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26-06-2015, 14h36

Submissão, uma distopia sobre a França islâmica

Livro de Michel Houellebecq incomoda líderes do Islã e partidos de direita e esquerda
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Daniela Martins
BRASÍLIA

A sequência de três atentados terroristas em diferentes locais do planeta em um mesmo dia, todos ligados à questão islâmica, coloca novamente em evidência o polêmico livro do francês Michel Houellebecq, “Submissão”. Lançado no início do ano na França, o livro chegou ao Brasil no final de abril pela editora Alfaguara.

Em janeiro deste ano, quando 12 pessoas foram mortas no ataque à sede do jornal “Charlie Hebdo”, em Paris, uma charge do autor ilustrava a capa da publicação.

O conteúdo do livro causou fortes reações tanto na esquerda quanto na direita francesas, além de ter recebido críticas dos líderes islâmicos do país. Mas, afinal, o que causou tanto incômodo?

Houellebecq projeta o cenário de um futuro próximo, no ano de 2022, em que um partido muçulmano consegue chegar ao segundo turno da eleição presidencial francesa, rompendo um longo ciclo de oscilação entre as forças da direita e da esquerda.

O partido imaginado pelo autor, chamado Fraternidade Muçulmana, é liderado por Mohammed Ben Abbes. Ele se coloca como uma terceira via e oferece um discurso moderado e palatável, que responde em alguma medida aos anseios de boa parte da população, que não se sente mais representada pelas propostas políticas tradicionais.

A Fraternidade Muçulmana disputa a presidência com a Frente Nacional, legenda de extrema direita. O Partido Socialista, em final de mandato, e as demais legendas progressistas têm mais facilidade para compor com os muçulmanos do que com seus antagonistas clássicos.

Entretanto, nesse novo arranjo de forças, a esquerda precisa ceder em muitos valores que são caros à democracia francesa, como a educação universal, a laicidade do Estado, a igualdade entre os gêneros. A extrema direita resta como depositária de valores nacionalistas, embalados em um discurso de xenofobia, racismo e superioridade cultural.

Aí está um bom começo para uma boa polêmica. É uma discussão com potencial para provocar todos os atores. Mas o livro está apenas no início quando este cenário é lançado.

O personagem principal, François, é professor de literatura da Sorbonne. Um intelectual quarentão, com a carreira estacionada. Tem uma vida pessoal vazia, não cultiva amizades e se relaciona sexualmente com prostitutas e alunas sem estabelecer vínculos afetivos.

François é um personagem que chega a irritar o leitor. Ele perdeu qualquer tesão pela vida. Profere comentários sexistas e misóginos em abundância, odeia seus semelhantes e não se interessa pela política. É um personagem perfeito para ser atingido por esta reviravolta de cenário especulada pelo livro. De uma hora para outra, ele é atropelado pela vida real da qual tentava se manter distanciado.

Ao chegar ao poder, Ben Abbes inicia uma transformação radical na França. A matriz econômica é alterada, as projeções geopolíticas também mudam. É rápida a reconfiguração da estrutura familiar, do espaço da mulher na sociedade e no mercado de trabalho e do sistema educacional. Os professores da Sorbonne se veem agora em uma universidade confessional.

François opta pela aposentadoria precoce. Sua vida pessoal, no entanto, é absolutamente vazia de significado. Ele está impotente, sem motivação alguma, pensando em suicídio.

Em busca de algum sentido, visita o mosteiro em que o escritor Huysmans, objeto de seus estudos e de sua tese acadêmica, se refugiou no século XIX, quando também passou por um momento de dúvida existencial que acabou levando a uma conversão ao catolicismo.

Mas percebe logo que a transcendência religiosa não será o seu caminho. De volta a Paris, é convidado a organizar um novo livro sobre Huysmans e vê sua vida intelectual ganhar um último fôlego.

O reitor da universidade oferece um retorno à docência, em condições muito diferentes das anteriores. Com aportes financeiros dos países islâmicos, a nova Sorbonne é agora uma universidade rica. Os salários dos professores mais que triplicaram. E seu status social foi reabilitado em novas bases. Há ainda a promessa do casamento poligâmico, que é tentadora para François. E o personagem precisa fazer a sua opção.

O islamismo surge como uma saída para o niilismo, para o vazio, para o suicídio, para a total falta de sentido, para a decadência completa de François. E também para uma França e uma Europa que não conseguem mais afirmar os valores que enalteceram no passado. Está colocada outra polêmica.

Há um diálogo entre François e o reitor que confronta a suposta arrogância ou presunção do ateísmo, que levaria ao desespero e ao vazio, e o conforto da submissão oferecida pelo Islã, que, em última análise, seria desejada pelo homem e a única via para a felicidade mais absoluta. O reitor observa que a Revolução Francesa e a República geraram algo que durou pouco mais de um século. Já a cristandade medieval, durou um milênio. Só a pátria não seria suficiente.

Em outro momento, François especula sobre o papel infantilizado das mulheres dentro da sociedade islâmica. Elas não têm autonomia, mas tampouco lhes cabem responsabilidades. Ele faz um paralelo com seu próprio desejo de renunciar a qualquer responsabilidade profissional e até mesmo intelectual.

As duas passagens ilustram a forma como Houellebecq provoca o leitor durante o texto. O desejo dessa estabilidade no tempo histórico é algo que gera ansiedade nas sociedades contemporâneas. E a perspectiva de uma vida livre de responsabilidades também é um dos muitos mitos de felicidade do mundo atual. Pode ser conveniente ter quem decida por você.

Também há no discurso do reitor a evocação de uma França poderosa, imperial, que já impôs seu idioma e sua cultura ao restante do mundo. Essa é uma França que não existe mais. E a proposta islâmica surge como uma promessa de reconfiguração de poder. A crise de representatividade das sociedades contemporâneas pode, de fato, abrir espaço para algo nesse sentido.

Quando não se vê mais sentido em nada e se anseia por respostas prontas, que caibam num livrinho como “Dez perguntas sobre o islã”, escrito pelo reitor recém-convertido, pode-se até ganhar em conforto existencial ou algo parecido. Há conforto real em seguir regras estabelecidas, em vivenciar uma situação de pertencimento, em ter a tranquilidade de estar “fazendo o correto” ao seguir um determinado código moral.

Por outro lado, abre-se mão da autonomia mais fundamental, que é a do livre pensar e a do questionamento, ainda que esta possa gerar erros e angústias.

Ao lançar a hipótese de um governo islâmico para a França, o autor foi acusado de incitar a sociedade contra a comunidade islâmica do país, que é a maior da Europa. Muitos disseram que ele dá voz aos discursos racistas da extrema direita e que incita o medo de que os franceses acabem perdendo a França.

Houellebecq se defendeu dizendo que não utilizou em suas projeções nenhum tipo de cenário que não julgasse possível, ainda que não em um futuro tão próximo quanto 2022. Afirmou que não deve haver nenhum limite para a liberdade de expressão e sustentou que seu livro não é islamofóbico nem se propõe a apoiar as ideias políticas da extrema direita.

Na controversa distopia do autor, essa transformação radical da França se dá por dentro do processo democrático, não por meio de uma revolução ou de dominação política. Houellebecq parece querer mostrar que a possibilidade de uma mudança profunda é real mesmo dentro de uma democracia consolidada.

A “Folha de S.Paulo” aproveitou o mote e publicou um editorial, no dia 14 de junho, que recebeu o mesmo nome do livro. O jornal fez um paralelo com a situação política atual do Brasil e alertou para o crescimento de representações fundamentalistas no Congresso Nacional.

É o caso de parlamentares que recorrem à Bíblia para justificar suas propostas e votos, da “bancada da bala”, dos políticos que se posicionam abertamente contra os direitos das minorias.

O texto lembra que o obscurantismo, a repressão e o preconceito podem se estabelecer mesmo em um país de tradições laicas e liberais. É preciso manter vivo o debate político.

Aí está uma grande e boa discussão. Goste-se ou não, “Submissão” é um livro que deve ser lido.

Comentários
8
  1. Marcelo Costa disse:

    Gostei muito do que li. A abordagem do assunto foi perfeita. Vou comprar o livro, ele merece ser lido.

  2. Alvaro disse:

    Liberdade ao debate num país sério não é simplesmente debochar de quem professa uma determinada fé. Pois todos temos crenças e valores, que para uns parecem bons, e para outros parece ridículo, porque criticar a pessoa que tem suas crenças fundamentadas num livro que ele considera sagrado? A grande mídia não vive babando ovos de deputados, acham que o desejo sexual deles são a coisa mais importante da vida, que consideram que o C** é a coisa mais sagrada para eles, que as leis e a sociedade devem gravitar em torno disso? O problema que a ESQUERDA supostamente diz amar a democracia, mas desde é claro que você não discorde dela (Esquerda). Se eles podem lhe puxar pelo cabresto ótimo, senhão você é reacionário, de direita… E mais este monte de chavões que eles decoram para não ter que refletir honestamente. Porque por política de gênero pode querer realmente dar mais direitos, ou pode como ocorreu me numa cidade de Minas Gerais liberar em alguns colégios que crianças usassem o mesmo banheiro, ou seja um cara (homem) experto fala eu sou mulher e poderia ficar expiando as meninas no banheiro…

  3. luiz disse:

    Querer comparar os terroristas muçulmanos com deputados evangélicos e chama-los de fundamentalistas é no mínimo de uma desonestidade intelectual sem precedentes.

  4. Alberto Machado disse:

    Caro Kennedy,
    Primeiro digo que valeu a dica . Muito esclarecedora a respeito do livro do qual já ouvi falar mas sem saber exatamente quais eram os pontos abordados pelo autor na questão da “islamização” da sociedade francesa. A questão é no fundo esta: o mundo ocidental , influenciado pela Ilustração, a Enciclopédia e o Iluminismo, de duzentos e poucos anos para cá resolveu banir a religião da vida das sociedades . O Estado é laico mas acaba se comportando como Estado ateu, avesso a tudo o que é ligado à religião. O Estado republicano de fato não tem religião mas o cidadão tem. O homem é um ser religioso. Quanto à Folha de S. Paulo devo dizer que é lamentável querer colocar no mesmo saco os fundamentalistas evangélicos e muçulmanos. Se as situações são parecidas, no sentido de procurar somente na religião a orientação para resolver questões legais, na prática são muito diferentes as atitudes e os meios empregados para fazer valer suas respectivas vozes. Mesmo estando equivocados em muitos pontos a bancada evangélica procura atuar seguindo as regras do jogo democrático. É engraçado que muitos que defendem as minorias religiosas ( muçulmanos na França p. ex. ) dizendo que eles são discriminados por grupos xenófobos e racistas e que tal religião não está realmente representada pelos radicais e terroristas, são os mesmos que generalizam e acusam os evangélicos do Congresso de serem todos, sem exceção, radicais intolerantes e preconceituosos.

  5. Gil Cleber disse:

    Creio que deputados evangélicos são, isto sim, uma contradição. O salmo 1 diz no primeiro versículo “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”. O meio político não é para um evangélico que queira manter-se coerente com sua fé, é a “roda dos escarnecedores” de que fala o salmo. Portanto não creio na idoneidade de tais evangélicos, embora não sejam tão perniciosos quanto terroristas. Quanto o livro comentado, despertou me interesse. Havendo oportunidade, vou ler.

  6. Getulio disse:

    Todos os atentado acontecendo no mesmo dia e quase que cronometrados ao mesmo tempo e depois vem autoridades francesas e americanas dizer que não tem relação!
    Que estranho e confuso essas explicações.
    Não da para entender como uma pessoa nascida na França casado pais de 03 filhos se lança como terrorista tentando explodir um deposito de gas, e ainda estão recebendo mais pessoas oriundas dessa região!
    Mesmo que França Inglaterra e EUA sejam os reponsaveis por destruir boa parte do Oriente Medio e deveriam receber essas emigrantes .
    Existiria algo por traz de todos esses atentados exite algum interesse oculto quer ainda não se conseguiu perceber?
    Criticam tanto nosso pais sobre os crimes que acontecem por aqui e eles mesmos não conseguem resolver seus conflitos!
    Existe algo de errado sendo praticado pela politica intencional desses o3 paises em relação a essa região, querem provocar deslocamentos dessa pessoas do local?
    Sim; a politica que colocam em pratica a de guerras está fazendo com que isso aconteça no Norte da Africa e no O.Medio!

  7. Daniel C R disse:

    Eu defendo a livre expressão desde que não ofenda o próximo e nem ocasione protestos repugnantes como esses. Os muçulmanos respondem agressivamente então, não acho bom para a sociedade o direito de alguém divulgar um livro, charge, etc sendo que essa mesma sociedade pagará caro por esse direito de “livre expressão”. lembro que os muçulmanos estavam quietos, os autores é que os instigaram. Resumindo: Se eu sei que cutucar caixa de abelha será ruim para mim e para quem estiver comigo, por que fazê-lo?

    • Gabriel Arruda disse:

      Então devemos censurar toda a nossa produção cultural e até o nosso pensamento para não irritas as Sensíveis Bonecas Islâmicas?Daniel os Muçulmanos querem o mundo e se eles conseguirem tudo que você,eu e os demais indivíduos de nossa civilização criamos e conseguimos,a Democracia,liberdades individuais e etc,com muita luta,sangue,suor e lágrimas vai deixar de existir.O Califado Islâmico Mundial que eles anseiam erguer vai exterminar todos os povos do mundo que resistirem e irão indiretamente exterminar os que se renderam.Os restos de nossa civilização que por ventura sobreviva ao colapso do Mundo Livre serão destruídos assim que achados para que as gerações que estão por vir não façam idéia de como era o mundo antes do Califado.Eles só saberão o que os Clérigos Islâmicos contem a eles e será um mar de mentiras.E o nosso mundo será um grande cemitério porque eles não vão para de lutar nem com o mundo em suas mãos.

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