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Entrevistas
03-04-2015, 9h23

‘Redução de pressão nas tubulações é medida perversa’

Gestão estatal da água tende a ser mais confiável, diz professor da UnB
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ISABELA HORTA
Brasília

Sérgio Koide diz que a redução de pressão na rede de distribuição de água é uma “medida perversa”, porque afeta os bairros considerados menos prioritários pelas companhias de saneamento. Segundo o professor de Engenharia Civil e Ambiental da UnB (Universidade de Brasília), os moradores das periferias sofrem consequências semelhantes à de um racionamento em relação ao abastecimento e à contaminação das redes.

Em meio à crise hídrica, o procedimento vem sendo adotado pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) para evitar perdas de água em vazamentos e ligações clandestinas.

Apesar do recente período de chuvas, os reservatórios paulistas continuam em situação crítica. De acordo com a ANA (Agência Nacional de Águas), o sistema Cantareira, um dos mais afetados pela crise, teve uma leve recuperação, mas ainda opera com o volume morto.

Para Koide, diante desse quadro, as companhias de saneamento deveriam investir mais no serviços de detecção de vazamentos e na substituição de redes obsoletas. Mas, de acordo com ele, os gastos são feitos com “visão imediatista”.

“A redução de perdas levaria ao adiamento da necessidade de novos empreendimentos para ampliação dos sistemas de captação e tratamento de água. No entanto, politicamente, a implantação de novos sistemas é muito mais atrativa”, diz.

Perguntado sobre o modelo ideal de gestão da água, o professor da UnB avalia que a administração estatal do recurso tende a ser mais “confiável” do que o privada. Ele, no entanto, pondera: “A empresa estatal, quando mal gerida, pode evitar investimentos de longo prazo, pois isso pode extrapolar o período de mandato dos governantes”.

Confira a entrevista:

1 – Por que estamos passando por uma crise hídrica? É possível identificar o principal responsável por esse situação?

A seca, de fato, é um fator de grande importância nesta crise. No final da década de 1990, início dos anos 2000, houve uma grande estiagem que levou ao apagão e ao racionamento da água em São Paulo. A seca atual está se mostrando mais crítica. No setor elétrico, a crise está se avizinhando e só não estamos em racionamento porque o governo investiu em ampliação do parque de geração com termoelétricas.

2 – Em São Paulo, uma das medidas tomadas pelo governo para economizar água foi a redução da pressão na rede de abastecimento. A adoção de um rodízio também não está descartada. Mas, segundo dados da ONU, o uso doméstico da água corresponde só a 8% do consumo mundial da água. A irrigação seria responsável por 70% do uso da água disponível e as indústrias por 22%. Não seria mais correto adotar medidas mais duras com esses setores antes da população ser afetada pela falta de água e aumento de tarifa?

Apesar de alguns setores, como a agricultura, serem responsáveis por consumos percentualmente maiores, a demanda não ocorre necessariamente nos mesmos locais. Além disso, a Lei das Águas é clara em relação à priorização do abastecimento humano em detrimento de todos os outros usos. Mas, como o transporte da água é um fator muito importante no custo, isso inviabiliza a transferência de grandes quantidades desse recurso por longas distâncias. Não dá para levar água da Amazônia para o Nordeste a valores razoáveis.

Algumas medidas, como o aumento da tarifa, são, desta forma, educativas. Consumos excessivos, como os do Plano Piloto, em Brasília, que é mais de três vezes o que se considera razoável, têm de ser ajustados por meio de outras medidas. No entanto, é importante que aqueles que consomem dentro dos padrões considerados necessários para a manutenção mínima da qualidade de vida e saúde não possam, em hipótese alguma, ser penalizados.

A redução da pressão na rede é uma medida perversa, pois atinge aqueles que a companhia de saneamento entende como menos prioritária. É uma medida dirigida. Foi divulgado, no início do processo, que a região dos Jardins em São Paulo, uma área alta e, portanto, susceptível à escassez em caso de redução de pressão, não seria atingida pela medida devido à grande concentração de hospitais por lá. Muito justo. Mas será que o poder aquisitivo e a força política dos moradores também não influenciaram na decisão?

Os moradores dos morros e locais mais distantes estão sentindo com grande intensidade os efeitos da redução de pressão. Certamente, a medida traz outras consequências em termos de contaminação das redes e atendimento às populações de periferia muito semelhantes àquelas provocadas pelo racionamento.

3 – Segundo relatório do governo federal, 37% da água tratada é desperdiçada antes de chegar às torneiras da população devido a falhas na tubulação, fraudes e ligações clandestinas. Na França, esse índice é de 26%; nos Estados Unidos, 15%; no Japão, apenas 7%. Por que o Brasil não realiza melhorias na estrutura de distribuição de água? Falta dinheiro para fazer esses investimentos?

Inicialmente, é importante salientar que nessas perdas estão incluídos os consumos não autorizados, as ligações clandestinas, e os não medidos, como o uso de hidrantes. Em países desenvolvidos, o uso não autorizado é menor.

A redução de perdas levaria ao adiamento da necessidade de novos empreendimentos para ampliação dos sistemas de captação e tratamento de água. No entanto, politicamente, a implantação de novos sistemas é muito mais atrativa.

A tecnologia para detecção de vazamentos é conhecida e aplicada por muitas empresas de saneamento no Brasil. No entanto, faltam investimentos na modernização e manutenção dos serviços de detecção e reparos nas redes, apesar desses recursos não serem elevados. A substituição de redes obsoletas também é importante, mas a ampliação de sistemas para atender a novas áreas de expansão acaba por absorver os recursos disponíveis. É apenas uma questão de priorização de investimentos com visão imediatista.

É importante combater às ligações clandestinas, incentivar a substituição de equipamentos como torneiras e vasos por outros mais eficientes e individualizar a hidrometração em edifícios. Nos prédios em que o condomínio paga toda a conta de água, ninguém tem noção de quanto está consumindo e, assim, é difícil estimular a redução do consumo.

4 – Há um debate sobre a privatização da Sabesp, Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo. Para alguns especialistas, esse modelo de gestão prioriza o lucro das empresas e acionistas. Isso teria levado a companhia paulista a subestimar a necessidade de investimentos necessários para evitar um colapso hídrico, como a expansão do sistema de captação. Como o senhor avalia essa crítica? Qual é o melhor modelo para gestão da água: estatal ou privado? Como funciona, de uma maneira geral, em outros países?

Certamente, a empresa privada tende a trabalhar com menos folga para reduzir a antecipação dos investimentos. No entanto, a empresa estatal, quando mal gerida, também pode evitar investimentos de longo prazo, pois isso pode extrapolar o período de mandato dos governantes. Em algumas áreas de importância estratégia e de interesse social, certamente, o modelo estatal, se bem administrado, tende a ser mais confiável.

Nos Estados Unidos, a economia é praticamente toda privada. Mas isso não acontece no setor de saneamento devido à importância que a população atribui a esses serviços. Na Inglaterra, ocorreu a privatização de parte do setor nos anos 1990. Segundo muitos especialistas, a qualidade dos serviços piorou.

5 – De acordo com dados da Agência Nacional das Águas (ANA), 55% dos municípios brasileiros poderão sofrer escassez de água neste ano. As medidas anunciadas pelos governantes até agora, como redução de pressão, obras de abastecimento de águas e campanhas contra desperdício, serão suficientes para evitar um colapso hídrico? O que ainda precisa ser feito?

Medidas emergenciais e campanhas para redução de consumo são necessárias neste momento. Mas a ocorrência ou não do colapso depende ainda dos fatores climáticos.

A atual crise, por mais que leve a sacrifícios da população, terminará após um período mais chuvoso. Aí, a crise hídrica cairá em esquecimento, com a população retomando seus hábitos usuais de consumo e a imprensa deixando de falar sobre o assunto. Dessa forma, as medidas que estimulam a redução do consumo, o uso racional da água, o reuso da água e outras iniciativas tão faladas no momento têm de continuar em prática para conscientizar as pessoas e criar novos hábitos.

O que não pode ocorrer é os governantes e planejadores também se esquecerem do problema, como correu recentemente. Os sistemas essenciais como o saneamento básico e, principalmente, o abastecimento de água exigem que sempre haja no modelo implantado uma folga que nos permita passar por crises como essa sem tantos sacrifícios. Dessa forma, também há necessidade de se planejar e prever alternativas antes que problema aconteça.

Foto capa: Luiz Augusto Daidone / Fotos Públicas (12/09/2014)

Comentários
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  1. William Gomes disse:

    Infelizmente aqui em Brasília não tenho incentivo nenhum para economizar água. Moro em apartamento no plano piloto. Meu consumo médio mensal é de 4 as vezes 5 mil litros. Sou tributado em 10 mil litros na conta de água e mais 10 mil no esgoto independente do meu gasto. A CAESB , companhia de água daqui de Brasília não incentiva em nada a minha economia.

  2. Emílio disse:

    O nosso país é o caus generalizado.
    O último que sair apague a luz, feche a porta e jogue a chave fora.

  3. Juvencio disse:

    Desperdicio de 37%? Acredito mais nos “gatos” que são muito utilizados.

  4. Acontece direto isso aqui no RS Kennedy. Já virou rotina. Mal dá para lavar uma louça. As vezes passa dias.

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