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Geral
13-04-2020, 14h55

Trump pressiona para reabrir economia, mas Cuomo tem estratégia mais inteligente

Aras se omite ao dar parecer a favor de crimes de Bolsonaro
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Kennedy Alencar
WASHINGTON

Guardadas as devidas proporções, porque nos EUA os cientistas têm mais peso e são mais ouvidos pelas autoridades públicas do que no Brasil, o presidente dos Estados Unidos pressiona nos bastidores por uma reabertura da economia que pode ser prematura.

Nesse contexto, um recado dado ontem pelo imunologista Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, pode frear Trump, apesar de deixá-lo contrariado.

Fauci, que está na força-tarefa da Casa Branca, disse que, se isolamento tivesse sido adotado antes, mais vidas teriam sido salvas. Trump e alguns auxiliares na Casa Branca relutaram por três semanas, entre o fim de fevereiro e meados de março, quando as medidas foram recomendadas pelo presidente.

Ontem, Trump retuítou um comentário de uma aliada que pedia para ele demitir Fauci, porque ele quebra a nova narrativa que o presidente dos EUA tenta emplacar, a de que agiu a tempo e firmemente. Trump respondeu que baniu voos da China no fim de janeiro, contrariando muitos auxiliares.

É uma meia-verdade. Houve restrições de voos da China para os EUA, mas viajantes americanos continuaram retornando ao país sem checagem. Outro problema para a narrativa de Trump é a de que o vírus chegou a Nova York via Europa. Ou seja, o efeito da medida da qual tanto se gaba teria sido menor.

Amanhã, Trump deve instalar um conselho para elaborar um plano de reabertura da economia. Mas o problema continua a ser a falta de testes em larga escala.

É fato que medidas de mitigação começaram a dar resultado, mas ainda é cedo para pensar em afrouxar isolamento social ou reabrir economia. Trump, no entanto, tem pressionado nos bastidores para que isso aconteça o mais rapidamente possível. Tem medo do efeito sobre a sua reeleição.

O governador de Nova York, Andrew Cuomo, também é a favor de uma reabertura da economia, mas diz que isso é um processo que tem de ser pensado e que não pode ser implementado da noite para o dia.

O governador de Nova York se reunirá com colegas de cinco outros Estados para pensar num plano conjunto de reativação da economia em etapas lentas. Os seis Estados que discutiram uma saída em grupo são, por ora, Nova York, Nova Jersey, Connecticut, Pennsylvania, Rhode Island e Delaware.

Cuomo usou a imagem de uma válvula que tem de levar em conta o número de internações para ser reaberta. Ele reiterou que o distanciamento social mostrou ser possível controlar o vírus e evitar um colapso hospitalar. Portanto, uma reabertura da economia tem de manter a capacidade de atendimento da rede de hospitais em grau suficiente para lidar com o coronavírus. Ao falar, Cuomo é sempre mais sensato, realista e correto do que Trump.

*

O procurador-geral da República, Augusto Aras, não está à altura do cargo. Fazendo um papelão, preferiu se omitir ao dizer que retirada de presidente do poder se dá via Congresso. Não apenas. A Constituição permite que o procurador-geral da República denuncie o presidente por crime comum. Bolsonaro comete quase todo dia uma infração que pode ser enquadrada em crime de responsabilidade ou delito comum.

Segundo Aras, o presidente tem o direito de se posicionar contra o isolamento social e teria até o poder para mudar regra. Segue trecho da decisão: “As incertezas que cercam o enfrentamento, por todos os países, da epidemia de covid-19 não permitem um juízo seguro quanto ao acerto ou desacerto de maior ou menor medida de isolamento social, certo que dependem de diversos cenários não só faticamente instáveis, mas geograficamente distintos, tendo em conta a dimensão continental do Brasil”.

Se algo se provou correto, foi o distanciamento social. Um país continental como os EUA mostra que está funcionando. Aras age como engavetador-geral da República. Não dava para esperar nada de diferente de quem negociou a ida para o cargo atropelando a votação da própria categoria.

O jogo de brincar de política do Ministério Público Federal, especialmente de figuras pobres intelectualmente como Deltan Dallagnol mas sedentas de poder, acabou levando Bolsonaro a atropelar a lista tríplice da categoria e nomear um engavetador-gera da República. Essa lista foi respeitada nos governos Lula, Dilma e Temer. A Lava Jato, que tanto contribuiu para eleger Bolsonaro, recebeu uma banana do presidente por quem Dallagnol rezou na campanha.

Ora, bolsonaro contraria diretrizes de saúde pública do próprio governo ao dinamitar o distanciamento social e ao fazer propaganda enganosa sobre uma droga, a cloroquina. A imprensa americana publicou reportagens dizendo que um estudo brasileiro sobre cloroquina no Amazonas foi suspenso por causar arritmia cardíaca. A imprensa nos EUA é bem mais cautelosa ao noticiar a droga. Não há campeonato de reportagens contra ou a favor.

Trump e Bolsonaro tratam tal droga como a salvação da lavoura. Cometem um crime ao induzir as pessoas a achar que já haveria tratamento comprovado para curar covid-19. Não há. O que Bolsonaro faz no Brasil, ao defender cloroquina e dar exemplos contra o isolamento social, só desinforma as pessoas de modo irresponsável e ajuda a aumentar a tragédia que se abaterá sobre o país com o crescimento dos casos de covid-19.

Como diria o Romário, se Augusto Aras ficasse calado seria um poeta.

Ouça o comentário no “CBN Brasil”:

Comentários
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  1. João Marconi Pacheco disse:

    Parabéns pelo trabalho. Mantenha-se aguerrido.

    • Walter Nobre disse:

      Kennedy, os EUA precisa esperar pelo menos o inicio do mês de Maio para ter uma ideia mais apurada, não há segurança em abertura neste instante, nem por decreto não é seguro. No Brasil as possibilidades são mais viáveis, também teremos que aguardar este mês, quando deveremos direcionar o País para a economia, não temos condições para permanecer estagnado mais tempo.

  2. […] Fonte: Trump pressiona para reabrir economia, mas Cuomo tem estratégia mais inteligente […]

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