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Política
01-09-2017, 8h26

Um ano após impeachment, culpa da crise é de toda a classe política

Dilma faz críticas corretas à elite, mas ignora Presidência desastrosa
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KENENDY ALENCAR
BRASÍLIA

A ex-presidente Dilma Rousseff fez algumas críticas corretas ontem em um ato no Rio a respeito do aniversário de um ano do impeachment, votado pelo Senado em 31 de agosto de 2016. As elites econômicas do país são mesmo atrasadas e irresponsáveis, como afirmou a ex-presidente.

O país desigual que temos é reflexo disso. Agora, por exemplo, numa grave crise fiscal, a elite privada rica resiste a pagar mais impostos. A elite do funcionalismo defende privilégios, como receber supersalários acima do teto constitucional. Os mais pobres pagam a maior parte da conta da crise econômica.

No entanto, a ex-presidente deveria lembrar a responsabilidade dela no retrocesso político, social, econômico, ambiental e em diversas áreas vivido pelo Brasil. Ela tem culpa por ter feito uma gestão econômica desastrosa e por não ter tido capacidade política de permanecer no poder.

Foram os erros de Dilma que permitiram a rebelião na base de apoio congressual, levando a um golpe parlamentar, que primeiro decidiu derrubá-la para depois buscar provas. Provas essas cuja consistência ainda hoje é fruto de debate no meio jurídico, as chamadas pedaladas fiscais.

O STF (Supremo Tribunal Federal) até agora não julgou um recurso da defesa de Dilma que questiona a legalidade do impeachment. Passado um ano, já deveria ter dado essa resposta ao país.

O Brasil não era uma maravilha no governo Dilma. Pelo contrário. Ela permitiu a volta de uma inflação alta, jogou os juros na Lua, aumentou o desemprego e destruiu a política fiscal. Tampouco foi a presidente de esquerda que agora tenta aparentar. Sem mea culpa, perdem força as críticas de Dilma e do PT.

Os petistas e o ex-presidente Lula, aliás, permitiram a candidatura de Dilma à reeleição em 2014 quando tinham enorme crítica acumulada ao primeiro mandato dela. Ela fez a campanha eleitoral com um discurso e tentou governar com outro, agravando as dificuldades políticas que já tinha para se relacionar com o Congresso. Em 2015, perdeu a popularidade necessária para governar e resistir ao impeachment.

No entanto, as demais forças políticas também têm responsabilidade pela crise. O retrocesso vivido pelo Brasil em diversas áreas é uma construção da atual classe política, não apenas do PT. O PSDB, maior partido de oposição aos governos petistas, não aceitou o resultado eleitoral de 2014 e apostou na desestabilização do governo.

A intolerância no debate público e o crescimento da extrema-direita no Brasil têm participação decisiva do PSDB. Os tucanos perderam espaço para a extrema-direita _basta olhar as pesquisas eleitorais para constatar isso.

A ala liderada pelo senador Aécio Neves, que perdeu nas urnas e logo em seguida contestou o resultado na Justiça Eleitoral, aliou-se ao então presidente da Câmara, o peemedebista Eduardo Cunha, em 2015, para dinamitar as medidas econômicas do governo. Houve o festival da “pauta bomba”.

Depois, o PSDB deu aval ao impeachment. Só assim o PMDB chegou ao poder. Apesar da queda da inflação e dos juros, o presidente Michel Temer e a equipe econômica erraram ao optar por um ajuste fiscal gradual e com maior peso sobre os mais pobres. Faz três anos que o país só adota o receituário da austeridade, desde Joaquim Levy. Ninguém aguenta.

Meirelles e seu time dos sonhos agravaram a crise fiscal, expandindo metas deficitárias que dificilmente serão cumpridas. Não cobraram impostos dos mais ricos quanto tinham capital político para adotar essa medida e recuperar parte da capacidade fiscal do país.

A política de desoneração de Dilma, tão criticada hoje, foi um pedido da Fiesp e dos grandes empresários brasileiros. Solicitaram pagar menos impostos em nome da geração de emprego.

A equipe econômica de Meirelles não retirou esse benefício quando tinha força para fazê-lo. Hoje pena no Congresso. A reforma da Previdência ficou na gaveta de propósito e ganhou um contorno social que pune os mais pobres. Veio a delação da JBS, atropelando as chances dessa reforma.

Portanto, a classe política como um todo tem responsabilidade pela crise brasileira. A saída passa por um debate público mais responsável e menos populista, pelo sacrifício dos setores mais privilegiados do país e por uma política que permita a volta do crescimento da economia.

*

Debate perdido

Foi correta a decisão do presidente Michel Temer de suspender a extinção da Reserva Nacional do Cobre e seus Associados. O governo debaterá novamente o assunto por 120 dias para tomar decisão definitiva.

O fato é que a administração Temer perdeu essa batalha perante a opinião pública. Temer agiu certo. Parece estar saindo do tema como aquele ditado que diz: nem tão devagar que pareça provocação, nem tão depressa que pareça covardia.

Mas dificilmente o atual governo terá capital político para sustentar essa decisão. É um tema que deve ser debatido na campanha eleitoral. Candidatos podem defender, criticar e tentar convencer o eleitorado. É improvável que a medida ganhe apoio. Seria ruim permitir mineração numa área ainda bastante preservada. O impacto predatório da atividade é muito alto e ameaça porções da Amazônia.

Ouça o comentário no “Jornal da CBN”:

Comentários
13
  1. Edi Rocha disse:

    É um belo resumo para o que aconteceu no Brasil nesses anos. Essa de culpar somente o PT não cola mais. Todos estão deixando de fazer o que é melhor para o país. Esse é o problema!!!

    • walter disse:

      Caro, são 170 BI de herança negativa…poderíamos execrar o temer,e até cassar o seu mandato, mas o tempo não permite mais esta estratégia; a conversa mole da dilma, é de uma insensível, que não assume minimamente o que fez; não será tão simples assim…não fosse o ROMBO que ela deixou, poderíamos nos livrar do temer mais cedo; não vamos esquecer jamais..o PMDB foi por treze longos anos, aliados do PT, nem isso podem esquecer…”NÃO FOI E ACIDENTE”…este discurso do lula não colou, nem no Nordeste, em sua caravana catastrófica; se o PT quiser se “salvar” terá que assumir o desgoverno da dilma, e seus presos de estimação, que nem expulsos foram, do partido…

      • Sebastião disse:

        No momento que Temer prometeu mundos e fundos, assim como o eleitorado que pediu a entrada dele no lugar de Dilma, e assim como partidos que eram oposição a Dilma, diziam que tudo melhoraria após a saída dela, e a crise continuou, a responsabilidade é somente de Temer. Como é que o cara, ver uma crise, e um déficit deixado pela presidente Dilma, e acaba ampliando, e no ano seguinte, ainda mantém esse déficit? A responsabilidade ainda é de Dilma? Lógico que não! Tinha que reduzir os gastos, mas não, ampliou com políticas que muitos criticam e a chamam de populistas, como aumentou o Bolsa Família, aumentou o salário do judiciário, anúncios em massas nas redes de comunicações, aumento das emendas parlamentares, pagamentos de juros da dívida, mudou o cálculo do FGTS… Isso, numa época de pouca arrecadação, é ainda você continua jogando a culpa em Dilma? Se ela deixou esse rombo na época, que Temer viesse a mostrar-se capaz,e viesse a economizar o equivalente, não gastando mais,que Dilma.

  2. Leopoldo Rodrigues disse:

    Admiro essas informações, já falei antes sobre o assunto, toda a crise ECONÔMICA que o País sofre é oriundo dos desmandos de nossos políticos do País, todos sem exceção são irresponsáveis, bloquearam todas as medidas que foram tomadas pelo governo na época para que o País entrasse nessa crise econômica que nos encontramos hoje.
    Vale salientar que essa roubalheira não é de hoje, vem muito antes dos anos noventa, basta pesquisarmos o passado, basta rever os programas humorísticos da época que teremos as críticas diretas aos políticos, como por exemplo um personagem de um Deputado do programa Chico City.
    Admiro vocês da Imprensa que não questionam com perguntas diretas o porquê dos políticos não pagarem também a conta dos desmandos criados por eles próprios, porque eles não fazem uma assembleia para acabar com a mordomia deles, os aumentos absurdos que os mesmos recebem, com essa canalhice que estão criando para o povo pagar as despesas de campanha.

  3. Maria Aparecida Ramos Tinhorão disse:

    Essa devastação foi objeto de doutrina do “Forum de São Paulo”.
    Todas as esquerdas deslumbradas com a perpetuação do poder são cúmplices do saque ao erário público, à Petrobrás aos fundos de pensão, bancos estatais, empresas públicas, prefeituras e governos estaduais (vide Rio)… Foi a maior rapinagem em toda história planetária !!

    • Douglas Benassi disse:

      Não temos que nos preocupar com o Foro de S Paulo que prega a democracia plena, tem que se preocupar com um tal de Aécio que detonou o País e muitos nazistas abraçaram a causa dele, isso chama-se complô por perder a eleição.

  4. Anderson disse:

    É sempre bom ler uma matéria do Kennedy. É difícil hoje encontrar uma análise isenta como a dele que apresenta os dois lados.

  5. Isabel Chinelli disse:

    No meio desta depressão pela qual passamos, é um alento ouvir ou ler a opinião de pessoas que enxergam com clareza as causas da crise, a movimentação política, as manobras da classe política e seus graves efeitos.

  6. Jorge Cesar Siqueira disse:

    muito bom.

  7. Ótimo resumo. Eu acredito que foi um baita golpe. Na verdade desde as camadas menores da política falando de vereadores e prefeitos da minha cidade e estado o RS, sempre achei os políticos do PMDB superficiais e aproveitadores. Mesmo os que eu conhecia pessoalmente sendo empresários locais. Parece que o partido atrai este perfil. Aliás parece não. É bem isso mesmo.

  8. josiane disse:

    Acho que o país melhorou bem em comparação ao período das Trevas com Dilma.

  9. Marco Antonio Palomares Accardo disse:

    Um dos erros da presidente Dilma foi ter feito as desonerações, conforme solicitado pela FIESP, sem ter amarrado as pontas. De alguma forma as desonerações deveriam obrigar a empresas beneficiárias a investir essa economia de impostos na produção e, consequentemente, na geração de empregos. Seria criado, então, um círculo virtuoso: menos impostos mais investimentos mais empregos. Em vez disso, entrou-se no velho círculo vicioso: menos imposto,aumento dos lucros!A continuidade dessas desonerações, como vem fazendo o atual governo, é uma grande irresponsabilidade e revela um conluio com essa parte do empresariado aproveitador!

  10. Gauchaweb disse:

    Acredito que o que estamos passando não é bem uma crise, mas um momento histórico de descobrimento de farsas, manipulações, conspirações e crimes políticos. Isso que estamos chamando de crise na verdade é o fato de estarmos conhecendo a verdade. E a verdade gera crise. Porém essa verdade ao meu entender era necessária pois esvazia os cofres públicos a mais de 30 anos. Vamos lá. Que continue a crise então. Enquanto isso continuamos trabalhando, empreendendo e gerando recursos, e não riqueza, para sobreviver a isso tudo.

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2019-09-20 02:58:44