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Entrevistas
07-12-2014, 11h01

‘Polícia não deveria atuar sozinha contra black blocs’

Para Esther Solano, professora da Unifesp, faltaram tentativas de mediação em protestos
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ISABELA HORTA
Brasília

esthersolano

Para Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os mascarados dos protestos de 2013 tem um perfil ‘muito normal’. “Não tem nada a ver com o estereótipo de um criminoso, que vai semear o caos na cidade. Só que são jovens que têm muita raiva contra a polícia, contra o sistema. E eles se expressam por meio da violência”, diz.

Solano, que é uma das autoras do livro “Mascarados – a verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc”, avalia que os representantes políticos erraram ao deixar a polícia atuar sozinha nas ruas. “Não houve uma mediação, um diálogo, uma negociação. Isso piora muito os ânimos e faz com que a situação seja muito mais de risco. […] A polícia sempre tem de estar acompanhada do Ministério Público, de representantes do governo. Você não pode deixar a polícia largada na rua.”

De acordo com a professora, os black blocs não praticam crimes contra o patrimônio público e privado “por pura inocência”. “Eles dizem que o Estado é o verdadeiro criminoso. […] A lógica deles é chamar atenção para os grandes crimes que o Estado e o sistema financeiro cometem.” Segundo ela, alguns desses ativistas sabiam que seus atos poderiam acabar ferindo outras pessoas. “Quando você é manifestante, seja black bloc ou quem for, e pega um coquetel molotov, o risco está inerente em sua atividade. Uma parte deles está consciente disso.”

Recentemente o metrô de São Paulo proibiu a veiculação de publicidade do livro de Solano nas estações por “incitar a violência”. Quando questionada a respeito da proibição, ela diz que o episódio é um “absurdo”. “Foi lamentável. A proposta do livro é justamente o contrário. É tentar um diálogo e conhecer esses jovens. O livro critica justamente isso: o preconceito, o estigma, o fato de não pararmos para conhecer as pessoas.”

Confira a entrevista:

1 – Onde surgiu o termo black bloc?

O termo black bloc vem, na verdade, dos anos 80 na Alemanha. Os movimentos anarquistas da época já se organizavam com essa ideia de todo mundo ir vestido de preto, em um bloco preto, para lutar contra questões capitalistas e do Estado. Mas o termo se popularizou muito com as lutas antiglobalização. Nos anos 1990 e 2000, ocorreram protestos em Seattle (EUA) contra a OMC (Organização Mundial do Comércio) e o G20. O movimento da antiglobalização foi o mais importante na luta do black bloc.

2 – Quando esse tipo de ativismo chegou ao Brasil?

No Brasil, chegou nos anos 2000 justamente contra questões do FMI (Fundo Monetário Internacional), a OMC e aquela ideia de um capital globalizado que queria se impor no país. Só que a imprensa não prestou muita atenção. Isso era praticamente tratado como depredação contra símbolos do capital e como anarquismo. A tática black bloc no Brasil, então, não é nova. A diferença é que, nos protestos de 2013, a imprensa prestou muito mais atenção e agora criou-se um debate social, que não foi criado previamente. Foi muito mais espetacularizado.

3 – É correto falar em “movimento” black bloc? Há uma organização centralizada por trás desses manifestantes?

O mais correto é falar em “tática” black bloc. A definição do black bloc é: uma forma de protesto que utiliza violência simbólica, violência contra objetos do capital e do Estado. As pessoas que são adeptas dessa tática não aceitam a ideia de liderança, de organização vertical, de hierarquia. Quando você observa um protesto que tem tática black bloc, você vê que não há liderança definida. Cada um vai com a sua ideia do que significa a tática. Não tem nada a ver com movimentos de sindicatos, que é vertical e hierárquico. Não é nada disso. É descentralizado.

4 – Quais são as principais reivindicações dos que optam pela tática black bloc? Qual é a pauta comum dos diferentes grupos de mascarados que atuam em protestos?

Há tática black bloc no mundo inteiro. Houve manifestação desse tipo no Egito, na Primavera Árabe, há atuação na Europa, nos Estados Unidos e aqui. Todos buscam a mesma coisa: o ideário anarquista, a luta contra capital. Mas o mais importante para se destacar é que cada grupo black bloc tem a sua particularidade no país onde atua. No Egito, havia uma luta muito grande contra o Hosni Mubarack na Primavera Árabe. Na Europa, o black bloc tem um foco na luta contra o FMI, a crise econômica, os cortes sociais e etc. Nos Estados Unidos, a luta é contra Wall Street e o capitalismo. No Brasil, teve um foco específico que era a luta contra a Copa e a repressão da polícia. Então, no mundo inteiro tem um foco anarquista, de luta contra o Estado e contra o sistema, mas cada país tem a sua particularidade.

5 – Os black blocs costumam realizar depredações a símbolos capitalistas, como bancos, lojas e concessionárias de carros de luxo. Nos protestos de 2013 no Brasil, também foram danificados placas de trânsito e roletas de metrô. Alguns grupos atearam fogo a lixeiras e ônibus. Pela legislação, esses tipos de atos são enquadrados como crime contra patrimônio público e privado. Por que, então, os black blocs praticam atos contra a lei? Isso não torna ilegítimo todo o movimento? Em uma democracia, o limite das manifestações não deveria ser o respeito à lei?

Quando você pergunta a eles, eles sabem muito bem que aquilo que estão fazendo é tipificado como crime. Não fazem por pura inocência. Sabem muito bem que o que estão fazendo é uma ação criminosa. Mas eles dizem que o Estado é o verdadeiro criminoso. ‘Eu não sou um vândalo ou um criminoso porque eu vou quebrar um agência de um banco. O criminoso realmente é o banco que impõe juros altíssimos, que tem um regime quase escravocrata com a população.’ Eles praticam pequenos crimes porque a lógica deles é chamar atenção para os grandes crimes que o Estado e o sistema financeiro cometem. Eles falam: ‘Quando eu jogo uma pedra ou picho um banco, eu sei que é um pequeno crime, mas eu pretendo chamar atenção para o grande vandalismo que é a delinquência organizada do banco, do sistema financeiro.’ Essa é a visão deles. É uma provocação: é a transgressão da lei querendo provocar um debate para mostrar que o mais transgride as leis são justamente as grandes corporação e etc.

6 – Em 2013, um cinegrafista da Band morreu depois de ser atingido por um rojão enquanto registrava imagens em um protesto contra o aumento da passagem de ônibus no Rio. O artefato foi lançado por um manifestante mascarado. A polícia e a imprensa o identificaram como um black bloc, o que ele negou em entrevista à TV. O manifestante black bloc ao usar artefatos explosivos não está assumindo o risco de matar outras pessoas? O ato não é equivalente a um motorista bêbado que conduz um carro?

Claro que o risco existe. Quando você é manifestante, seja black bloc ou quem for, e pega um coquetel molotov, o risco está inerente em sua atividade. Uma parte deles está consciente disso, mas talvez outra parte não. A juventude não era muito consciente do risco. E algumas situações foram de alto risco realmente, porque os ânimos estavam muito ressaltados. O problema, que talvez tenha piorado muito a situação em São Paulo e no Rio, é que os representantes políticos, o governo de forma geral e o Estado deixaram a polícia atuar sozinha na rua. Não houve uma mediação, um diálogo, uma negociação. Isso piora muitos os ânimos e faz com que a situação seja muito mais de risco. Se você tem algum representante político ou alguém que vá para a manifestação tentar mediar e acalmar os ânimos, pelo menos uma tentativa, a situação melhora. Como não houve isso, a situação foi piorando e colocando mais em risco a população.

7 – Em 2013, foram noticiados diversos casos em que a polícia se excedeu ao tentar conter manifestantes. Há relatos de revista vexatória, uso desproporcional da força, PM sem identificação, prisões arbitrárias. Para a Anistia Internacional, houve abuso policial nos protestos do ano passado. Na sua opinião, como a polícia deveria se preparar para lidar com grandes manifestações e com atos de black blocs? O que é preciso mudar no treinamento da polícia?

A polícia não estava acostumada com esse tipo de protesto. Estavam acostumados com manifestações com liderança, roteiro definido e com os líderes se reunindo previamente com o comando da polícia. Todo mundo sabia como funcionava a manifestação. Não tinha anonimato. De repente, a polícia viu um protesto diferente: sem roteiro definido, com máscaras, sem liderança. Então, tiveram de se acostumar de alguma forma com esse novo tipo de manifestação. O mais importante seria, então, ter um órgão fiscalizando a atuação policial. Uma corregedoria forte para verificar quantas pessoas foram feridas pela polícia, como foi a atuação dos policiais. É muito importante ter transparência e fiscalização.

Mas, por outro lado, os policiais foram os únicos elementos do Estado nas manifestações. Isso não é possível. A polícia sempre tem de estar acompanhada do Ministério Público, de representantes do governo. Você não pode deixar a polícia largada na rua.

Então, acho que são essas duas coisas: transparência da atuação policial e, por outro lado, a presença do Ministério Público e de outros tipos de representantes do governo para tentar negociar imediatamente.

8 – Os black blocs ganharam destaque na mídia brasileira nos protestos de junho e julho de 2013. Os manifestantes dessa ideologia foram considerados “vândalos” ou “baderneiros” pelos governos, polícias e até pela imprensa. Afinal, quem eram os mascarados que agiram nas ruas em 2013?

Quando você lia jornais, parecia que esses jovens eram terroristas, criminosos, uma grave ameaça nacional. Eles construíram essa imagem. Os mascarados eram os típicos jovens que você veria em um dia normal na rua, com suas mochilas. A maioria deles estava trabalhando, muitos estavam pagando seus estudos em faculdades particulares. Havia jovens mais adolescentes de 15 e 16 anos, mas também havia pais de família. O denominador comum de todos eles é que muitos vêm da periferia, regiões com problemas em São Paulo, mas são jovens muito normais, que estudam, que trabalham e que tem uma visão política, inclusive talvez um pouco maior que a maioria. Mas não tem nada a ver com o estereótipo de um criminoso, que vai semear o caos na cidade. No dia a dia, o perfil é perfeitamente normal. Só que são jovens que têm muita raiva contra a polícia, contra o sistema. E eles se expressam por meio da violência também. Para eles, a violência é um instrumento.

9 – Alguns críticos atribuem o esvaziamento dos protestos de 2013 aos atos violentos praticados por black bloc. O uso dessa tática não acaba dividindo os protestos? A violência não afasta outras pessoas que gostariam participar de manifestações de rua?

De fato, a violência é muito perigosa para ser policiada porque pode muito facilmente sair do controle. Então, muito manifestante ficam com medo de sair na rua, sem dúvida nenhuma. E a maioria das pessoas não apoia essa tática, não entende o uso da violência. A tática do black bloc, por definição, é muito minoritária. Há quem acredite firmemente nela, mas grande parte das pessoas não aceita a violência nas ruas como método para protestar. Segundo uma matéria que saiu na Folha de S. Paulo, 95% rejeitavam a tática. Ou seja, provoca realmente muita rejeição. Isso é muito claro.

10 – O que você achou do metrô de São Paulo proibir anúncio publicitário do livro “Mascarados – a verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc” nas estações por “incitar a violência”?

É um absurdo. Foi lamentável. A proposta do livro é justamente o contrário. É tentar um diálogo e conhecer esses jovens. O livro critica justamente isso: o preconceito, o estigma, o fato de não pararmos para conhecer as pessoas. Temos que dialogar muito mais. A primeira parte do livro começa falando que nós tentamos escutar todo mundo. Tem entrevista com um coronel da Polícia Militar, com os manifestantes, com jornalistas. Há muita pluralidade de voz. Nós queríamos trazer um debate qualificado.

Comentários
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  1. José Carlos Damaceno disse:

    DEIXA EU VER SE ENTEDI LOGO DE CARA ELA DIZ QUE SÃO PESSOAS MORMAIS E AGEM COM VIOLENCIA, NESSE CASO ENTÃO SE NÃO SOU TÃO ANALFABETO ASSIM ELES COMETEM CRIME ENTÃO?????????????????????????????????????????????????????

  2. juliana disse:

    Mas ele descobriu que não se ama sem ciências. E não se come doce à vontade. Tornam as crianças obesas e futuramente preguiçosas. Atrapalham a vinda da maturidade, pois essa exclui toda forma de amor, despe a terra em sua ingenuidade colorida por estações. Ele sempre desconfiou da rosa. Considera que o espinho fora sempre mais nobre apesar do lugar que lhe reservou a astúcia humana. Assim também sempre considerou o Diabo a maior figura da literatura que uns lhe ensinaram paracontrabalançar com o bem. Se bem que almejava que o Diabo fosse figura real, concreta, feito de carne e osso, um atento guia da humanidade. Frustrado, descambou para as ciências, a quem lhe confidenciava sempre os mais refundidos sentimentos. Na proporção do avanço, pode compreender que as espécies migram com a falta de abundancia de viveres. E protestos e manifestações de ruas surgem nesses períodos. E espécies desaparecem nesse cenário cruel, sem nenhuma satisfação a quaisquer deuses e o nome da rosa em sua casa parecia um vitupério, capaz de destilar ventos tempestuosos, onde se podiam encontrar constantes apenas na sorte que o encabulava ora ou outra, via adivinhos, complementados por suas desordenadas anotações sobre etapas, tão encobertas pelo nome rosa, a tanto que desvendá-las e não deixa-las atrasarem-se se tornara verdadeiro exercício das invenções e descobertas.

  3. suerly disse:

    Um futuro que nunca chegava, exclamou Panasius observando as estrebarias modernas do tataravô. O homem já não mais curioso tinha a disposição todo o conhecimento ambulatorial. E a vida chegava a mil anos no tempo dos homens. Pelegue ficaria enciumado e Adão entristecido pela interrupção da descendência. As franjas não mais queriam imitar a arte. Com teores exatos de alimentos, os campos eram verdejantes, inibindo o surgimento de pelos e cabelos para sugar alimentos deficitários. Os rostos eram irreconhecíveis nas linhagens. O DNA já não mais valia porque as ciências permitiam a criação de caracteres não hereditários a gosto do homem e surgiu uma vacina para vedar a transmissão de características pessoais. O curioso e que ao mesmo tempo em que se apagou a raça original, a arte não mais tinha espaço publico; surgia no próprio corpo, para uns com mais uma boca, longas barbas até os pés como verdadeiros deuses e alguns desses com asas, empreendendo voos. A bebida tinha sido substituída por doses de suspiros lembrados celestiais onde os bytes invisíveis sinalizavam apenas o tempo de dependência recíproca. Por conta disso os controles ficaram apenas na responsabilidade individual. O controle da matéria foi tão adequado que sobravam energias e o tratamento tópico de cada desejo dispensou todas as teorias celulares e precauções de laboratórios. Os governos passaram a necessários de mil em mil anos apenas para coordenar e saber dos novos interesses da população.
    Em O Futuro

  4. Pasquale disse:

    Na verdade, seria como funciona onde se tem respeito ao cidadão.
    Se o estado desrespeita,a população vai pra rua e quebra tudo(outros países)
    O princípio é simples, se o estado acha que pode fazer o que quiser,com o dinheiro do cidadão.Eu tambem posso reivindicar os meus direitos indo as ruas protestar,a forma de protesto vai variar conforme o povo é tratado.

  5. gesiel disse:

    A FROUXIDÃO DO GOVERNO ALCKMIN em COMBATER O PCC, estimula o crime em São Paulo, porque QUALQUER BANDIDO PÉ DE CHINELO, diante da inercia do governador Alckmin, SE ACHA NO DIREITO DE FAZER O QUE QUER. A propria policia de São Paulo, está de mãos atadas, por FAZ A SUA PARTE, combatendo o crime, MAS O GOVERNO DO ALCKMIN, deixa que o MARCOLA DO PCC, continue COMANDANDO O CRIME DE DENTRO DOS PRESIDIOS ESTADUAIS. Enquanto o Marcola do PCC não for transferido para um PRESIDIO FEDERAL, São Paulo continuará entregue ao crime. NÃO ADIANTA O GOVERNADOR ALCKMIN OU O SECRETARIO DE SEGURANÇA, FALAR EM COMBATE AO CRIME EM SÃO PAULO, se NÃO TIVEREM A CORAGEM DE TRANSFERIR O MARCOLA DO PCC, para UM PRESIDIO FEDERAL. Os Black Blocs SÃO UMA PARTE da “REVOLUÇÃO DOS IGNORANTES”, que saem as ruas APENAS PARA ATACAR OS GOVERNOS DO PT, e dar passe livre para o PSDB.

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