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05-09-2015, 7h38

Que horas ela volta?

Filme de Anna Muylaert causa constrangimento e reflexão sobre relação entre patrões e empregadas domésticas
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Daniela Martins
BRASÍLIA

Lançado este mês no circuito comercial, trazendo na bagagem prêmios de Berlim e Sundance, o filme de Anna Muylaert, “Que horas ela volta?”, expõe as dificuldades de uma relação delicada e brasileira por excelência: a de patrões e empregadas domésticas.

A opção por fotografia, cenários e produção de arte sem glamour coloca o espectador rapidamente dentro da cena. Não é nada difícil captar aquele contexto. O que se vê na tela é uma história diariamente narrada em tantas casas brasileiras.

A trama fala de Val, uma pernambucana que deixou o Nordeste e sua filha pequena para ir ganhar a vida em São Paulo como doméstica. Na casa de “dona” Bárbara e do “doutor” Carlos, ela cuida da cozinha, da limpeza e do menino Fabinho, que tem a mesma idade da filha que ficou longe.

Mas, para além de um enredo tão conhecido, há algo no filme que quebra a pretensa normalidade que esse tipo de relação adquiriu no país. Assistir ao desenrolar do dia a dia da família em tela grande, na sala escura, com plena atenção, acaba tendo força suficiente para evidenciar o quanto não há nada de normal ou de tranquilo nessa convivência.

Isso acontece a cada vez que Carlos pede que Val lhe sirva um guaraná ou que acenda as luzes da piscina; a cada vez que Bárbara lhe pede um copo de água ou diz “Terminamos, pode tirar os pratos”. São exatamente esses diálogos mais banais que tornam impossível não perceber o quanto o trabalho doméstico está longe de ser um emprego como outro qualquer.

Ainda não compreendemos totalmente que pagar alguém para fazer limpeza e comida é bem diferente de esperar que essa pessoa sirva bebidas, tire seu prato da sua frente ou aperte um interruptor para você. Esse tipo de serviço é oferecido por hotéis e restaurantes, onde muitos funcionários ocupam funções diferentes para suprir todas as demandas. E os estabelecimentos cobram o preço disso. Não é válido transpor a mesma expectativa para uma casa e querer que a empregada doméstica, que ganha por mês o mesmo que uma ou duas diárias de um bom hotel, lhe ofereça o mesmo serviço. E, no entanto, funciona assim no Brasil.

No filme, dez anos se passam até que Jéssica, a filha de Val, chegue a São Paulo para prestar vestibular. Por coincidência, para a mesma Universidade que Fabinho. Ao ser recebida na casa dos patrões de sua mãe, outros mitos começam a se quebrar. O principal: a ideia de que os empregados domésticos são tratados “como se fossem da família”. Quando Jéssica tenta se encaixar na dinâmica da casa, fica claro que há um velado “lugar certo” para os empregados. Um lugar que a mãe ocupou sem jamais questionar.

Mas Jéssica representa uma nova geração, ela não conhece e não quer conhecer esse “lugar certo” predeterminado. Ela vê o mundo com outros olhos. Pode errar e acertar, mas não se colocará em posição de inferioridade. E não aceitará passivamente uma relação viciada, não assumirá a postura de respeito e gratidão que é implicitamente esperada dela.

O filme responde, nas entrelinhas, a uma questão atual que mostra o descompasso entre os empregadores e as empregadas domésticas. Não é difícil perceber a surpresa dos patrões quando a empregada pede demissão e prefere trabalhar em um mercadinho ou numa clínica de estética, ainda que o salário seja menor: “Como ela pôde fazer isso? Era praticamente da família! Sempre a tratamos tão bem!”.

Espera-se que a nova legislação que regulamenta o trabalho doméstico modifique esse cenário com o tempo. É importante e necessário caminhar nesse sentido. E é crucial que filmes como este causem constrangimento e oportuna reflexão em todos os atores envolvidos nesse drama histórico do país.

Abaixo, o trailer oficial do filme:

Comentários
4
  1. Maíra disse:

    Ótima crítica, me deu vontade de assistir.

  2. Pasquale disse:

    A que horas que a Dilma volta?
    Não sei ,já era para ter ido definitivamente.
    Para onde?
    Para onde lhe mandar a sua própria consciencia.

  3. J K disse:

    Precisamos de autores assim para falarem o que nós não temos ousadia de dizer. Nos acostumamos ao status quo e não queremos sair dele.
    Na sequência, fica a oportunidade de fazer alguma coisa para mudar o quadro atual ou calar-se até que caia no esquecimento.

  4. César disse:

    Em nações desenvolvidas, as pessoas tem que se virar e fazer, todo e trabalho domestico. E se nós, se queremos nos tornar uma nação desenvolvida, também temos que aprender a fazer a limpeza. Como bons eleitores, devemos limpar o país, com as próprias mãos. Chega de esperarmos, que os outros façam por nós. Chega de comodismo! Se queremos um país livre de corrupção, devemos arregaçar as mangas e trabalhar por isto. Ter posses e educação, mas ficar no sofá, vendo o país ser destruído, assistindo a sujeira aumentar e tomar conta do país, esperando que alguém traga a solução em uma bandeja. Não vai mudar nada! Vamos continuar a ser terceiro mundo, por termos atitudes terceiro-mundistas. Continuaremos a esperar, que façam a nossa parte? Até quando?

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