida nenhuma, é uma das maiores províncias de óleo do mundo. Esse é o sentimento que tem que ser interpretado. E, da maneira como eu interpreto – aliás, confirmado por uma pesquisa recente –, não é desejo da sociedade brasileira, dos brasileiros, que a Petrobras seja privatizada.

KA – Então, tem que se respeitar e gerenciar bem a empresa.

PP – Eu acho que o fundamental é que não é porque é estatal que ela precisa ser mal gerenciada, e nem é o caso de todas as empresas privadas que são bem gerenciadas. Então, eu vejo que o que nós precisamos fazer, e está sendo feito, é exatamente gerenciar a Petrobras de acordo com os princípios da racionalidade econômica, da responsabilidade financeira e econômica. Sabendo que, para ela cumprir os seus objetivos, ela precisa ser saudável financeiramente, porque não ser saudável financeiramente, aí sim, coloca em risco o cumprimento dos objetivos do interesse coletivo.

KA – O sr. tem uma longa experiência profissional no setor público, no Banco Central. Foi ministro da Casa Civil no governo Fernando Henrique Cardoso. Gerenciou aquela crise do chamado “apagão”, em 2001. E estava na iniciativa privada. O que levou o sr. a aceitar presidir a Petrobras, que era um pepino tremendo, no momento em que o senhor tomou posse ali?

PP – É verdade, Kennedy, que eu estava em um plano de vida completamente diferente, e realmente muito tranquilo. Mas também é verdade que eu estava bastante indignado com o que tinha acontecido na Petrobras. E chega um momento em que você, se convidado a dar a sua contribuição num momento de indignação, você tem que considerar. E como funcionário público, com a visão de missão, uma coisa que fica ainda muito impregnada na gente, eu pensei e disse: “Olha, se o presidente Temer der as condições necessárias para gerir a Petrobras da maneira que entendo que ela tem que ser gerida, como nós acabamos de mencionar, eu não posso me negar a dar essa contribuição”. E foi esse o processo.

KA – E essa condição foi não ter intervenção política?

PP – Você pode sintetizar dessa forma, não ter intervenção política. E indicações para a diretoria e para o conselho, nas políticas internas da empresa. Portanto, coisas que, a rigor, deveriam ser dadas como líquidas e certas.

KA –  Coisas que devem ser feitas.

PP – Sim. Mas, enfim…

KA – O que fez mais mal à Petrobras? A ingerência política, a incompetência administrativa do governo Dilma ou a corrupção que foi desvendada pela Lava Jato?

PP – Quando você olha para a dívida da empresa hoje – que hoje é em torno de U$90 bilhões de dólares, porque uma parte dela é em dólares –, você nota que um terço dessa dívida produz resultados, porque se pode dizer que foi o que foi empregado na exploração do pré-sal. No entanto, um terço dessa dívida decorre da prática de preços abaixo da paridade internacional, portanto não traz resultados para a empresa. E o outro terço é o fato de que existiram obras que foram feitas e que, ou custaram muito mais do que deveriam custar, ou estão paradas e não produzem nenhum tostão para a empresa. Então, isso lhe dá uma ideia, mais ou menos, de como deve ser respondida essa sua pergunta.

KA – O sr. passou a adotar um teste de integridade para executivos e funcionários da Petrobras. Inclusive fez o teste. Isso foi bem aceito na cultura da empresa? E quais outras medidas tomou para tentar combater a corrupção?

PP – Olha, deixa-me ser justo e dizer que, quando eu cheguei à empresa, esse teste já estava lá. Os trabalhos de melhoria da governança, da conformidade e das questões relacionadas à integridade começaram a partir da liderança do Conselho de Administração, que, enfim, com diferentes composições, mas tomou posse no início de 2015. Portanto, isso já estava lá.

KA – Em plena Lava Jato.

PP – Já estava lá. Mas é claro que a gente vem fazendo um trabalho. Eu fiz, como você disse, o teste de integridade duas vezes, porque eu assumi inicialmente para completar o mandato do presidente anterior; e depois, quando terminou esse mandato, fui novamente eleito. Para ser eleito novamente, minha vida passada foi toda pesquisada, para se poder chegar à conclusão. Então, existe uma série de medidas. Por exemplo, a empresa era toda em silos. O que quer dizer isso? Você pega uma daquelas diretorias que ficaram famosas, infelizmente, por causa de todo o processo da Lava Jato –, essas diretorias eram de cima a baixo autônomas para fazer, realizar, assinar contratos, fazer obras. Era decidido com uma assinatura só. Havia o departamento de compras dentro dessa diretoria; havia o departamento jurídico dentro dessa diretoria. Portanto, era uma empresa que… Certos mecanismos já conhecidos de muito tempo, como, por exemplo, aquilo que tecnicamente se chama segregação de funções. Ou seja, é necessário num processo de compras, especialmente o de complexidade e de valor tão elevado como o da Petrobras, que não apenas uma pessoa tome a decisão, mas vários setores, vários comitês se envolvam. E isso está acontecendo. Além do fato de que nós centralizamos as compras, centralizamos o departamento jurídico. Até órgão de pessoal tinha em cada uma dessas diretorias. Então, isso é uma situação completamente diferente. Além de uma série de providências, de processos que foram reformados. Portanto, eu posso dizer que a empresa hoje é, sem dúvida nenhuma, completamente diferente da empresa de quando aqueles problemas aconteceram.

KA – É fato que o governo Dilma interferiu demais na política dos preços dos combustíveis. E parte do mercado afirma que, se a Petrobras não tivesse o monopólio do refino, os governantes não teriam tanto poder para interferir. O sr. pretende vender parte do refino? Tem um ponto de equilíbrio nessa equação?

PP – Veja que a empresa tem tido muito sucesso em parcerias na parte de exploração e produção. Então, hoje é uma coisa comum no mundo todo, e bastante compreendida e aceita dentro da Petrobras, o fato de que parcerias na área de exploração e produção são muito positivas para a empresa, por razões que são conhecidas, e por outras que não são tão faladas. As conhecidas são que você reduz a necessidade de capital, reduz o risco.  Mas as que não são faladas é que você melhora muito a sua condição tecnológica, porque você está trocando experiências com empresas que são sempre de muito… Enfim, são de grande porte, de qualidade. São majors, como se diz, grandes empresas internacionais. E outra é o fato de que essas empresas têm também um nível de governança muito elevado e, portanto, isso também demanda da própria Petrobras que você tenha essa governança muito elevada. Então, para responder à sua pergunta, nós achamos, sim, que a experiência da parceria deveria ser levada para a área de refino. Estamos avaliando qual é o melhor modelo para fazer isso. O que isso vai significar em termos de percentuais, de novo, não temos decisão tomada sobre isso, porque não a tomamos ainda. Estamos concluindo a avaliação do modelo, para tomar uma decisão na Diretoria Executiva de acordo com o novo sistema aprovado pelo Tribunal de Contas e, depois, pelo Conselho de Administração. Nesse momento, a gente informa. Não tem o que informar com mais detalhes do que isso que eu lhe disse agora.

KA – A política de preços de combustíveis está levando em conta agora uma realidade de mercado. Acabou aquela coisa de segurar, como um mecanismo de controle macroeconômico de inflação, como a então presidente Dilma gostava de fazer. Tem havido aí uma volatilidade maior nos preços. Ora sobe, ora desce. E há uma percepção da população de que o preço está mais caro. Por que essa política que o sr. adota é melhor que a da gestão Dilma? E é melhor para o país e para a Petrobras?

PP – Porque a volatilidade não é criada pela Petrobras. Como qualquer outra commodity – vamos lembrar commodity como esse produto que é padrão, comercializado em grandes volumes por vários agentes que compram e que vendem no mundo todo –, as commodities seguem a lei de oferta e procura, e o petróleo é assim também. Então, todas as commodities mudam de preço diariamente. A pergunta correta a fazer é por que não era antes assim, como é hoje? A commodity muda de preço, nós não somos formadores de preço.

KA – Foi um erro ter feito o que foi feito no passado.

PP – Olha, realmente, a visão que a gente tem hoje, e especialmente a partir do momento em que você tem verdadeiramente competição, porque os níveis de importação levam à competição, a nossa conclusão é que, para o momento que a gente vive hoje, essa é a melhor política, porque ela reflete a realidade do mercado. Então, nós temos aí duas variáveis importantes, que é o preço do petróleo e seus derivados e a taxa de câmbio. E é isso que a gente faz. Agora, eu preciso dizer isto aqui, e pedir para a população lembrar: o que recentemente causou um grande aumento dos combustíveis não tem nada ver  com a Petrobras, foi aumento de impostos. Portanto, não tem nada a ver com a política de mudança diária de preços.

KA – Foi uma medida – digo isto para explicar para o telespectador – que o governo tomou para poder fazer caixa para tentar cumprir uma meta fiscal, que até mudou. Foi por isso que subiu, não foi uma decisão da Petrobras.

PP – Não. E foi um salto muito maior do que as variações diárias que a Petrobras vem praticando. Se você olhar hoje, e desde o início do mês, a variação de preço é menos dois, mais três. Agora, é importantíssimo que a gente possa fazer essa variação diária, exatamente para que a gente não fique ou em uma situação de estar praticando uma margem muito elevada, ou em uma situação de estar com prejuízo. Então, isto é muito importante. É a nossa visão de que, para o momento que a gente vive – e, de novo, especialmente em um momento que é positivo para o país, mas é uma nova realidade para a Petrobras, de competição –, a gente tem realmente que praticar essa política.

KA – A Petrobras lidera uma cadeia produtiva enorme, gera muito emprego. A gente vê empresas investigadas pela Lava Jato, até porque falta um reconhecimento do TCU, da Advocacia-Geral da União e da Controladoria-Geral da República, um reconhecimento do acordo de leniência, o que impede até a contratação de empresas nacionais. E o que nós estamos vendo é que, no momento em que há uma estratégia da Petrobras de vender ativos – a gente vê a chinesa CNPC interessada no Comperj, no Rio de Janeiro; a Alpek, que é mexicana, interessada em Suape; a francesa Total interessada nos campos de Iara e Lapa –, como a gente poderia fazer para que as empresas nacionais voltassem a ser fornecedoras, em grande escala, da Petrobras e isso gerar emprego no Brasil? Isso não é um problema que o governo precisa resolver?

PP – Kennedy, veja que, nos três casos que você citou, os empregos vão continuar no Brasil. O Comperj: se volta a obra do Comperj, o que vai gerar de empregos e de atividade econômica será no Brasil. O Suape: essa empresa mexicana que tem um contrato conosco, que está em avaliação no CADE, a empresa teve, no meu modo de ver, a decência e a transparência de deixar claro que, se a gente não conseguisse vender, a gente ia fechar. Então, essas empresas que estão vindo, elas estão ajudando a manter empregos no país ou a recriar empregos no país. Agora, eu não quero fugir da sua questão. Voltando ao tema dessas empresas, existem duas condições para que elas possam voltar a operar – e a verdade é que nós já autorizamos duas empresas a voltarem a operar conosco. Essas duas condições são a existência de um acordo de leniência e que a gente faça uma verificação, a própria Petrobras, dos seus mecanismos de integridade e conformidade, para saber se estão conformes com aquilo que a gente acha que tem que ser. Atendidas as duas condições, não há nenhum problema de a empresa autorizar a volta, para essas empresas se candidatarem novamente a trabalhar para a Petrobras, como já aconteceu, como eu disse, com duas empresas.

KA – O PT sempre critica muito, dizendo: “Ah, estão vendendo ativos da Petrobras que não deveriam ser vendidos. Isso é patrimônio do povo brasileiro”. Também há uma crítica ao fim ou à moderação dessa política de conteúdo nacional. Eu queria uma resposta do sr. em relação a essas duas críticas.

PP – Olha, não vamos esquecer a herança que ficou para a Petrobras, em função das administrações que foram ali colocadas por outros partidos. Esta herança chegou a U$130 bilhões de dívida.

KA – Hoje está em U$90 bilhões, como o senhor falou.

PP – É porque aqui são dois conceitos: U$130 bilhões de dívida bruta; e dívida líquida, quando a gente desconta o caixa da empresa, dá um pouco acima de U$100 bilhões. Essa que hoje é da ordem de U$90 bilhões é a líquida, portanto.

KA – Caíram U$10 bilhões.

PP – Caíram U$10 bilhões, por força da ação da atual gestão. Então, veja, quando se faz esse tipo de alegação ou de acusação, eu acho que existe por trás disso uma tremenda desonestidade intelectual, porque o que se pretende é que a Petrobras, no fundo, no fundo, se veja sem as condições de sobreviver porque tem que pagar o custo dessa dívida, que é elevadíssima. Para lhe dar um exemplo, a diferença entre o que a Petrobras paga de juros e uma empresa no porte dela, no setor de óleo e gás, na média, é U$ 6 bilhões por ano. U$ 6 bilhões é um sistema completo de exploração de um campo no pré-sal. Então, a Petrobras, por força do que aconteceu no passado, em que se gerou essa tremenda dívida, ela tem, digamos assim, uma desvantagem competitiva que se acumula a cada ano em relação a essas empresas, que é a sua impossibilidade de, em vez de pagar juros, estar montando sistemas no pré-sal.

KA – O sr. comentou, há pouco, que a questão do recente aumento do preço do combustível tem a ver com a política econômica. Na Casa Civil, no governo Fernando Henrique, o senhor participava muito dessa discussão. Tinha uma excelente relação com o Pedro Malan, que era o ministro da Fazenda. Eu pergunto: como o sr. vê a trajetória do crescimento da dívida pública brasileira? E a questão fiscal no país, qual é a gravidade dela?

PP – Eu acho que a gente nunca esteve diante de uma situação fiscal tão grave. E me preocupa bastante o fato de que não existe ainda, digamos assim, a percepção generalizada de quão grave é esta crise fiscal e de que ela demanda, sim, ações de mudanças importantes, como as que o governo propôs. Mas a gente observa diariamente nos embates políticos, em que essas medidas vêm sendo aguadas, o fato de que elas podem não vir a resolver o problema. Não resolvendo o problema, a solução que resta ao governo – como ele fez – é aumentar impostos. E aumentar impostos significa retirar do setor privado uma parte da sua margem. Isso significa dizer também que, ao retirar parte da margem, empresas que antes eram lucrativas podem deixar de ser. Isto vai diminuir a base tributária, vai diminuir empregos. Portanto, há, digamos assim, uma relação causal muito relevante entre o problema fiscal brasileiro, a necessidade de atender esses problemas, e a atividade econômica no país e a geração de emprego e renda. Então, como eu disse, me preocupa muito, primeiro, a gravidade – eu nunca vi uma situação tão grave, de natureza fiscal – e me preocupa ainda mais a minha percepção de que não há ainda, de maneira generalizada, a consciência dessa gravidade.

KA – Eu queria falar sobre outro tema importante. Esta semana, a gente viu uma discussão sobre o fim da TJLP, a taxa de juros a longo prazo, para se criar uma nova taxa, a TLP. O que a gente vê? Empresários, a FIESP, fazendo lobby contra essa modificação. Essa própria política de desoneração, da Dilma, era uma reivindicação de muitos setores empresariais. Então, você tem uma elite no campo privado que faz muitos pedidos ao Estado. Ao mesmo tempo, a gente vê em Brasília juízes e procuradores defendendo a manutenção de supersalários e usando até um argumento curioso, no meu entender, de que a discussão para evitar que ultrapassem o teto salarial seria uma retaliação, porque eles combatem a corrupção. Pergunto ao sr., que tem uma longa carreira no funcionalismo público e também na iniciativa privada, portanto conhece os dois lados: não falta mais responsabilidade da nossa elite econômica privada e do funcionalismo, de fazer sacrifício numa hora dessas, por exemplo, nessa questão dos supersalários?

PP – A grande questão aqui é quando você discute se vai tomar medidas que são setoriais ou se vai tomar medidas de natureza geral. Aqui eu estou me referindo especificamente à taxa de juros. Ora, quando você tem medidas que alcançam alguns setores apenas, essas medidas têm um custo, e esse custo, no caso da taxa de juros, faz com que o custo para aqueles que não estão atendidos pela medida seja muito maior.

KA – A sociedade inteira paga.

PP – Aí a sociedade inteira paga por um sistema, por exemplo, de necessidade de política monetária de manter uma taxa de juros que é muito acima daquilo que seria possível fazer não existindo essas políticas de natureza setorial. Portanto, é uma grande discussão que o país precisa fazer: nós vamos atender a quem mais realmente demanda, que faz mais pressão, que está mais presente nas discussões e tem mais condições de se mobilizar; ou nós vamos olhar para o todo – porque sabemos que o todo não se mobiliza –, e aí realmente adotar medidas que possam proporcionar um crescimento ao país e uma distribuição muito mais…?

KA – A elite do funcionalismo tinha que fazer mais sacrifício?

PP – Olha, Kennedy, realmente o que a gente observa, por exemplo, quando vê a crise da Previdência, a gente nota que metade do problema é causado por 1% dos beneficiários, mostrando claramente o que eu falei antes. Portanto, realmente acho que o país vai chegar a um momento em que vai ter que acertar as contas com essa gravíssima situação fiscal.

KA – Nós estamos chegando ao final da entrevista, e há uma questão política que quero abordar com o sr. Em uma reunião recente do Fernando Henrique com algumas pessoas aqui em São Paulo, falou-se: “O Pedro Parente tem um bom perfil de gestor. Podia ser um candidato a presidente, podia entrar na política”. Tenho fontes seguras que disseram que o Fernando Henrique discutiu essa possibilidade. Ele já conversou com o sr. a respeito disso? O sr. tem filiação partidária? Passa pela sua cabeça entrar na política?

PP – Ele não falou disso comigo, não sou filiado partidariamente e acho que a gente tem que conhecer nossas vocações. Eu não me vejo vocacionado para uma atuação política. Eu sou um executivo, assim me vejo. E acho que esta é uma crise que tem que ser resolvida pela política. Dessa forma, eu realmente continuo focado na Petrobras, porque esse é o meu compromisso.

KA – Essa resposta é bem política.

PP – (Risos.) Essa é uma resposta verdadeira.

KA – Saiu um anúncio de que haverá uma reestruturação societária na BR Distribuidora. O sr. já havia dito antes que estava estudando uma medida nesse sentido. Queria que detalhasse qual vai ser o aporte de recursos. Como vai ficar esse assunto?

PP – Isso é realmente ligado ao processo de preparação da empresa para uma decisão anunciada, que é a de fazer a abertura do capital da BR, o chamado IPO, na sua sigla em inglês. Uma questão importante é a do endividamento da BR com o setor elétrico. E dessas providências que foram anunciadas hoje ao mercado, o objetivo é fazer com que realmente a empresa possa vir a esse momento de abertura do seu capital de uma maneira em que essa questão da dívida não atrapalhe a avaliação correta da empresa.

KA – A Eletrobras tem uma dívida de cerca de R$10 bilhões com a BR Distribuidora. Essa dívida está sendo equacionada agora?

PP – A dívida com o setor elétrico inclui essa dívida que você mencionou. O que nós esperamos, naturalmente, é que, no contexto desse processo de venda de parte importante do capital da Eletrobras, as discussões a respeito dessa dívida possam prosseguir e equacionar a dívida.

KA – Em relação à BR, a intenção é a Petrobras manter o controle acionário, ou ela admite ser minoritária?

PP – A decisão do Conselho tem dois limites. O limite inferior é o fato de que a gente decidiu ir para o novo mercado, implicando o fato de que é no mínimo 25%. E o Conselho também decidiu que não vai vender o controle da empresa, portanto, no máximo 49,99%. Onde vai se situar, disto a gente ainda não tomou decisão a respeito, porque inclusive depende das condições de mercado no momento da abertura.

KA – Chegamos ao final, quando fazemos um pinga-fogo. Queria que o sr. respondesse com uma ou duas palavrinhas, rapidamente. Getúlio Vargas?

PP – Getúlio Vargas foi um grande líder. Era realmente um farol na vida brasileira, mas de um tempo passado. Portanto, não é pelo fato de que ele fez boas políticas naquele tempo que essas políticas não possam ser melhoradas e modernizadas.

KA – Juscelino Kubitschek?

PP – Juscelino Kubitschek trazia esperança. Ele realmente era um político capaz de trazer ao brasileiro a visão de um país de que todos se orgulhavam, e certamente isso é uma coisa muito importante nos dias de hoje.

KA – João Goulart?

PP – João Goulart talvez tivesse boas intenções, mas a forma de implementá-las, no meu modo de ver, não ajudou o país.

KA – Ditadura militar de 64?

PP – A ditadura militar de 64 passou. Hoje nós temos um país completamente democratizado, onde os próprios militares dão o seu testemunho diário de que o melhor para o país é a democracia.

KA – José Sarney?

PP – José Sarney viveu um momento dificílimo, que foi o momento da morte do presidente Tancredo e a transição para uma nova Constituição. E fez coisas, eu quero lembrar que não se registra isso, mas, por exemplo, ele foi o presidente no qual toda a reforma das finanças públicas brasileiras – com a separação de Banco Central, Banco do Brasil e Tesouro Nacional – aconteceu. E ele se envolveu com isso. Eu sou testemunha disso. Eu trabalhava no Ministério da Fazenda. Implantamos, por exemplo, naquele tempo, o SIAFI. Era um sistema que, naquele tempo, em 1986, era em tempo real, on-line, para todas as unidades do governo, transparência total. Portanto, realmente, sob o ponto de vista das finanças públicas, deu muita contribuição ao país.

KA – Fernando Collor?

PP – O Presidente Fernando Collor teve a coragem de colocar mudanças disruptivas, mudanças realmente importantes, que modernizaram o país. Infelizmente, depois aconteceu o que a gente viu.

KA – Itamar Franco?

PP – O Presidente Itamar Franco tinha um grande mérito: ele sabia escolher o seu time. E, como a gente sabe, a escolha do presidente Fernando Henrique como ministro da Fazenda foi coisa feita à revelia do presidente Fernando Henrique. Ele soube pelo Diário Oficial. Ao fazer isso, ele proporcionou a estabilização do país.

KA – Fernando Henrique?

PP – Fernando Henrique é, realmente, um líder como poucos. E eu tive a grande honra e o prazer de trabalhar junto com ele. É uma pessoa com princípios sociais democratas, ou seja, uma pessoa que entende que a livre iniciativa é fundamental, mas que não pode ser desprovida da observância de princípios importantes, entre os quais o da responsabilidade social.

KA – Lula?

PP – O presidente Lula teve a grande sensibilidade, no início de seu governo, de tirar proveito das políticas que vinham sendo adotadas pelo presidente Fernando Henrique, mantendo essas políticas. Infelizmente, depois, não continuou nesse caminho, e a gente não pôde mais observar aquilo que a gente observou no seu primeiro mandato.

KA – Dilma Rousseff?

PP – A presidente Dilma sempre muito bem-intencionada, no entanto não compreendeu que não é possível resolver os problemas por atos de voluntarismo, atos que não consideraram todos os aspectos de uma determinada questão. Então…

KA – Michel Temer?

PP – O Presidente Michel Temer também recebe o país num momento extremamente delicado. E eu sempre digo, e sempre reconheço, que eu não me lembro de um presidente da Petrobras que tenha recebido o grau de autonomia – e é óbvio que tenho que dizer isto – na direção que nós consideramos correta, como o que ele concedeu ao atual presidente da Petrobras.

KA – E Pedro Parente por Pedro Parente?

PP – Pedro Parente por Pedro Parente? Eu quero fazer um bom trabalho na Petrobras. Eu quero ajudar a empresa a recuperar a sua reputação, voltar a ser orgulho dos brasileiros e voltar a ser orgulho dos seus empregados. E fazer com que ela possa voltar a competir em igualdade de condições com seus competidores no mercado internacional, porque é uma empresa que já deu e vai voltar a dar muita alegria aos brasileiros.

Comentários
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  1. Hildebrando Dias Santos disse:

    Parabéns Kennedy Alenca,excelente entrevista,
    Sou admirador da capacidade do entrevistado Pedro Parente.
    Em bora eu, tenha posições, com viés social.
    Penso que o Brasil, precisa de profissionais indignados, como ele!

  2. walter disse:

    O que dizer do Pedro Parente caro Kennedy; um responsável e competente executivo; poderia ter sido chamado antes, mas a politicagem levou a colocarem o Bendine, olha só onde chegamos, depois de outros dois incompetentes, antes deles…perguntar sobre a gestão anterior, até então defendida por alguns, do governo dilma só lembra a tristeza causada; esta crise fiscal, mencionada pelo ministro, tem sim tudo a ver com o rombo herdado pela gestão dela; infelizmente o País esta a beira do abismo…precisaremos de todas as condições, como as privatizações, para gerar caixa com urgência…o governo temer não quer admitir, mas não há outra saída, e não dá para esperar as eleições de 2018…precisam com urgência remediar de qualquer maneiras e formas…teremos que rever as privatizações, e meios de valoriza las ao máximo; todos os recursos arrecadados, irão direto para o Rombo; não adianta mentir ao povo.

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