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Geral
12-08-2013, 0h01

Verissimo fala da obra, do pai, da neta e da vida


Lembrança da infância nos EUA

Quando eu tinha 7 [anos], nós fomos para os Estados Unidos. Meu pai [o escritor Erico Verissimo] foi lecionar na Universidade da Califórnia. A família foi junto. A lembrança da minha infância é desse período nos Estados Unidos, o período da guerra. Fiquei muito impressionado com aquela propaganda de guerra e tal… e com os meus brinquedos, solitários.

Eu só matava alemão e japonês. Inclusive meu pai chegou a me levar ao médico, porque eu tava matando muito alemão e japonês, muito inimigo. E o médico falou pra mim: “Deixa que as Forças Americanas vão resolver tudo, você não precisa colaborar tanto”. Sou um caso de neurose de guerra precoce, né? Depois virei pacifista pro resto da vida, depois dessa minha experiência guerreira.

O primeiro amor

Na casa que nós nos alocávamos, em Los Angeles, tinha uma pulseira que alguém tinha esquecido lá. Não era de ouro, obviamente, mas parecia de ouro. Então, um dia peguei essa pulseira pra dar pra essa menina. O plano era dar pra ela e conversar com ela, mas cheguei, entreguei a pulseira e saí correndo. Não tive coragem de falar com a menina.

Volta aos EUA na adolescência

Foi dos 16 aos 20 anos [quando morou nos EUA e fez o ensino médio, High School]. Foram quatro anos que nós moramos em Washington. Meu pai havia ido trabalhar na União Panamericana, uma organização de estados americanos, da parte cultural, e a família foi junto de novo. Foi um período interessante também. O primeiro período foi da Segunda Guerra Mundial. Esse segundo período foi da Guerra Fria, do macartismo, da integração nas escolas, a integração racial nas escolas. Então, em vez de me politizar com a política brasileira, eu tava nos Estados Unidos e acompanhei muito aquela questão da Guerra Fria, do macartismo, que foi uma coisa muito marcante. 

A influência do pai

Meu pai sempre se definiu como um socialista democrático. Ele teve alguns problemas na época com alguns outros escritores brasileiros que se definiam comunistas. Meu pai sempre fez a ressalva de que ele era um socialista, mas democrático. E teve até problemas. Ele era muito amigo do Jorge Amado, mas teve problemas na questão política. Continuaram amigos sempre. Então eu acho que a influência principal nesse sentido foi a do meu pai. A coerência dele sempre.

Paixão pelo jazz 

Eu sempre gostei muito de música, jazz principalmente. Quando nós fomos pros Estados Unidos, eu com 16 anos, resolvi que, já que tava indo pra terra do jazz, eu ia aprender a tocar algum instrumento pra poder brincar de jazzista. Meu grande ídolo na época era o Louis Armstrong, um grande trompetista. Cheguei a ver o Louis Armstrong tocando ao vivo. Fui procurar uma escola de música e queria aprender o trompete, mas eles não tinham trompete pra emprestar. Tinham um sax alto. Talvez eu seria o Charlie Parker, mas a minha ideia era só poder brincar de jazzista. Não tinha nenhuma ambição musical, vamos dizer assim. Aprendi a tocar com partitura, mas esqueci por completo. Hoje eu toco só de ouvido.

Estilo diferente do pai

Me tornei escritor por acaso. Não tinha nenhuma intenção de ser escritor, até justamente por ser filho de escritor. Eu achava que não devia ser, que não podia ser, mas, ao mesmo tempo, pelo fato de ser filho de escritor, eu sempre li muito. Eu convivi com escritores, além do meu pai. Houve essa influência indireta do meu pai. O fato também de viver em uma casa em que havia livros [me influenciou]. Tinha a biblioteca do pai. E eu sempre li muito, sempre me interessei muito por leitura. Então houve essa influência do meu pai, indireta, uma influência também de certa forma negativa por achar que eu não deveria ser escritor. Eu comecei a trabalhar com 30 anos, comecei a escrever com 30 anos, quando eu comecei a trabalhar em jornal. Até então não tinha nenhuma ideia de ser escritor nem muito menos jornalista.

Tentei várias coisas [antes de virar escritor]. Quando eu era guri, minha intenção era ser aviador. Quando chegou a adolescência, eu pensava em ser arquiteto. E acabei não fazendo nada disso. Eu me mudei pro Rio com 20 e poucos anos. Tentei lá várias coisas que também não deram certo. E conheci a minha mulher, a Lúcia, que é carioca. E quando não tinha nenhuma perspectiva, eu acabei voltando. Fiz a coisa sensata que é voltar pra casa do pai. E aqui então me convidaram pra fazer um teste na “Zero Hora”, que naquela época não era o que é hoje, um dos grandes jornais brasileiros. Naquela época, tinha uma existência bem precária. Então comecei a trabalhar como copidesque. Naquela época não precisava ter o diploma de jornalista. E descobri a minha vocação quando me deram um espaço assinado pra fazer crônicas depois de passar por todos os setores do jornal. Quando o cronista principal do jornal, que era o Sérgio Jockymann, um excelente cronista, passou pra um outro jornal, me convidaram pro lugar dele. Passei a ter um espaço no jornal e descobri minha vocação de cronista. Um pouco tarde, com mais de 30 anos.

Clarice Lispector 

Antes de mais nada, eu fiquei muito impressionado com a figura da Clarice, que era uma mulher bonita, uma mulher alta. E a gente conhecia a Clarice como uma escritora muito complicada. Aquela literatura dela era difícil, mas ela era uma pessoa que não tinha nada disso, uma pessoa muito aberta. Ela fez uma amizade muito grande com a minha mãe [Mafalda]. Eram duas pessoas opostas, muito diferentes uma da outra, mas se deram muito bem. Foi um convívio de quatro anos em Washington. Foi um convívio muito bom. Foi uma amizade até de certo ponto surpreendente dela com a minha mãe. Minha mãe era uma pessoa mais simples. Não era exatamente uma intelectual, e a Clarice tinha aquela aura da grande intelectual, escritora profunda. No entanto, se deram muito bem.

Textos na internet atribuídos a Verissimo

Já me resignei, dizem que não há como evitar isso. Incomoda porque, na reação das pessoas, muita gente vem me cumprimentar por uma crônica. E eu tenho que dizer: “Olha, essa não é minha” [risos]. E a pessoa insiste: “não é sua sim, é sua”. Não tem o que fazer, não tem o que fazer. A não ser se algum dia tiver algum problema de alguém difamar alguém e botar meu nome embaixo, mas até agora não aconteceu. Tem casos curiosos. Tem uma crônica chamada “Quase”, que andou circulando por aí e muita gente falava. Teve um senhor até que me disse: “Olha, eu nunca gostei muito do que você escreveu, mas essa crônica é sensacional”. E aí eu era obrigado a dizer que não era minha.

Prazo de entrega é sua musa

Ainda tenho que escrever a coluna hoje [quinta, 08/08], mas era muito pior quando eu tinha uma coluna diária. Era terrível. Tem que ter assunto todos os dias. O fato da crônica ser um gênero tão indefinido… até hoje ninguém definiu bem quando é que deixa de ser crônica, passa a ser conto ou passa a ser outra coisa. A gente meio usa isso pra escrever sobre qualquer coisa em qualquer estilo. Você pode um dia ficar sem assunto, inventa qualquer delírio.

Critérios da crônica ideal

A primeira preocupação do cronista deve ser prender a atenção do leitor, fazer ele ir até o fim. Fazer um texto atraente. Aí você pode tratar de qualquer assunto, seja sério ou não, com um texto atraente que prenda a atenção do leitor. Claro que nem sempre consegue. Tem muita gente que começa “ih, hoje ele tratando de política ou o que seja” e não chega nem na metade, mas o essencial é fazer um texto atraente.

Netos e filhos

O compromisso da gente com neto é muito mais confortável do que o compromisso dos pais. Os pais têm que educar. Os avós não têm essa obrigação. Então pode ser uma relação lúdica, sempre. Não tem nenhum compromisso mais sério. [Verissimo tem uma neta, Lucinda, musa de algumas crônicas]. Nossa única obrigação é estragar os netos. Paparicar e estragar. É fascinante você ver a formação de uma personalidade. Aos poucos, ela vai crescendo fisicamente. Ao mesmo tempo, a imaginação vai crescendo, e a Lucinda tem uma imaginação muito produtiva. É fascinante, é formidável.

Reflexões depois de ter ficado doente em 2012

Foi uma experiência importante. Eu quase me fui, né? Se bem que, naquele período, a última pessoa que estava pensando que eu iria morrer era eu mesmo. Eu tava ali, não sabia direito o que estava acontecendo comigo. Depois é que me contaram que realmente eu tinha quase morrido. Grave mesmo. Tive muitas alucinações engraçadas durante um período. Não tive nenhuma experiência mística, de ver o outro lado, mas tive alucinações e delírios.

Pode contar uma alucinação?

Me convenci de que, no centro de tratamento intensivo, no hospital em que nós estivemos, o principal hospital da cidade, tinha médicos fazendo contrabando de crianças vietnamitas no Brasil. Traziam pra entrar no Brasil. Eu via isso, eu via as crianças passando perto da minha cama, eu via os médicos tratando do assunto no telefone. É uma coisa fantástica como o cérebro da gente cria uma realidade. E a gente não tem noção de aquilo é um absurdo.

Continuo trabalhando, mas a gente fica com uma noção maior da nossa vulnerabilidade. Outra coisa que não dependeu da doença e sim do fato de a gente estar envelhecendo. A gente começa a pensar mais no fim, na morte…
me preocupa, me preocupa. Enfim, essa é uma experiência normal a todo mundo: a gente começar a contemplar o fim, o fim da vida. Eu defino a morte como uma grande sacanagem [risos], de ter essa experiência da vida, das coisas boas… sempre você vai ter um fim. É terrível, né?

Analista de Bagé e terapia 

Talvez precisasse, mas nunca fiz [terapia], não. Essa figura do analista [de Bagé, famoso personagem de Verissimo], os analistas pensavam que era uma gozação com os gauchistas, e os gauchistas pensavam que era uma gozação com os analistas. Então, ficou tudo em paz. Mas acho psicanálise uma coisa importante, acho que essas teorias de Freud e tal, da psicanálise, foram uma reviravolta do pensamento importante. [Nunca quis fazer terapia?]
Não. Na verdade, não. Procurar um analista pra se analisar é uma forma de se dar muita importância, de se levar muito a sério [Verissimo deixa claro que essa sua decisão de não procurar terapia não serve pra todo mundo, que respeita quem faz terapia].

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