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08-10-2015, 11h51

Svetlana Alexievich é a 14ª mulher a receber o Nobel de Literatura

Escolha evidencia a pouca quantidade de autoras premiadas em 114 anos
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Daniela Martins
BRASÍLIA

O anúncio da escritora ucraniana Svetlana Alexievich como vencedora do Nobel de Literatura deste ano é uma notícia a ser comemorada. Desde a primeira premiação da categoria, em 1901, apenas 13 mulheres haviam sido contempladas antes dela. Alexievich vem aumentar essa lista desequilibrada, o que já tem importância por si só: são 14 mulheres e 98 homens. Mas também engrossa uma lista ainda menor, a dos autores de não-ficção.

Formada em jornalismo, a escritora se dedicou a registrar o desmonte do Estado soviético e a dar voz aos milhares de pessoas que tiveram suas vidas impactadas pelas mudanças profundas provocadas pelas novas configurações políticas. Ela escreveu sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre a participação da União Soviética na guerra do Afeganistão na década de 80 e sobre o desastre da usina nuclear de Chernobil.

Embora Svetlana Alexievich seja bastante conhecida na Europa, infelizmente, nenhum de seus livros foi publicado no Brasil até hoje.

Aliás, não é tarefa fácil conseguir ler as 14 premiadas em português. Muitas das autoras mais antigas só são encontradas em sebos ou bibliotecas, pois as edições de seus livros estão esgotadas.

Já autoras mais recentes, como Alice Munro, Toni Morrison e Herta Müller, têm quase toda a sua obra publicada por aqui e são um bom ponto de partida para quem se animar a ler ao menos um livro de cada uma das vencedoras.

Confira a lista das laureadas antes de Alexievich:

Selma Lagerlöf (1858-1940)
País: Suécia
Ano da premiação: 1909
Além de ter sido a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel da Literatura, em 1909, ela foi também a primeira a integrar a Academia Sueca, instituição responsável pela premiação instituída por Alfred Nobel. Entre os seus livros traduzidos para o português estão o infanto-juvenil “A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia” (1906) e “De Saga em Saga” (1908), coletânea de contos e pequenas histórias.

Grazia Deledda (1871-1936)
País: Itália
Ano da premiação: 1926
Ambientados na Sardenha, os escritos da italiana são perpassados pelo sentimento do pecado e da fatalidade da vida. No Brasil, podem ser encontradas edições das obras “Caniços ao Vento” (1913) e “Cosima” (1937), livro póstumo que reúne suas memórias.

Sigrid Undset (1882-1949)
País: Dinamarca
Ano da premiação: 1928
Nascida na Dinamarca, mas criada na Noruega, Undset perdeu seu pai aos 11 anos. Os problemas financeiros impediram que frequentasse a universidade, mas o trabalho como datilógrafa acabou estimulando sua vontade de escrever. Aos 22 anos concluiu seu primeiro livro, que se passava na Idade Média. O manuscrito foi recusado, mas a temática acabou se repetindo em sua obra mais aclamada, a trilogia “Kristin Lavransdatter” (1920-1922, sem edição brasileira), romance histórico que se passa na Dinamarca medieval e acompanha a personagem título, uma mulher com múltiplos conflitos com seus pais e marido e que, gradualmente, perde a inocência.

Pearl Buck (1892-1973)
País: Estados Unidos
Ano da premiação: 1938
Também conhecida por seu nome chinês, Sai Zhen Zhu, a estadunidense Pearl S. Buck era filha de missionários presbiterianos. Passou grande parte de sua vida na China, onde escreveu obras como “A Boa Terra” (1931), best-seller que acompanha a vida de uma família chinesa do campo no período anterior à Primeira Guerra Mundial, pelo qual recebeu o Prêmio Pulitzer. Após seu retorno para os Estados Unidos, em 1935, além de dar continuidade à sua carreira como escritora, tornou-se uma proeminente defensora dos direitos das mulheres e de grupos minoritários e produziu grande literatura sobre culturas asiáticas.

Gabriela Mistral (1889-1957)
País: Chile
Ano da premiação: 1945
Gabriela Mistral era o pseudônimo de Lucila Godoy Alcayaga, poeta, educadora e feminista chilena que se tornou a primeira representante (e única escritora do sexo feminino até o momento) da América Latina a receber o prêmio Nobel de Literatura. Nascida e criada em áreas humildes do norte do Chile, desde cedo teve contato estreito com a pobreza. Para ajudar sua família, Gabriela trabalhava como professora assistente no sistema público de ensino enquanto escrevia os versos. O primeiro reconhecimento de sua obra veio em 1914, quando ganhou o primeiro lugar no concurso literário nacional “Juegos Florales”, com o trabalho “Sonetos da Morte”.

Nelly Sachs (1891-1970)
País: Suécia (nascida na Alemanha)
Ano da premiação: 1966
A ascensão do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial deixou grandes marcas na escrita e na vida da autora judia alemã Nelly Sachs. Quando os nazistas tomaram o poder, a escritora chegou a perder a capacidade de falar, tamanho o trauma. Foi com a ajuda da também vencedora do Nobel, Selma Lagrlörf, que Nelly conseguiu fugir para a Suécia em 1940. Depois da morte de sua mãe, foi acometida por colapsos nervosos, alucinações e delírios de perseguição pelos nazistas, e passou vários anos em uma instituição mental. Mas, durante esse tempo, nunca parou de escrever e sua obra fez com que fosse considerada uma importante porta-voz da tristeza e anseios dos companheiros judeus.

Nadine Gordimer (1923)
País: África do Sul
Ano da premiação: 1991
Interessada em agir ativamente contra a desigualdade racial e econômica na África do Sul, a escrita da autora e ativista política lida com as difíceis escolhas morais numa sociedade marcada pela segregação racial, tratando particularmente do apartheid, durante o qual um de seus livros, “O Pessoal de July” (1982), chegou a ser banido.

Toni Morrison (1931)
País: Estados Unidos
Ano da premiação: 1993
É conhecida por seus romances fortes, que trazem experiências de mulheres negras nos Estados Unidos. Começou a escrever quando passou a fazer parte de um grupo informal na Universidade de Howard onde poetas e escritores se encontravam para discutir trabalhos. A primeira história que apresentou falava de uma garota negra que sonhava em ter olhos azuis – conto que foi desenvolvido e deu origem ao seu romance de estreia, “O olho mais azul” (1970). Em 1987, “Amada”, romance que acompanha a história uma ex-escrava, consolidou seu reconhecimento ao receber o National Book Award, o National Book Critics Circle Award e o Prêmio Pulitzer de ficção.

Wislawa Szymborska (1923-2012)
País: Polônia
Ano da premiação: 1996
Considerada a “Mozart da poesia”, a escrita de Szymborska é conhecida pelo uso de fábulas, anedotas e metáforas prolongadas, muitas vezes temperadas com ironia e humor amargo. Sua reputação e premiação se baseiam em um conjunto de trabalhos relativamente reduzido, com menos de 350 poemas. Perguntada certa vez sobre o motivo de tão poucos de seus escritos terem sido publicados, a autora, muito crítica, respondeu: “eu tenho uma lata de lixo em minha casa”.

Elfriede Jelinek (1946)
País: Áustria
Ano da premiação: 2004
O trabalho literário mais sério de Elfriede Jelinek começou como parte de sua terapia. Depois de crescer em um ambiente familiar conflituoso e lidar com pressão crescente que desencadeou um ataque de ansiedade, a austríaca se voltou às letras. Sua primeira obra, a coetânea “Lisas Shatten”, foi publicada em 1967 e, em 1969, recebeu seu primeiro prêmio literário. Jelinek tem três principais alvos em sua escrita: a sociedade capitalista de consumo e a mercantilização de todos os seres humanos e as relações; os resquícios do passado fascista da Áustria na vida pública e privada; e a exploração sistemática e opressão das mulheres em uma sociedade capitalista-patriarcal.

Doris Lessing (1919)
País: Grã-Bretanha (nascida na Pérsia, atual Irã)
Ano da premiação: 2007
Pessoa mais velha a receber o Nobel da Literatura, aos 88 anos, abandonou a escola aos 14 anos, quando passou a se educar de forma independente. Trabalhando como enfermeira, leu muito sobre política e sociologia, o que a motivou a começar a escrever. Por causa de seu envolvimento em campanhas contra armas nucleares e o apartheid sul-africano, Lessing foi banida daquele país e da Rodésia durante muitos anos. Ela se mudou para Londres com seu filho mais novo, em 1949, onde publicou seu primeiro romance, “A Canção da Relva” (1950) e o inovador “O Carnê Dourado” (1962).

Herta Müller (1953)
País: Alemanha (nascida na Romênia)
Ano da premiação: 2009
É conhecida por obras que retratam os efeitos da violência, da crueldade e do terror, geralmente no contexto do regime repressivo de Nicolae Ceauşescu, em que ela viveu até os 34 anos de idade, antes de se exilar na Alemanha. Em 1982, lançou seu livro de estreia, uma reunião de contos intitulada “Niederunge”, censurada pelo governo comunista na época. Entre os livros da autora disponíveis em português, estão “O Compromisso” e “Tudo o que tenho levo comigo”.

Alice Munro (1931)
País: Canadá
Ano da premiação: 2013
Foi a primeira vez em que a academia sueca premiou um autor que escreve apenas contos. A escolha não foi aleatória. Críticos dizem que a canadense revolucionou a arquitetura do gênero, com quebras temporais e experimentações. As histórias de Munro geralmente se desenvolvem em cidades pequenas, “onde a luta por uma existência decente gera muitas vezes relações tensas e conflitos morais, ancorados nas diferenças geracionais ou de projetos de vida contraditórios”, destacou a Academia. No Brasil, Alice Munro tem publicadas as coletâneas “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”, “A Fugitiva”, “Felicidade Demais”, “Vida Querida” e “O Amor de uma Boa Mulher”.

Para a lista completa e observações da Academia sobre todos os vencedores, desde 1901, visite o site Nobelprize.org (em inglês).

 

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